1 Jul 2011, 9:50

Texto de

Opinião

Porto capital Santiago

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Quando os jornais do Porto fecharam, houve algumas comoções, mas nada que os fizesse voltar à vida. A região que os devia defender borrifou-se para eles. Os leitores não os compravam, as empresas não lhes compravam publicidade, as instituições não os patrocinavam.

Os média continuam a não saber reagir à crise, à longa crise que os assalta.

O último a fechar foi o “Galicia Hoxe”. Domingo, a redação preparou a derradeira edição do jornal que chegou pela última vez às bancas no dia seguinte. Fala-se que se manterá uma edição online, mas não é certo.

Mesmo em Espanha, a imprensa regional de referência ancorada na necessidade de uma diferença, sobretudo linguística, e da defesa dessa diferença, fica naturalmente mais pobre. Alguns meios queixam-se da falta de apoio e o Bloco Nacionalista Galego diz que a Xunta cortou nas subvenções dos media escritos/falados em galego. Sendo verdade, temos de ter em conta que vivemos em sociedades capitalistas, mesmo que distorcidas – e quer a Galiza, quer o Norte de Portugal são exemplos claros de sociedade capitalistas distorcidas –, por isso é natural que os média não tenham só apoios do Estado, seja central, seja das regiões (lá) ou das câmaras municipais.

Os media precisam de manter alguma distância para poderem ser independentes e isso só se consegue com investimentos de diversos setores, bancos e Estado, empresários e associações.

O mais bem sucedido jornal português, aquele que até poderíamos pensar que dispensa bancos e Estado, publicou no fim-de-semana o seu renovado estatuto editorial. Nele, o “Expresso” diz que “há notícias que deveriam ser publicadas em local de destaque, mas que não devem ser referidas (…) porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional”. Diz-se que as notícias vão ser analisadas caso a caso, mas tenho alguma dificuldade em perceber como e quem define o que é interesse nacional? Os leitores, a direção, a administração, o governo?

Este ponto do estatuto lembra-me quando a direção de um jornal do Porto decidiu fazer “jornalismo pela positiva”. Era um jornal regional e decidiu que devia defender os interesses da região, mesmo que não tivesse colocado essa decisão em estatuto editorial. Não deveriam ser destacadas notícias que pusessem em causa o interesse da região e por região dever-se-ia entender as câmaras e as instituições que patrocinavam o jornal. Quem definiria, portanto, o interesse regional? A direção comercial, a direção do jornal e a redação ou a administração?

Quando os 2 jornais do Porto fecharam (o JN é um jornal nacional), houve algumas comoções, mas nada que os fizesse voltar à vida (bem, um dos títulos ainda vegeta). Tal como ao “Galicia Hoxe”, de nada lhes valeu, cada um à sua maneira, lutarem pelo interesse regional. Aliás, porque a região que os devia defender borrifou-se para eles. Os leitores não os compravam, as empresas não lhes compravam publicidade, as instituições não os patrocinavam.

Não sei o que acontecerá no caso galego, mas sei que, anos depois, no Porto, amiúde, os leitores queixam-se de não estarem suficientemente representados nos média de Lisboa, as empresas queixam-se de que “está tudo concentrado em Lisboa” e as instituições que “os média só querem saber de Lisboa”.

No domingo, quando os jornalistas fechavam pela última vez o “Galicia Hoxe”, e 5 dias depois da tomada de posse de um novo governo, todos os média portugueses (incluindo o JN) davam destaque ao acidente de automóvel de um jovem famoso e a uma perseguição policial em Sintra.

Não é com sensacionalismo, com favores ou concessões que o jornalismo sai da sua própria crise.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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