5 Dez 2013, 13:21

Texto de

Opinião

Professores da Escola Pública fazem o pleno no jogo da hipocrisia

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Fazem-me lembrar alguns treinadores da antiga RDA que treinavam os filhos dos outros na lógica do sistema mas proibiam os seus filhos de entrar na senda da promoção desportiva de elite.

Hoje, alguns que me aplaudem em outras ocasiões vão-me atiçar os cães pois vou-lhes descobrir a careca.

O funcionário público consubstancia uma nobre condição de serviço que tem o bem comum como referência. Nada mais nobre e elevado que servir a grei arrostando com as insuficiências e bloqueios burocráticos que caracterizam as máquinas estatais que aqui e ali empenam por insuficiência, comodismo, demissão e acomodação.

Cantoneiro, médico, funcionário das finanças, magistrado, calceteiro, professor, juiz, auxiliar de educação, recolhedor de lixo, diretor de serviços, todos são necessários para o bom funcionamento de uma sociedade.

A dignidade no serviço público não pode estar condicionada por fatores conjunturais. Ninguém se pode eximir de dar o seu melhor pela causa pública mesmo que os governantes do momento sejam caraterizados pela inépcia e falta de sentido de Pátria.

Vem isto a propósito de alguns professores da escola pública que vociferam contra o sistema, insurgem-se contra a burocratização da escola, gritam bem alto a sua revolta contra a desvalorização da função docente, apontam o dedo a ministros impreparados manobrados por interesses plutocráticos mas que no que respeita às suas opções são os mais fervorosos defensores da escola privada. Mais, fazem gala, como se tivessem comprado um mercedes, em afirmar o quanto lhes custa as propinas dos filhos nos feudos privados da educação.

Estes professores, exemplares na hipocrisia, tentam racionalizar o não racionalizável, encontrando para a sua cedência ao privado as mais espúrias justificações. Fazem-me lembrar alguns treinadores da antiga RDA (República Democrática Alemã) que treinavam os filhos dos outros na lógica do sistema mas, conhecedores das práticas ilegais e patológicas vigentes, proibiam os seus filhos de entrar na senda da promoção desportiva de elite. Aceitavam perfeitamente que as pílulas de vitaminas fornecidas aos jovens ginastas e nadadores fossem “potenciadas” por esteroides anabolizantes mas evitavam que os seus filhos as tomassem, pois sabiam dos resultados patológicos de tal prática. O doping era assunto de estado e o êxito desportivo daquele país estava alicerçado na mais execrável mentira.

Execrável mentira em que se alicerça também o suposto êxito das escolas privadas. Com a permissão de vários governos do PS e PSD, proliferaram escolas privadas que mercantilizaram a Educação e criaram sérios entorses à dinâmica da escola pública. A Educação tornou-se um negócio que permitiu a emergência de várias “ilhas de pureza” não contaminadas pelas classes mais desfavorecidas.

Essas ilhas de pureza são bem elitistas. As freirinhas que dirigem algumas escolas privadas de caráter confessional parecem a Gestapo a interrogar os pais de filhos candidatos a essas alvas ilhas, não conspurcadas socialmente. E muitos professores da escola pública, e muitos médicos dos hospitais públicos, e muitos magistrados dos tribunais públicos prestam vassalagem a essas “santas” diretoras que se arvoram no direito de separar o trigo do joio. O joio que vá dar com os ossos indigentes nos calabouços da escola pública.

Deixem-me ser vaidoso.

Sou professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Somos a melhor escola de desporto e de educação física de Portugal. Isto não é jactância de pedante; este estatuto é unanimemente reconhecido. Qual a razão da nossa força? Sermos uma escola pública aberta a todos mas com exigentes critérios de qualidade. Essa qualidade exige-nos uma luta diária até contra os nossos comodismos. Essa é a missão de toda a escola pública por muitos maus tratos que os governantes de ocasião nos proporcionem. É dentro da escola pública que devemos permanecer não permitindo cedências aos interesses privados.

Com os critérios de seleção bem estabelecidos, todos os anos nos entram portas dentro os melhores. Só que fruto do despudorado proliferar de escolas privadas e públicas de péssima qualidade os nossos alunos, quando terminam os cursos, vêm-se ultrapassados pelas médias exorbitantes resultantes da reduzida exigência de algumas escolas públicas ou da lógica do PPP (Paga Propina Passa) das escolas privadas.

