7 Out 2011, 11:31

Texto de

Opinião

Por que se calam os carrilhões?

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Da leitura do vastíssimo programa de concertos do Dia Mundial da Música e de "manobras", fica-me no ouvido uma nota dissonante: o silêncio dos carrilhões.

Sábado, dia 1 de Outubro. A tarde está quase no fim. Subo a estação de metro dos Aliados, ao som da festa exterior que se propaga até ao canal ferroviário. Chegada à superfície, surpreendo-me com o ruído festivo que mantém ali uma pequena multidão, presa ao rufar dos tambores. Sim, o som é de fanfarra de bombeiros. Não há palco, discursos, nem palavras de ordem. Apenas o som dos bombos atrai a atenção de uma dezena de pessoas.

“O que estarão a comemorar?”, interrogo-me, por momentos, só por momentos, pois logo me ocorre que é Dia Mundial da Música. Eu mesma vou celebrar a efeméride, daqui a pouco, com Carlos Tê, que a convite da Cordão de Leitura, vai contar “Como se fazem as canções”.

Com alguma boa vontade concluo que ali na praça vai ter lugar – ou já teve – algum espetáculo relacionado com o Dia Mundial da Música. Porque é normal a fanfarra vir à frente, animar o ambiente e chamar o povo para a festa. Com boa vontade, repito, pois é pouco provável que a esta hora esteja para começar o que quer que seja junto ao edifício-sede dos Paços do Concelho. “Talvez logo à noite”, conjeturo, lembrando os “mil eventos” do projeto Manobras que, durante 5 dias – mas com carga reforçada no fim-de-semana –, enxameiam o centro histórico.

Hora e meia depois, atravesso novamente a praça, agora praticamente deserta, o que me faz deixar cair a hipótese de qualquer realização mais tardia.

Uma consulta ao vasto programa das Manobras confirma-me que, para a hora a que os tambores rufavam na praça, não estava programado evento algum para o mesmo local.

E continuo intrigada. Que diabo! Qual foi o acontecimento-âncora que chamou os bombos? Ou foram os bombos que por sua iniciativa chamaram o povo?

Questão de pormenor? Pois seja. Os pormenores têm por vezes, muitas vezes, a importância de tornar claras as questões maiores. E aqui trata-se de perceber por que, no dia em que o Porto celebra o Dia Internacional da Música com 50 concertos das mais variadas expressões, o povo aflui à “sala de visitas” da cidade em horário nobre e volta para casa ao toque de bombo.

Da leitura desse vastíssimo programa de concertos e manobras, amplamente divulgado, fica-me no ouvido uma nota dissonante: o silêncio dos carrilhões.

Sabendo da vinculação do povo à paróquia e havendo na cidade vários órgãos de tubos, nomeadamente na Sé Patriarcal, no mosteiro de S. Bento da Vitória e nas igrejas da Lapa e do Marquês de Pombal e a que pode juntar-se ainda o do edifício Fnac – associados apenas pela proximidade –, creio que seria mais grato ao povo que o Porto assinalasse o Dia Mundial da Música com os seus carrilhões em concerto. Com vantagem nos custos.

Por que se calam os carrilhões numa data como esta? 

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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