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Foto: Dario Passos

9 Abr 2018, 15:22

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Opinião

O Porto que ninguém deseja

Uma das críticas recorrentes ao momento que se vive no mercado imobiliário do Porto tem a ver com a gentrificação da cidade. Não podemos negar o facto de haver situações de exagero, em que o lucro fácil e rápido se sobrepõe ao bom senso, esquecendo muitas vezes que há direitos a conciliar e, diga-se, um sentido de humanidade a preservar.

Imagem de perfil de Miguel Aguiar

Miguel Aguiar nasceu em 1971 e é licenciado em Engenharia e Gestão Industrial pela Universidade Lusíada. Durante 12 anos desenvolveu a sua actividade profissional na indústria automóvel, como director comercial na Fehst Componentes, em Braga. Em 2006 criou o Grupo Business, uma parceria com a Remax que se estendeu até 2015, ano em que se dá uma mudança de parceiro, entrando a Keller Williams, dando origem à KW Business.

 

No entanto, estes movimentos predatórios não são uma regra. São a excepção. Quem trabalha no sector imobiliário sabe que o Porto vive um momento invejável, dinâmico e onde as oportunidades de negócio se multiplicam. O Porto, como já o escrevi, está na moda e assim vai continuar.

Perante a avalanche de críticas, raramente se refere a cidade que actualmente se abre perante os nossos olhos. E é disto que também quero falar. A reabilitação do edificado, que conhece um impulso sem precedentes nos últimos anos e tem vindo a transformar a face do Porto de forma radical, criando uma cidade requalificada, agradável e atractiva. Basta percorrer ruas como Mouzinho da Silveira, Flores ou a própria Ribeira para percebermos que há uma nova cidade vibrante, cosmopolita, de cara lavada. A reabilitação urbana é a mola que impulsiona esta nova imagem do Porto, longe do decadente cenário que até há bem poucos anos era o quadro comum.

Pessoalmente, rejeito um regresso ao passado pejado de ruas esconsas e muitas vezes inseguras, dos cafés e restaurantes encerrados a partir do final da tarde e, principalmente, de um parque habitacional a cair aos pedaços, sem utilidade nem rentabilidade. Este é o Porto a que ninguém deseja voltar.

Querer fazer do mercado imobiliário o bicho-papão de todo este movimento é, além de fácil, desonesto. Quando se levanta o coro de críticas, nunca se refere, por exemplo, que as rendas estavam absolutamente desajustadas, para baixo, o que levava a que nenhum senhorio tivesse interesse em “pregar um prego” fosse onde fosse. Nunca se refere que o Porto estava há décadas a sofrer uma sangria de população assinalável. Nunca se refere que o turismo era incipiente, limitado a umas visitas desgarradas às caves de Vinho do Porto. Apenas se grita contra o apetite voraz do sector imobiliário.

O Porto que todos desejamos terá que ser, obrigatoriamente, um equilíbrio entre emoção e razão. A emoção de uma cidade com características únicas, com o seu povo à cabeça, e a razão de que numa economia de mercado diabolizar uma actividade que gera riqueza e, mais importante, emprego, é um caminho que ninguém deseja.

Opinião

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