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5 Nov 2017, 16:37

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Opinião

Porto: da cidade estandarte, pela Cunha e até à sétima arte

Estreou há duas semanas, no Cinema Trindade (Porto), a película “Porto”, sendo o primeiro com esta dimensão internacional a ser filmado na cidade Invicta. Tem a realização de Gabe Klinger, produção executiva de Jim Jarmusch e conta com Anton Yelchin e Lucie Lucas como atores principais (numa distribuição nacional de Bando À Parte e NOS Audiovisuais e com o apoio da marca ‘Porto.’). E uma parte do filme passa-se no emblemático restaurante-confeitaria Cunha, agora ainda mais mediatizado com a ordem de despejo que recebeu e que tantos cidadãos tem indignado e bem. Pois um espaço único como esse não pode perder essa sua identidade peculiar de longas décadas! De registar, ainda, outros sítios importantes do Porto revisitados neste filme: terreiro da Sé, estação S. Bento, ponte de D. Luís e ligação à Serra do Pilar (em V.N.Gaia).

Imagem de perfil de André Rubim Rangel

André Rubim Rangel é “tripeiro de gema” (cidade e clube). Licenciou-se em Teologia, tem curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e é mestre em Ciências da Comunicação (ramo Jornalismo). Além de jornalista é professor profissionalizado contratado. Trabalha no semanário ‘Voz Portucalense’ (repórter e redator). Dirigiu alguns órgãos: o ‘JornalVERIS’ (que fundou e administrou), a revista ‘Espaço Solidário’ (co-fundou, além de diretor de Informação da ODPS); o marketing da revista ‘A Folha dos Valentes’ (e seu redator); e o ‘Jornal da P@z’. Como colunista e repórter voluntário, escreveu regularmente: no jornal ‘O Primeiro de Janeiro’; no semanário ‘Grande Porto’; no jornal ‘Diário do Minho’; e no jornal ‘Gazeta do Planalto e Região’ (S.Paulo, Brasil). É, ainda, presidente da Associação para o Diálogo Multicultural (ADM) e membro dos órgãos sociais da Associação Alma Mater Artis. Foi e é dinamizador e moderador de largas dezenas de debates e conferências de cariz geral, entre outros eventos. Em termos pessoais, é colecionador e amante de presépios, entre outros hobbies.

O ator principal, Jake Kleeman, aborrece-se com o trabalho fixo, dizendo “não viver para trabalhar”, ao passo que gosta de ler, de epigramas gregos, de ouvir música e de sair à noite.

A atriz principal, a parisiense Mati Vargnier, veio para Porto pós-graduar-se em Arqueologia do período mais clássico após ter tido um professor português (João) da U.Porto na Universidade de Sorbonne, com quem acabou por se envolver e, mais tarde, casar e depois se separar. Dessa relação resultou uma filha em comum e já adolescente. Não quer deixar o Porto porque gosta da cidade, considerando-a bonita.

Mas antes desse matrimónio / separação, a ação desenrola-se entre os dois atores principais, que se conheceram nas escavações e encontraram-se horas depois desse mesmo dia no restaurante-confeitaria Cunha, passando uma noite juntos no quarto alugado de Mati. Na manhã seguinte, ela deixou-o por sua vontade, já que estava enamorada de João. Na altura, custou a Jake essa decisão, que não compreendia, mas teve de acatar e de se afastar. Anos mais tarde, reencontraram-se, no café Ceuta, e ela pediu-lhe ajuda com as mudanças: tinha agora um outro quarto alugado, perto da Casa do Infante, na rua mesmo em frente ao rio Douro. E ele assim fez e, novamente tentados e apaixonados, a religação foi instintiva e fatal, numa noite de envolvimento cúmplice um com o outro.

Sentiam-se predestinados um ao outro antes de acontecer: “Isto é tão real como se não tivéssemos escolha”, num “resultado imprevisível”, sem saber se a perda seria melhor que o proveito. Ou acreditando, conforme uma expressão musical, que “perder é bem pior do que não ter”. Jake admite sentir ter encontrado agora, nesta relação, a felicidade pela primeira vez. E, mais adiante – numa troca de temas com a companheira –, afirma que “os loucos não sabem lidar com a falsidade do tratamento que estão a ter”. Depois de uma noite intensa e já alta a noite, voltam a sair à rua. E o sítio naturalmente escolhido foi o restaurante-confeitaria Cunha, não só pela inspiração simbólica e umbilical no início da relação entre ambos, mas também por ser o espaço de restauração da Baixa portuense aberto até às 2h da madrugada.