Daqui deriva a imperiosa necessidade de arranjar um momento de aferição da valia dos saberes e competências adquiridos. O Sr. Crato não tem razão em avaliar a posteriori os professores que lecionam há muitos anos. O mal já está feito e é difícil senão impossível de corrigir. No entanto, tem toda a razão do mundo quando pretende estabelecer um mecanismo de avaliação inicial para todos os que concorrem ao ensino público. Essa será a forma de trazer alguma justiça ao processo de formação e seleção dos professores. A escola pública só deve estar aberta aos mais capazes, motivados e competentes e não pode ser o vazadouro dos frustrados dos vários cursos.

De uma certa forma, a incongruente atitude dos funcionários públicos que enviam os seus filhos para o ensino privado configura uma traição ao seu múnus profissional e que lhes retira qualquer legitimidade de crítica ao sistema. Quem se assume como funcionário público, no que mais nobre tem a função de servir os outros, deve lutar, cada dia, sem cedências ou desfalecimentos para melhorar a causa pública, mesmo contra aqueles que dentro da missão pública de servir pactuam com o mercantilismo na Educação.

Meus amigos. Uma escola inclusiva que integre os filhos dos médicos, professores, advogados, magistrados, economistas com os dos ciganos, desempregados, drogados, presidiários e outros excluídos sociais, pode não ser a escola modelar com elevada pontuação nos rankings mas é uma escola de verdade que representa a sociedade. Escola justa que permitirá, se ela existir, a emergência da excelência mesmo naqueles que nascem nos berços da miséria. Uma escola pública de qualidade permitirá sanar algumas feridas que marcam o tecido social e principalmente a mais letal de todas – a segregação social.

Senhores professores na escola pública que cedem aos interesses do privado. Por favor, por uma questão de coerência não emitam opiniões sobre aquilo que não vos interessa. Calem-se e usufruam da vossa hipocrisia.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Jorge Dias says:

    Gostaria de dizer o seguinte: Esses tais professores do ensino público, são cada vez mais uma raridade no sistema. A maior parte não progride na carreira, anda de casa ás costas e não compra mercedes nem sequer tem dinheiro para colocar os filhos no privado. Já agora, convido-o a visitar algumas escolas publicas para saber se colocava lá os seus filhos. Acrescento, reconheço grande competênica á FADEUP!! Tenho amigos e dou enorme reconhecimento a si – Prof. José Augusto e admiro professores como a Professora Susana Soares, admiro imenso o Prof. José Soares e mais alguns. Mas não se tome a FADEUP como um todo.Realizei lá o meu Mestrado e foi tão fraco, tão fraco..que decidi partir para a FEUP, fazer o Doutoramento. Portanto sugiro cuidado e menos tenacidade quando se colocam titulos em noticias de opinião. Colocar Professores em vez de alguns pouco professores, induz a opinião publica erradamente. Não me consigo encontrar no seu texto. Sou Prof. de Educação Fisica, há 18 anos, percorri o país, ganho 1230 euros e nao ando de Mercedes..ando de Metro. Um bem haja

  2. Branco Lima says:

    Entendo o que Professor escreve neste artigo e subscrevo-o na íntegra e faço-o porque me revejo no que escreveu, porquanto: 1 – Sou Funcionário Público; 2 – Fui aluno da melhor Escola de Desporto e de Educação, onde sempre com o estatuto de trabalhador-estudante me licenciei e mais tarde me tornei mestre de ciências do desporto em treino de alto rendimento.
    Fazer o curso nessa faculdade tão exigente e paralelamente com a necessidade de “ganhar o pão” para poder educar e sustentar os meus filhos só foi possível perante a paixão que sempre me acompanhou. Mas a classificação atribuída no meu diploma baseada nos critérios de exigência fizeram de mim um preterido pela imensa e “fraca contrafação” de professores de educação física com que essas escolas PPP infestaram o ensino público e privado. O Estado investiu na formação de centenas profissionais através do ensino público e depois desperdiçou esses investimentos ao corromper-se com os interesses do ensino privado e também de algum ensino público. E não se julgue que isto só se passou na formação dos “professores de ginástica”, mas também em outras áreas, como a área da matemática. Esta é a triste realidade de um país que não se conseguiu libertar do analfabetismo herdado do Estado Novo.
    Hoje o Professor é a segunda pessoa da faculdade, que eu tenha conhecimento, que veio a público dizer que o “rei vai nú”, por isso os meus parabéns.
    Mas enquanto aluno, cabe-me também referir que se por um lado a nossa Faculdade se bateu por uma formação de excelência, por outro deixou-se embalar num fundamentalismo de classificação não cuidando dos interesses nossos alunos. E isto para não falar das “frígidas e falsas beatas” que enquanto professores do ensino público eram ferozmente parcos nas notas a atribuir, e no ensino privado esbanjam em elevadas e devassas classificações.

