8 Jul 2011, 23:45

Texto de

Opinião

Portugal vai fechar?

Com Portugal quase a fechar, já planeio onde hei-de ir inscrever-me: quero ser dum país que ainda não esteja a ser avaliado pelas agências de rating.

De acordo com a ideologia neoliberal que ameaça dominar o mundo, os países são empresas. Por qualquer razão inerente a esta nova ortodoxia, uns organismos pardos chamados “agências de rating” empenharam-se de há uns tempos a esta parte em mostrar que alguns são empresas ingovernáveis, que façam o que fizerem isso e muito mais os encaminha apenas para a falência.

Por mim, não discuto. Portugal é realmente uma empresa, o conselho de administração que tomou posse em Junho ainda não fez nada e já é mau, e, por isso, estamos na mesma a ir à falência, como já estávamos com Sócrates. Não duvido, porque são agências de rating, que não sei o que são, que disseram. Estamos, portanto, a uns passos (Coelho) do abismo.

As empresas, quando se tornam inviáveis, despedem os trabalhadores e fecham portas. Ainda agora nos deram Portas e já vamos ter de fechar portas? Não me conformo. Mas a verdade – porque não duvido das tais agências – é que Portugal vai fechar.

Portugal, SA. Portugal é uma má empresa, Portugal é lixo – dizem elas. E só pode ser verdade. Portanto, vamos ser despedidos. Os que já estão desempregados, ficam-no duas vezes. O senhor Manuel, que vinha cá a casa consertar fechaduras, é um serralheiro no desemprego. Agora, é um desempregado da serralharia e um desempregado de Portugal.

Num país antigo como o nosso, em que por causa disso tudo vai devagar e demora tempo, o senhor Manuel ameaça ser um desempregado de longa duração. De qualquer modo, também já não viria cá mais a casa, porque desisti de chamar quem quer que seja, com medo de me desfazer dos últimos tostões. E nem podemos ir ao instituto de emprego, porque toda aquela gente que acertava connosco a prestação social não escapa ao facto de ser portuguesa – portanto, todos desempregados.

O instituto de emprego, que só era isso para quem lá trabalhava, agora nem isso. Num país a fechar, tudo o que era agora nem isso. Os bancos, por exemplo: antes roubavam-nos, agora são roubados, por causa das tais coisas que já disse o nome e não percebo o que são. As agências, sim.

Dantes, as agências eram coisas boas: lembravam-nos viagens, excursões – na pior das hipóteses, idas a Tuy nas camionetas da Resende.  Agora, são coisas que nos classificam, e a nossa classificação é lixo. Menos mal: o nível seguinte – sim, tomemos consciência de que isto ainda não bateu no fundo – é o abaixo de cão. Portugal abaixo de cão – mas ainda acima de Marrocos, pelo menos no mapa.

E a única empresa realmente internacional e de grande sucesso, o FC Porto, corre também o risco de ser desclassificada e ver Moutinho passar a Moutinhozinho e Falcao a passarinho.

Com Portugal quase a fechar, já planeio onde hei-de ir inscrever-me. Sim, quero ser dum país – dum país qualquer. Pensando melhor, dum qualquer também não. Dum país que ainda não esteja a ser avaliado pelas agências de rating. Pode até ser um país com muito lixo, não importa, desde que não seja lixo para as empresas de rating. Pode ser o Lixemburgo, o Lixenstein – quero inscrever-me num país que não vá fechar.

Já pensei em ir para a Madeira, Alberto João disse que essas tais agências não entram lá mais. Algum dia viria uma boa notícia da boca de Alberto João, mas a Madeira não é um país, e eu queria mesmo um país, um país mesmo. E depois, pior do que uma agência de rating, só um sítio que não é um país governado por um senhor que é Alberto João.

Já pensei em fugir para o Porto, Rui Rio também disse que detesta essas tais de agências. Mas também não é um país, e vivo em Gaia só para não ter de viver num sítio onde é Rio quem manda.

Andorra. Isso, Andorra! Qual é a sua nacionalidade?, perguntar-me-ão os portugueses desempregados do seu país. A minha nacionalidade? Respondo eu com o ar de quem se livrou dum pesadelo: Andorranho, amigo, ando ranho! Bem vistas as coisas, cada um anda como pode e ninguém tem nada com isso.

Luís Fernandes escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.