De referir, por fim, que o ‘mixing-studio’ do filme realizou-se na Escola das Artes da UCP Porto. Entre as dezenas de agradecimentos especiais elencados no ecrã, no final, de destacar o nome do cineasta Manoel de Oliveira.

Concluindo, estamos perante um filme que – se fosse um livro – dividir-se-ia em três básicos capítulos, assim ali fragmentado em três partes inerentes: as duas primeiras dedicadas, separadamente, a cada um dos atores principais e a terceira colmatada com os dois atores finalmente juntos, num registo mais contínuo da nudez peitoral da atriz, ao longo da intimidade que predomina nessa parte conclusiva do filme.

Acaba, portanto, com os dois apaixonados a olharem-se fixamente, deitados e deleitados no silêncio sorridente de, apenas e muito, se contemplarem. É um minuto de silêncio, um minuto não de luto, mas feito de felicidade. E é essa felicidade que o Porto gera e não degenera, porque o Porto é felicidade e, também ele, feito de histórias, momentos e vidas de felicidade. A felicidade é do Porto, nele está a eterna felicidade!

O RESTAURANTE-CONFEITARIA CUNHA
Retomo o que, em 2014, escrevi – para um jornal já extinto da cidade – sobre este restaurante-confeitaria conceituado e paradigmático do Porto, que necessita agora do particular apoio e solidariedade de todos os cidadãos e instituições do Porto. Não só este espaço, como também o seu dedicado, amigo e carismático gerente, Fernando Ferraz.

Passo a citar: “Fernando Ferraz é o portuense proprietário desta reconhecida casa centenária do Porto, com 60 funcionários, e a ela se entrega «de alma e coração». Começou aos 10 anos naquela que considerou ter sido “a melhor casa e escola do Porto na área”, a chocolataria Arcádia. Já esteve ligado a 12 restaurantes, como sócio, antes da Cunha. Curiosamente, como mediador imobiliário – que ainda o é – vendeu a Cunha a uns brasileiros no Porto, depois estes regressaram ao seu país e venderam o espaço (dos maiores do Porto, 4 salas para 300 pessoas sentadas no total), que o gere há 22 anos. São, portanto, 60 anos dedicados à restauração, nos seus frescos 70 anos: “sinto-me com a mesma vontade e dinâmica de quando tinha 30/40 anos”, comenta ao JV.confeitaria cunha_1_DR

Este ‘timoneiro’ mantém assim a excelência de qualidade da Cunha, num ambiente familiar e conquistando muitos clientes (bem frequentado e onde se incluem figuras públicas, como os edis do Porto: o atual e os anteriores).

Destaca como especialidades da confeitaria (8h-20h) e restaurante (12h-2h): os bombons da Cunha, pão-de-ló, bolo-rei (tudo fabrico próprio), as francesinhas – em 1.º lugar há mais de um mês no facebook, na escolha dos clientes – o cabrito assado no forno, o bacalhau à Cunha, bife na pedra especial, as tripas à moda do Porto, a mesa buffet (comida à discrição, por €9,90), almoços com comida regional (por €5), para além de queijos e charcutaria. Para além destes serviços, a Cunha também realiza banquetes, bodas e eventos para grupos. É, sem dúvida, uma casa de referência!
(sita na rua Sá da Bandeira, 676, Porto  |  tel.: 223 393 070  |  não fecha).

Quanto ao futuro está, portanto, em aberto – e a aguardar decisão da C.M.Porto – poder vir a ser inserido no programa camarário «Porto de Tradição», que preserva o património arquitetónico e cultural de estabelecimentos e lojas do concelho. De facto, faz todo o sentido tendo em conta que nasceu em 1906 (como padaria) e está num edifício imponente, projetado pelos arquitetos Victor Palla e Bento d’Almeida.

Hoje mesmo, domingo dia 5 de novembro, decorre uma mobilização cívica da sociedade civil portuense em se juntar na Cunha e ali jantar, sob o mote: “Todos à Cunha!” – contra o seu fecho (o despejo anunciado é até abril de 2018). Foi criado este evento em página da rede ‘facebook’ e, até ao momento desta crónica, 67 pessoas confirmaram que vão e 120 estão com interesse, num evento que gerou 30 partilhas.

Opinião

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