    • José Alberto Pereira says:

      Caro colega Branco Lima. Talvez não te recordes de mim, mas eu recordo-me bem de ti. Confirmo tudo o que dizes e sei bem do teu incansável esforço para te formares, numa altura que poucos professores valorizavam o teu empenho. Foste um vencedor, esta é a GRANDE VERDADE.
      O teu último parágrafo, subscrevo por baixo e com a mesma convição.
      Um grande abraço deste colega que lecciona na Escola Secundária de Paredes

  3. Nuno says:

    Só tenho duvidas numa questão. A prova como mecanismo de «aferição da valia dos saberes e competências adquiridos», quando há estágios profissionais, onde isso já acontece, sendo que deviam ser as próprias universidades, em primeiro lugar, a apresentar resultados dos professores que formam e quando se investe cada vez menos na formação inicial de professores. Por outro lado tenho que referir um ponto. Esta prova não é de acesso à carreira, mas a um concurso publico nacional. Já agora se quiséssemos ser totalmente sérios, deveria haver provas para todos, mesmo efetivos, quando estes estão na posição de subida de escalão.

  4. “A montanha pariu um rato”…
    Quando li o título, seguido do primeiro parágrafo pensei :
    _”Vem aí “bordoada” da grossa”…
    Mas afinal não. O que li e que assino na totalidade, é apenas uma crítica pertinente, a um determinado conjunto de pessoas incongruentes.
    Gente que de alguma forma consciente ou inconscientemente, tenta encontrar nas suas atitudes e acções o reconhecimento e importância social, que de outra forma sentem não lhe ser dada.
    A este “nível” de formação, não deveria ser admissível este tipo de comportamentos, mas “pertence-lhes”…
    O que não compreendo nem aceito, é esta falta de confiança nas Instituições e Organismos Públicos, que preparam ao longo de tantos anos a formação da população em geral.
    Não compreendo nem aceito, é esta exigência à classe de Professores, quando existe toda uma classe política, à qual apenas se lhe exige a escola básica e “Jogo de Cintura.!!!
    Não compreendo nem aceito, é que um País seja governado por gente tão desqualificada, sem qualquer reconhecimento Institucional ou Público, a não ser o do simples ou, à Cavaco, “mísero” voto.
    A Escola em geral, como qualquer empresa, deve ser defendida e prestigiada, pela sua organização e controle e não apenas pelos resultados e capacidades que exterioriza, como os “exames” ou os “inventários” finais que fazem, que podem ser manipulados.
    Sim, compreendo e aceito um exame final aos Professores mas dentro de uma lógica de uma organização, como existe nos médicos, advogados, etc, uma Ordem dos Professores.
    Agora sobre a Escola Pública.
    Sou um defensor acérrimo.
    Os meus filhos fizeram a escola Pública.
    Não por falta de dinheiro, felizmente, mas porque sei da importância dos afetos, das vivências e dos saberes sociais que só ela oferece pela heterogeneidade da sua população.
    Compreender as diferenças, não é o mesmo que senti-las…

    Parabéns Zé pelo teu texto e Bom Natal…

  5. José Santos says:

    Admiro-te a escrita, a congruência da opinião com os factos, e o espirito crítico e aberto que sempre evidenciaste ao longo dos anos.

