15 Jan 2012, 20:46

Texto de

Opinião

Privatizações. Da EDP ao largo da Vitória

A venda do largo da Bataria da Vitória não tem o fulgor de uma EDP, mas é mais escandalosa. Penso que é a primeira vez que um município vende um espaço público.

Bataria da Vitória

A vista a partir do largo. Fotografia de George Tait, de 1888

Na EDP, pretendia-se fazer a privatização de parte do capital do Estado Português. Deu em entrada de empresa pública chinesa. Mantém-se o Estado, com Comunismo chinês 1, Liberalismo PSD-CDS 0. Mas o comunismo na China já não é o que era, apesar de se manterem as “boas regras” do partido único e do controle social, e também o dito liberalismo afinal não parece passar de uma vaga ideia de suporte a um qualquer rumo, que, afinal, não se traduz em medidas, entre austeridade sem fim, nem lógica, e vendas do melhor que sobra a preço de saldo, mais nomeações de boys, men and women e quebra de toda e qualquer promessa eleitoral, substituído que está, com alívio generalizado, o ar determinado e severo sob o cabelo grisalho do anterior PM, pelo ar cândido e meigo do novo PM de cabeleira loura.

No Porto, a venda do largo da Bataria da Vitória não tem o fulgor de uma EDP, nem gera jobs para boys e girls. Todavia, é mais escandalosa, pois que se trata de vender um largo, um espaço público e não parte de uma empresa.

Penso que é a primeira vez que uma instituição pública municipal (que o mesmo é dizer um município) vende um espaço público. Já se tinha assistido a concessões variadas, sobretudo para esplanadas, ou mesmo para a colocação de contentores transparentes ilegais (mas que continuam lá a ridicularizar os tribunais no Largo Parada Leitão), mas venda de um largo? Não, ainda não tinha havido, que me lembre.

Já muito foi dito sobre a coisa. Quase tudo. Mas insisto ainda assim, aqui, em lembrar que o largo que serve de fabuloso miradouro ao fundo da Rua de S. Bento da Vitória (aberta por D. João I para abrigar judiaria), sobre o Morro da Sé, as ribeiras e a encosta de Gaia, foi mandado construir há mais de 2 séculos pelo primo do Marquês de Pombal, o grande João de Almada (que, como D. Pedro IV, não tem direito e ter o seu nome em rua ou praça: uma vergonha para a cidade!).

Nesse largo (que não tinha outro dono senão as pessoas da cidade) se colocou a bateria dos liberais comandados por D. Pedro IV (os portuenses diziam – e dizem – “bataria”, e é esse o nome que está em rua próxima). A atestar o facto pode ver-se uma bala de canhão vinda de Gaia (onde estavam as tropas miguelistas) encrustada na parede sul da Igreja de S. Bento da Vitória.

Este espaço foi gradeado, para evitar “más práticas”, pelo que consta. Daí a ser “apossado” por quem morava ao lado foi um pequeno passo. Mas, tendo largo e casa vindo à posse municipal, quem e como explica que se possa ter vendido o largo em hasta pública promovida pela FDZHP (instituição que Rui Rio, por sinal, prometeu terminar há largos anos)?

Felizmente, por proposta do PS, há deliberação (aprovada por unanimidade) a garantir acesso público sem restrições ao lugar. Mas convirá acompanhar as cenas dos próximos capítulos! Até porque a única solução decente seria – será! – a de reconhecer o erro e tratar de fazer reverter de novo o largo para a posse municipal.

Sempre achei que a cidade resiste. Os presidentes vão e vêm e, mesmo as asneiras graves, são mais tarde incorporadas na cidade e o disparate remetido para a memória de uns quantos eruditos. Mas… confesso a minha incapacidade de pensar em privatizações de espaço público. Espero que a moda não pegue.

Em tempo de crise já se tinha ouvido falar da venda de ilhas gregas, porventura do leasing da Madeira, agora venda de largos e praças?…

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. A cada dia pasmo de espanto! Desde a saúde aos espaços públicos, parece que o país inteiro está à venda.
    O que mais seremos obrigados a ver?
    Parabéns pelo artigo e pelo alerta, José Alberto.
    Um abraço.
    Branca

  2. Paulo Fidalgo says:

    Sempre gostava de saber qual seria o objectivo da venda: criar um jardim de namorico oficial, seguro e a pagantes, uma sede de uma empresa ou uma sede de campanha?! O local já tem, e ao comprador também podemos dizer:-tem vista! Quanto ao vendedor, enfim, está a vender bem alheio…perdão bem comum!

  3. Manuel Leitão says:

    À excepção das despropositadas referências aos chineses – estou certo de que não é por racismo, mas que lhe importa se são chineses, portugueses ou de qualquer outra nacionalidade? – estou de acordo consigo. E, por uma vez (pena não serem mais…), com o PS. Quanto a escrever segundo o novo acordo ortográfico, esclareça-me, por favor: a palavra controlo passou a ser escrita em língua francesa? Obrigado!

  4. Sónia Rodrigues says:

    Ainda bem que a indignação não mata… Porque este artigo deixou-me tão irritantemente perplexa que não admiraria se me desse uma coisinha má… Mas que roí, roí! Há circunstâncias tão incompreensíveis que rondam a anedota. Ainda me angustia mais a forma como se escondem estas coisas. Obrigada, Sr. Professor, pelo alerta.

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