17 Mar 2012, 12:42

Texto de

Opinião

Receitas mágicas: empreendedorismo e inovação

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A seguir à revolução de abril era a descolonização e a sociedade sem classes; nos anos cavaquistas, a adesão à comunidade económica europeia e "o p'ogresso". E hoje?

O pensamento ingénuo do senso comum pensa que, quando pensamos, pensamos pela própria cabeça. É verdade que pensamos com a cabeça, mas não necessariamente pela própria cabeça: porque o nosso pensamento, que pensamos único e pessoal, é em grande parte determinado pela forma de pensar que se impõe coletivamente em cada momento.

Quem diz pensar diz as suas manifestações concretas: investigar, pintar, escrever – criar. É por isso que não escrevemos hoje um poema de amor como o faziam Garrett ou Antero de Quental, é por isso que eles não escreveram os seus como o faziam os poetas do cancioneiro medieval.

Os discursos político e tecnocrático obedecem, naturalmente, ao mesmo mecanismo. A caricatura do modo de pensar num dado momento histórico são os seus refrães: a seguir à revolução de abril o refrão era a descolonização, as conquistas de abril, a sociedade sem classes, a perseguição às ideias e atitudes reacionárias (curiosamente a palavra reacionário é hoje utilizada já sem a conotação de coisa do salazarismo); nos anos cavaquistas de 80 e 90 o refrão era a adesão à comunidade económica europeia, a modernização (“o p’ogresso”, segundo Cavaco Silva), a formação profissional, o menos Estado melhor Estado. E hoje? Haveria muito por onde pegar. Vou selecionar duas palavras que atualmente parecem mágicas: empreendedorismo e inovação.

Empreendedorismo. Empreender é conceber e avançar, conjugar ideia e ação, juntar vontade e obra. A capacidade empreendedora é um dos traços que mais nos diferenciam dos outros animais, a história é a disciplina que dá conta dessa capacidade manifestada desde tempos imemoriais. Só que hoje reduzimos o empreendedorismo a uma ação puramente individual, promovendo a ideologia de que cada um de nós é o grande responsável pelo que de bom e de mau lhe acontece.

Num tempo marcado pelo hiperindividualismo, personalizamos o exercício do poder (“o primeiro ministro”, “o presidente do BCE”, “os senhores da troika”…), individualizamos o êxito empresarial (“o Belmiro”, “o Américo Amorim”, “os Motas”…) – dum modo geral, transferimos para o sujeito singular a ideia de capacidade e de mérito, responsabilizando-o pelo que lhe acontece ao longo do seu trajeto de vida. É capaz de empreender? Vencerá. É pouco agenciador, relaxado, dado ao ócio? Engrossará a turba dos desqualificados, dos desempregados crónicos, dos que resvalam para a pobreza.

E com este discurso os atuais poderes neoliberais que governam os principais pontos do diagrama da decisão política e da finança mundiais (instâncias cada vez mais sobrepostas) desresponsabilizam-se da tarefa do empreendimento coletivo, que é responsabilidade em primeira instância de toda a estrutura que governa, desde uma administração de condomínio a um conselho diretivo duma escola até ao governo da União Europeia.

O axioma neoliberal de que o princípio ativo do mundo é o mercado e de que neste vencem os mais empreendedores sujeita-nos a todos a um clima progressivamente mais competitivo, porque o espaço de mercado não é ilimitado e para uns vingarem outros terão de ficar pelo caminho. Se a competição é um traço inscrito na relação entre as espécies em qualquer ecossistema, erigi-la em princípio primeiro da existência social perverte a relação entre os indivíduos, exacerba a agressividade e, a prazo, produz uma elite de vencedores e uma imensa massa de derrotados.

É a instalação deste princípio neoliberal que destrói o poder integrador da relação de trabalho, que corrói o equilíbrio entre empresa integradora e empresa competitiva, que desgasta as relações laborais, que submete os indivíduos à evidência de que bater a concorrência é fazer melhor e mais barato, ou seja, trabalhar mais e mais qualificado ganhando menos, ganhando muito menos às vezes, não ganhando nada (o “ganhar currículo” dos estágios profissionais), pagando para trabalhar (quando a deslocação para longe consome mais do que o que se aufere).

O pano de fundo de tudo isto é a ameaça: não quer? Vá-se embora e deixe trabalhar quem está disposto a tudo no desespero das fileiras do desemprego. Cereja em cima do bolo: está desempregado? Tire um curso de empreendedorismo. A seguir, monte um negócio, uma microempresa, uma coisa qualquer. Não consegue ter clientes? Ainda não tem as competências necessárias, não desista da aprendizagem ao longo da vida. Faça outro curso de empreendedorismo – e assim por diante.

Inovação. O ser humano é mais curioso do que qualquer outro animal, experimenta o meio ambiente e consegue vantagens sobre os competidores. Apostar na inovação tem-se traduzido em grandes avanços e não vale a pena perder tempo em demonstrações. O que vale a pena, isso sim, é dizer que transformá-la numa obsessão põe a nossa capacidade pensante a conceber aquilo de que não necessitamos, enxameando o atual estilo de vida de necessidades artificiais, que resultam exatamente da compulsão à inovação.

Por outro lado, apostar na inovação como princípio abstrato que guia os novos tempos traduz-se, por exemplo no campo da investigação científica, no paradoxo de sabermos de antemão que tal ideia ou projeto é inovadora e, por isso, deve ser financiada. O que mostra a história das ideias e a história de cada domínio científico em particular é precisamente a quase impossiblidade de saber de antemão que algo vai ser inovador: uma ideia aparentemente desinteressante transforma-se às vezes numa influente teoria, uma teoria que impressiona quando aparece pode ser um nadomorto daí a uns anos.

Notemos ainda que o papel do acaso na descoberta está sobejamente demonstrado, muitas das evoluções decisivas em ciência resultaram de projetos em que não se reparou nem se financiou de início. Um dos exemplos mais espetaculares é o do raio laser: os físicos descobriram-no à procura de resolver um problema estritamente teórico, que parecia não servir para mais do que entreter o infinito engenho da mente: saber se era possível produzir um feixe de radiação que não fosse divergente. Passado meio século, é quase impossível inventariar aquilo que se fez com a aplicação do raio laser…

À luz dos critérios atuais, as pesquisas que conduziram ao raio laser talvez não tivessem sido financiadas pelos apóstolos da inovação que dirigem as estruturas que decidem dinheiros para universidades e centros de investigação…

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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