  6. Susana Soares says:

    Gosto do texto, admiro a escrita e isso já sabe, claro! :)
    Mas quero colocar uma pergunta prática:
    Alguém tem coragem de enviar os filhos para a forca?
    É que há aqui uma defesa da escola pública no condicional: “Uma escola pública de qualidade permitirá sanar algumas feridas que marcam o tecido social e principalmente a mais letal de todas – a segregação social.”
    “Se” (o tal “se” condicional!) um dia a escola pública voltar a ter qualidade permitirá. “Se” não voltar, não permitirá, e “se” poderá voltar a ter, não tem hoje e agora.
    Talvez a melhor estratégia seja, para os que ainda vão podendo, dar uma formação adequada aos filhos (fica-se sem Mercedes e viagens, mas são sacrifícios que se fazem por eles)e tentarem manter-se tão ativos quanto possível na luta pela otimização do ensino público. Desculpe, meu colega e amigo, mas não tenho coragem para por os meus filhos à mercê dos objetivos mínimos, do booling, da violência… Para o ano vou ter um no ensino público e já estou em pânico. Espero que seja infundado ou que vá para uma turma de “elite” numa escola de “elite” pública. Pois, é que também há escolas de elite públicas…Este fenómeno é de uma complexidade tal que já nem atirar a direito acerta no alvo.
    Diz o ditado que “quem tem C… tem medo”. Pois quem tem filhos, tem pânico.
    Já vi que temos assunto :)
    Às vezes também temos que discordar 😉 :)

  7. José Alberto Pereira says:

    Concordo com esta reflexão perfeita do professor Zé Augusto com quem privei muitas vezes,apesar de não me ter dado aulas na faculdade mas que me deixou frequentar, as suas turmas, algumas vezes para melhorar as minhas capacidades e que há pouco tempo reencontrei na Academia de Dança de Paredes.
    Uma grande lição de verdade para muitos “colegas” hipócritas que temos no ensino público. Acredito que o ensino público inclusivo é o mais correto e assertivo para a sociedade e os meus três filhos irão procurar ser felizes nele com as suas virtudes e defeitos.
    Um bem-haja ao professor Zé Augusto pela coragem, por ser incisivo e frontal como sempre o vi.

  8. Mariana de Carvalho says:

    Caro Professor José Augusto (e Professor Ricardo e Professora Susana também),

    A FADEUP (FCDEF) é a minha casa non-stop desde 1999, e tenho muito orgulho desta casa pública e exigente, como deviam ser todas as academias, e todas as escolas, e como foi a minha escola preparatória de Ermesinde(sim, eu ainda sou do tempo anterior às EB2,3 – otempo passa…) e como foi a minha escola secundária de Ermesinde.
    Concordo que deveria haver um nivelamento por cima, que não é de forma nenhuma trazido pelos privados que leccionam Desporto como cogumelos. Mas este teste é uma palhaçada… as diferentes faculdades poderiam ter um ranking de qualidade e este ranking deveria contar para a colocação de Professores, e não apenas a nota. Ou poderia haver um exame nacional quando se sai da faculdade, à semelhança do que acontece com os médicos, da responsabilidade da tal ordem dos Professores, por exemplo. Agora assim, a meio do jogo mudar as regras com um teste a fazer de conta, não me parece bem…

    Viva a FADEUP e viva a escola pública de qualidade. Saudações desportivas

  9. João Egdoberto Siqueira says:

    Este é o José Augusto, meu professor, orientador, a quem considero amigo. Nada a acrescentar, sempre a apoiar!!

  10. FOliveira says:

    Não vejo qualquer incongruência no facto de um professor de escola pública ter o seu filho a estudar numa escola particular.
    Nem tenho ideia de ter ouvido algum professor dizer que se deviam fechar as escolas particulares.
    Tanto quanto me apercebo, o que os professores contestam são as medidas que põem em causa a escola pública em benefício das escolas privadas.
    Acho que o cronista não está bem a ver o problema.
    P.S.: A maioria das escola privadas não são geridas por “…freirinhas…parecem a Gestapo a interrogar os pais…”.
    E não, não sou professor.

  11. Plinks é uma rede social para promover a interação de crianças, jovens e educadores do Ensino Fundamental. Além de apoiar o ensino da leitura, da escrita e damatemática, o Plinks envolve os professores na cultura digital e estimula a aprendizagem dentro do universo lúdico dos games. A Fundação Telefônica apoia esse projeto desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna com parceria da Joy Street e do Instituto Natura.

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