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Foto: Cláudia Silva

24 Jan 2014, 19:16

Texto de

Opinião

Memórias do “Cinema Paraíso”

No tempo em que o Porto andava a pé ou de bicicleta, percorri vezes sem conta a Rua dos Mártires da Liberdade. Nem por sombras foi um martírio calcorrear esta artéria de prédios altos e roupa a secar nas varandas, antes um prazer com destino marcado.

Imagem de perfil de Manuel Vitorino

Nasceu no Porto (Paranhos). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, depois tirou uma Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Escreveu durante anos sobre cinema n'O Primeiro de Janeiro e trabalhou 23 anos no Jornal de Notícias. Faz parte da Direcção do Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto. Depois da cidade, gosta do FCP, mas também de caminhar pelo vale do rio Bestança. A Itália é o seu destino de eleição. Mantém em permanência o blogue Mau Tempo no Canal.

Foi sempre o corredor de acesso ao antigo Cinema Carlos Alberto, na Rua das Oliveiras, imperdíveis sessões de western, “A Cavalgada Heróica”, de Ford, os bons contra os maus à mistura com outros títulos escolhidos a dedo pelos meus amigos do Cineclube do Norte, como “O Fugitivo”, de Nicholas Ray, “Providence” e “Hiroshima, Meu Amor”, ambos de Resnais, “A Flauta Mágica”, de Bergman, “Kagemusha/A Sombra do Guerreiro”, de Kurosawa, entre quilómetros de filmes vistos com prazer redobrado.

Como naquela altura tinha tempo para quase tudo continuava a caminhada até Cineclube do Porto e por lá ficava até às tantas lendo e conversando sobre cinema, admirando filmes do pós-guerra, Vittorio De Sica, Antonioni, Fellini, Visconti, mais os clássicos de todos os tempos, Orson Welles, Eisenstein, Cukor, Dreyer, Tati, Hitchcock.

Faço um flashback para acrescentar o seguinte: na antiga Rua da Sovela com prédios esguios e gente a viver em sobressalto, lembro-me do roufenho eléctrico 7 a circular devagarinho em direcção ao Jardim da Praça da República, dantes cheio de camélias e aos domingos viveiro de soldados e criadas de servir da burguesia portuense, os deserdados de todas as condições sociais à espera de entrar nos Albergues Nocturnos do Porto, cafés e tascos, adeleiros, padarias, mercearias, alfarrabistas, antiquários de paixão, como a casa do meu amigo Severino Oliveira, diseur nas horas vagas, poeta, homem generoso no trato e no negócio de velharias.

Neste caminhar pela rua que homenageia os liberais de 1829 não posso deixar de lembrar o primeiro cybercafé, a velha casa de penhores de gente aflita (ainda tem porta aberta e pelos vistos o tempo andou para trás…) o prédio da revista Águia, da Renascença Portuguesa, mais a Livraria Académica, do livreiro Nuno Canavez, sempre forrada de preciosidades bibliófilas, raridades, sendo impossível passar ao lado e não ficar de olhos em bico diante da vistosa montra.

O retrato só ficará completo se acrescentar um facto: a estreita artéria já não tem a vida de antigamente. Perdeu gente, existem mais prédios abandonados, outros a pedir recuperação urgente, pouco comércio devido à crise, mas também ao facto de muita gente ter sido “centrifugada” (para utilizar a feliz expressão do meu amigo e historiador Hélder Pacheco), isto é, levada à força para a periferia da cidade e por lá aprender a viver de outra maneira, longe dos amigos e de tudo que possuía na Invicta.

Como o Porto tem várias faces termino o roteiro na Poetria, única livraria no país empenhada na divulgação e promoção da poesia e do teatro. A lojinha envidraçada faz parte do Centro Comercial Lumière e lá dentro já quase nada acontece. O Cinema Lumière, do exibidor Mário Pimentel, encerrou e virou parque de estacionamento e nem as montras coloridas da casa de postais antigos do Porto atraem olhares. Só a Poetria e a loja de flores situada em frente resistem às modas e à crise.

Há poucos meses, um grupo de amigos fundou a Cena Poétrica. Não resisti à boa causa. Objectivo: ajudar a promover iniciativas tendentes a captar mais leitores, gente empenhada em divulgar a poesia. Para nosso contentamento a Poetria é uma barca de muitos sonhos, cerca de 4000 títulos de poesia, livros únicos de Pessoa, Eugénio, Sophia, Pascoaes, Cesário Verde, António Nobre, Mário de Sá-Carneiro, mas também, autores da nossa contemporaneidade, Ana Luísa Amaral, Gonçalo M. Tavares, A.M. Pires Cabral, Al Berto, Eugénio de Andrade. Uma livraria, melhor, um oásis de liberdade e cultura no meio de tanta indiferença, desolação, abandono.

Com tanta gente a fazer de conta que é poeta apetece perguntar: onde está o país de poetas? Na porta virada para a rua continua fixado um poema retirado do livro “Os Lusíadas para gente nova” [Vasco da Graça Moura]: “O inimigo, às vezes, é Castela, que nem bons ventos traz, nem casamentos; outras vezes são Mouros na querela com os cristãos em todos os momentos. E depois, pelo Mundo, ao ir à vela, são muçulmanos sempre e os seus intentos. Camões dá nomes feios e cruéis, de que o menos cruel é infiéis”.

Quem quiser saber mais coisas sobre a Poetria basta aceder ao site da livraria. A poesia serve-se quente e não tem hora marcada para acontecer. Entre as ruas da Sovela e das Oliveiras existem coisas a descobrir. O Porto continua a surpreender-nos ao virar da esquina.

Opinião

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