11 Mai 2011, 7:26

Texto de

Opinião

Por um “projecto de cidade” com arquitectura

A arquitectura só poderá voltar a ter um papel significativo na transformação do Porto se puder ser o motor de um verdadeiro "projecto de cidade", assumido e defendido por um projecto político culto e cosmopolita.

O Burgo Empreendimento, na Avenida da Boavista

O Burgo Empreendimento, projecto de Souto Moura. Foto: Francisco Restivo

Ao longo das últimas décadas, a arquitectura tornou-se num tema recorrente em diferentes discursos políticos proferidos nos mais variados quadrantes. Fora dos circuitos especializados, as obras dos arquitectos converteram-se em marcas do lifestyle contemporâneo, povoando, hoje, diversos meios de comunicação destinados ao consumo de uma classe média pretensamente “informada”.

Esta progressiva difusão teve, para os arquitectos, uma face entusiasmante – uma maior presença no espaço mediático –; mas gerou, do mesmo modo, uma face perversa – a transformação da arquitectura num objecto de “adorno” da retórica política. Não há, hoje, autarca que não a utilize como “muleta” discursiva em matéria de política urbana, ignorando, tantas vezes, o significado cultural desta disciplina na transformação da cidade.

Olhemos o caso do Porto. Há uma década, a cidade tornava-se Capital Europeia da Cultura, nomeação obtida através de um ambicioso programa de reabilitação da baixa, e que apostava, precisamente, na arquitectura enquanto elemento de relação entre políticas urbanas e culturais; ou seja, considerava a reabilitação arquitectónica como um “acto de cultura”.

Foram então lançados concursos ou convites, de âmbito nacional e internacional, envolvendo diversas gerações de arquitectos na reabilitação da cidade, num momento em que o prestígio da sua renomada “escola” de arquitectura parecia inversamente proporcional à presença dos seus docentes e ex-alunos no projecto do espaço urbano. Em diversas frentes, e apesar do arrastamento temporal de algumas obras, esses arquitectos legaram à cidade uma espécie de “corrente sanguínea” cívica e cultural, estabelecida entre espaços abertos e equipamentos renovados para diferentes públicos e apropriações.

Nos anos que se seguiram a 2001, aquela corrente foi abruptamente desviada. As gestões autárquicas sequentes desbarataram essa herança cultural em prol do entretenimento fácil, destinado ao consumo massificado, com destaque, quer para a “privatização” populista do Teatro Municipal Rivoli, quer para a organização, em regime de outsourcing ou de franchising, de festivais gastronómicos, de corridas de automóveis, ou de campeonatos de acrobacia aérea. Uma política de gestão plural do espaço urbano deu assim lugar a uma política de “pão e circo”, absolutamente contrária à tradição cultural da cidade.

Também nas políticas urbanas, e sobretudo ao nível da reabilitação habitacional, assistimos, nos últimos anos, à padronização da oferta imobiliária de promoção privada, em detrimento da organização pública e responsável da procura espontânea. A reabilitação urbana, em curso, assenta numa lógica de “pronto-a-vestir”, para um cliente abstracto, de médio e alto standard, em vez de apostar num processo “feito à medida” dos velhos e novos habitantes da baixa, sobretudo das classes criativas que a vêm “okupando” e dinamizando, comercial e culturalmente.

Essa mesma lógica promove a destruição do miolo dos quarteirões, deles sobrando pouco mais do que a cenografia das fachadas existentes. Trata-se de uma operação de “cosmética urbana” onde pode até existir um desenho arquitectónico, mas onde não existe “arquitectura” no seu sentido eminentemente cultural.

A arquitectura só poderá voltar a ter um papel significativo na transformação do Porto se puder ser o motor de um verdadeiro “projecto de cidade”, assumido e defendido por um projecto político culto e cosmopolita. A aposta em futuras operações deve, neste sentido, juntar a iniciativa privada ao tecido institucional da cidade, privilegiar concursos abertos com programas necessários e responsáveis, e estabelecer o debate entre criadores oriundos de várias gerações, latitudes e culturas arquitectónicas.

Uma cidade deve saber reinventar-se sem o deslumbramento fácil do que só “vem de fora”, nem a defesa paroquial do que só “vem de dentro”. Uma cidade, tal como o discurso e a prática política, tem de saber encontrar a sua forma, sem nunca esquecer a sua substância.

Opinião

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