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Foto: Arq/Cláudia Silva

20 Jan 2014, 22:55

Texto de

Opinião

A ponte imóvel

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Talvez tenha sido coisa do demónio a coincidência de avariar a ponte móvel e, ao mesmo tempo, terem iniciado as obras na A28.

Imagem de perfil de Carlos Pereira Santos

Quase sempre jornalista, começou no assassinado jornal O Comércio do Porto e daí seguiu para O Jogo, O Norte Desportivo, A Bola e RTP-N. Actualmente, encontra-se de novo n'O Jogo. No jogo das palavras, escreveu um quase romance, “A Candidata”, que aconselha a quem ainda não leu. É co-autor da biografia de Jorge Costa, o Bicho, e foi o ghost writer da biografia de Vítor Baía, até este revelar a autoria... na apresentação do livro. Coisas que acontecem a quem acha que nada acontece por acaso. Nasceu em Leça da Palmeira, indiscutivelmente, o melhor de todos os cantinhos onde existe vida, e tem uma paixão eterna pelo Porto.

Já passou, mas não passou despercebido. Talvez tenha sido obra do demónio; pode ter sido obra do demónio (Chico Sábio, leceiro, que está bêbedo desde 1976 quando a mulher lhe desapareceu de Angola, conhece estas coisas do demo, e garante que foi o chifrudo).

Conta-se assim o que só hoje é possível contar, mas garanto que o assunto foi mais do que discutido, inclusive pelo Chico Sábio (“foi o gajo, garanto-lhe”).

Foi num dos últimos dias de Novembro, umas 15 horas, eis-me no pára-arranca, a sair de Leça rumo ao Porto. Com entrevista marcada com um daqueles tipos que não gostam de esperar. Ainda estou na Quinta da Conceição, e isto que não anda. Quem é da terra tem obrigação de conhecer os caminhos que os forasteiros ignoram. Vou a Santa Cruz do Bispo e meto-me depois pelos atalhos?

Não, vou mesmo na bicha, hei-de lá chegar.

Nem dois minutos depois a bicha andou um metro. Que bicha!

Pára-arranca, pára-arranca, pára-arranca. Chego, enfim, à faixa de aceleração da A28 em obras.

(queres ver que este boi não me vai deixar entrar? Deixou! Uff,! Obrigado amigo).

A que horas vou eu chegar ao Porto? Soubesse eu disto e tinha seguido o conselho do Chico Sábio. (“Fique-se por Leça”).

A verdade é que já sobrava impaciência. E fazer inversão de marcha?! Quatro horas (ou 16 horas da tarde como pomposamente anunciaram outro dia na TVI a hora de um jogo de futebol) e à minha direita ainda estava o Porto de Leixões. Lá ao fundo, a ponte móvel, peço perdão, a ponte imóvel, fechada ao trânsito de peões e carros, óptimo para o ego separatista Leça-Matosinhos, mau para o negócio. Sim, muito mau para o negócio. Uma ponte com uma doença mais típica de jogador de futebol, é dose. Foi-se uma rótula e a ponte, peço perdão, ficou de cornos no ar. Não é todos os dias que avaria uma rótula de uma ponte móvel.

Sim, talvez tenha sido coisa do demónio a coincidência de avariar a ponte móvel e, ao mesmo tempo, terem iniciado as obras na A28. E a juntar a isso, a colaboração notável de quem manda chover porque choveu muito pelo menos num dos últimos dias de Novembro, quando o povo já começava a disparar para os centros comerciais rumo ao Natal. Tudo junto, foi o demo.

Quase cinco horas da tarde. Solto um palavrão. Estou na Rotunda dos Produtos Estrela. Foi-se a entrevista, e o tipo nem sequer acreditou na minha justificação. Inversão de marcha para Leça.

Nesse dia, cheguei de noite a casa. Sem entrevista, só com a vontade de beber para esquecer. Doem-me os pés, o cujo, a cabeça.

Viveram-se traumas profundos em Leça e Matosinhos enquanto a ponte móvel não recuperou da lesão. Perguntem aos donos dos restaurantes, principalmente a esses. Talvez lhes respondam com um sorriso azedo que foi o demónio que andou na zona, mas pode ter sido também incompetência e falta de sensibilidade de quem manda nas estruturas que ligam as duas localidades. O demónio tem muitos nomes. Desculpa, Chico.

Opinião

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