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Foto: Arq/Cláudia Silva

25 Mar 2014, 15:53

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Opinião

Por que vou votar em Marinho Pinto?

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Desde já um esclarecimento prévio que evidencia o meu grau de tolerância sociológica e que está, de momento, ao nível da Madre Teresa de Calcutá. Numa escala de 0 a 100 que inventei e que avalia a importância em humanismo dos vários estratos sociais humanos, os advogados obtêm -24, ou seja, um miserável ponto à frente dos benfiquistas que obtêm o último lugar com -25.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Portanto, verifica-se que não tenho grande apreço por esta classe profissional que vive nos entrefolhos das mais pestilentas patologias sociais. Talvez por isso, alguns deles, tocados pelo pathos em que vegetam, se constituam como verdadeiros predadores sociológicos que exploram as fraquezas humanas até ao limite do delito e da subversão axiológica.

Alguns dos mais execráveis momentos da política portuguesa têm advogados como fautores ou factótuns. Escuso-me a mencionar nomes que todos conhecem. Depois, na ágora nefanda do futebol, alguns advogados aproveitam-se da força mediática deste maravilhoso fenómeno social para lavrarem os terrenos da sua imundice mental e baixos interesses.

Posso dizer que muito do que de pior o homem cria tem advogados como diligentes construtores. As manobras maquiavélicas destes aprendizes de diabo deixam o seu mestre vermelho e cornúpeto que rege as profundezas do inferno inchado de raiva e inveja. Nem o diabo consegue ser tão procústeo como o mais conspícuo dos advogados.

No entanto, contrariando a seiva pútrida que escorre de tão degenerada profissão, existem advogados, muitíssimo poucos, que se movem por valores de dignidade, humanismo e elevação ética. É preciso procurá-los como agulha no palheiro mas existem essas avis rara que merecem o ápodo de defensores dos fracos e oprimidos.

Torna-se difícil de descortinar se os raros advogados que se movem por valores de dignidade humana o fazem por opção consciente e respondendo às mais profundas exigências éticas que lhe motivam os passos ou porque não conseguiram, ainda, vender-se aos lupanares das grandes sociedades de advogados que controlam poder político e economia.

Os conglomerados de advogados criam teias sociais de interesses, normalmente malévolas, e zonas de influência que desvirtuam as regras da justa licitação judicial e, mancomunados com juízes e outros funcionários judiciais, fogem de qualquer tipo de controlo político e social. E, com a mesma facilidade com que enviam os seus membros para as zonas de poder político, locupletam-se com chorudos contratos provenientes desse mesmo poder político que ignora ou menospreza os quadros com formação jurídica que fazem parte do serviço público e entrega a estas seitas marginais o veredito sobre muitas decisões que afetam o viver coletivo.

No renhido campeonato da ignomínia e dolo social temos vários advogados ou licenciados em direito a disputar os lugares que dão medalha.

Vai disputar-se o grande jogo. De um lado os advogados e seus pares recobertos com a diáfana manta da jurisprudência. Do outro, os anjinhos (também se pode ler anjolas, tansos, asininos ou ingénuos). A equipa dos jurisconsultos está repleta de ases alguns recrutados noutras profissões. O manager não se eximiu a gastos para construir uma equipa imbatível. Fez várias aquisições de luxo. Atentemos nas equipas:

 

Parte integrante do artigo de José Augusto Rodrigues dos Santos

A equipa dos “defensores da lei” joga num elástico 1-4-3-3-2 contra um conservador 1-4-2-4 dos anjinhos. A coisa começa a cheirar mal pois cada equipa só pode ter 11 jogadores mas os advogados têm 13. Vá-se lá saber porque é que o jogo começa com o beneplácito do árbitro que tirou o curso na federação de futebol de Boliqueime que não é reconhecida pela UEFA. O árbitro permitiu que a equipa dos mauzinhos, perdão dos advogados, jogasse com 13, já que estes convocaram o artº 32, parágrafo, 17, alínea f, acrescentado pelo decreto-lei 32.987/92, alínea g, parágrafo 2.4, corrigido por portaria 435, alínea 7, parágrafo 435 de 30 de fevereiro de 2004 … continuando a justificação até cedência do árbitro e do adversário. Cheira-me que o jogo vai dar vitória fácil aos advogados até porque o árbitro recebeu de prenda um bolo-rei bem recheado.

Dizia eu que há advogados honestos. Em princípio, juntar advogado e honesto só por antinomia mas, tomado por um espírito de concórdia que me faz enfileirar na equipa dos anjinhos, quero acreditar que existem advogados que não torcem a lei aos seus interesses e dos seus clientes mas exploram a lei na procura da verdade, seja isso o que for.

Desde a sua chegada à direção da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, afrontou a lógica latifundiária das grandes sociedades de advogados que fazem o vaivém mais despudorado entre os corredores do poder político e os obscuros corredores da lei. Quantas leis, na assembleia da república, foram gizadas ad hoc, para servir os pérfidos interesses de muitas sociedades de advogados e da sua rede tentacular?

Quis-me sempre parecer que Marinho Pinto, apesar da sua costela trauliteira, é um homem de princípios morais robustos apesar de estar errado em algumas das suas convicções. Dou como exemplo o ataque continuado que tem feito a Paula Teixeira Cruz, motivado pela lógica corporativista de quem não consegue ver reduzir o seu espaço de intervenção social. Qualquer português de bom senso reconhece que há tribunais a mais, como a mais também haverá escolas, universidades, cursos, autarquias, etc. Marinho Pinto tem de reconhecer que fomos um país de excessos e que muitas das dificuldades que agora vivemos tiveram o desmando como leitmotiv. Marinho Pinto sempre me pareceu pugnar por uma justiça que, a cada momento, seja escrutinada e corrigida. Afrontou todos os lobbies com coragem. Juízes, políticos e os próprios advogados tiveram em Marinho Pinto um contrapoder que lutou pela verdade e pela dignidade da justiça. Merece um prémio por ser honesto.

Por isso vou votar nele.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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