7 Jul 2011, 15:35

Texto de

Opinião

Que silêncio, senhores deputados!

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Exige-se resposta política à decisão de matar a ligação Porto-Vigo. Se não percebem que o que é bom para o Porto é bom para o país não merecem ser deputados.

O Porto nunca foi só o Porto. Foi o Norte, foi a região que vai de Aveiro a Braga (é-o sobretudo) e, em certos momentos, foi o “resto do país” contra a centralizadora capital.

Nos últimos anos, a região Norte que vive sob a influência do Porto tem sido muito atacada, nomeadamente pelos deputados que, não sendo os seus representantes, são eleitos pelos círculos eleitorais do Porto, Braga, Aveiro e Viana. Os resultados de políticas desastrosas na Indústria, Pescas, Obras Públicas e Administração Pública levaram a região a perder, com muito silêncio cúmplice de maiorias, no que dependia do Estado, a sua influência dinamizadora da economia nacional.

O setor das pescas (do “Mar”) nos pólos que vão de Aveiro a Viana tem vindo a deteriorar-se desde o consulado de Cavaco Silva (convém nunca esquecer); o setor têxtil e de calçado entre S. João da Madeira e Braga não estava suficientemente almofadado para a entrada no mercado global e para as diferentes dinâmicas de concorrência, porque muitos empresários portugueses gostam de confirmar a má ideia que temos deles, dos empresários portugueses, e porque os diversos governos não souberam criar políticas mais maleáveis no mercado de trabalho e no enquadramento fiscal desse setor exportador (houve o apoio à reconversão, mas não foi suficiente).

O peso do Estado centralizado a nível regional, com as suas obscuras dependências e recônditos gabinetes, também não permitiu que se adequassem as medidas centrais à realidade local, e os diferentes personagens não elegidos colocados em diferentes postos por razões que se desconhecem não vêm dar as necessárias explicações. E o motor gripou.

Pediram-se mais apoios para a região e políticas específicas, a ver se o motor voltava à vida. Mesmo sem elas, ancorado nos empresários que não gostam de contribuir para a imagem que temos dos empresários portugueses, o motor encontrou ainda alguma capacidade para rugir.

A capacidade exportadora mantém-se, em percentagem, a níveis anteriores, comparativamente ao resto do país (mesmo o que tem a Autoeuropa). Os grandes exportadores mantiveram as suas cotas, os outros (nomeadamente na madeira, calçado e têxtil) reconverteram-se. Uma consequência da mudança de paradigma é o número de desempregados e a taxa de pobreza: no Grande Porto o número de parados atinge valores-recorde (em Gaia/Espinho) e o Norte de Portugal continua a ser o desterro da Europa (veja-se o cúmulo do Vale do Sousa).

Numa ação de clara falta de discernimento, apenas para ganhar uns cobres, as primeiras vias rápidas que receberam as portagens, que vão levar o Estado a pagar ainda mais pelas estradas do que se não tivesse portagens, foram precisamente as do Porto que vai de Aveiro a Braga. Depois de o motor gripar, puseram-lhe água. Para as exportações, não sei que consequências resultaram desta medida, mas simplesmente analisando o número de turistas e consumidores galegos que vinham pela linha de costa até ao Porto ou Aveiro (até Fátima!) dá para fazer uma ideia. E a maior fatia de deputados da Nação eleitos pelo círculo eleitoral do Porto preocupou-se com o quê nessa altura? (Perfeita ironia) Com a abertura de um balcão de Finanças. Se calhar repito-me.

Depois de ter feito tudo para que a linha Porto-Vigo falhasse e o seu encerramento fosse inevitável, e de ter falhado, a CP aproveitou a situação para assumir a decisão e anunciar o seu encerramento. Não é nada de novo, já ocorreu com várias linhas do Interior que começam com obras absurdas e acabam encerradas. Mas o Porto não é Beja ou o Pocinho, por isso exige-se uma resposta política a uma decisão administrativa de uma empresa mal-gerida. E se não percebem que o que é bom para o Porto (e Braga, Aveiro e Viana) é bom para o país não merecem ser deputados.

Já agora, o senhor Presidente da República, que no 10 de Junho louvou o Interior, não interveio em relação ao encerramento das obras do túnel do Marão e duvido que o faça sobre as linhas férreas irresponsavelmente encerradas. Talvez se os jornalistas lhe perguntassem…

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Pelo menos a deputada Catarina Martins do BE tomou várias iniciativas sobre o tema: 1 Projecto de Resolução e uma Posição Conjunta do BE/Bloco Nacionalista Galego

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