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10 Mai 2018, 16:56

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Opinião

Políticos, banqueiros, advogados

Uma sociedade saudável tem a obrigação de preservar a sua sanidade coletiva e individual. Por isso, todos os meios são válidos para atingir tal desiderato.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Sabe-se que a cobiça humana corrói as mais saudáveis tessituras sociais e, por isso, urge implantar medidas profiláticas que evitem que os mais ínvios interesses individuais ponham em causa o equilíbrio do viver coletivo. Por isso, a prisão preventiva para uma série de grupos sociais pode ser o primeiro passo, adequado à manutenção da saudável funcionalidade da sociedade.

Metam-se já na prisão todos os advogados e queimem-se até às cinzas todas as escolas de Direito. De imediato o mundo ficava mais respirável sem Proenças de Carvalho, Marinhos Pinto, Joões Nabais, Josés Júdices e tutti quanti que têm na mentira e no ludíbrio o cerne do seu múnus profissional. A coisa judicial ficava assim: os juízes, justos, escravos da Lei, tipo Dread, ouviam a acusação dos magistrados públicos e os arguidos que se defendessem com as armas da sua inocência ou as fragilidades das suas culpas. Sem advogados, tenho a certeza que a justiça seria mais justa. Mas isso é a minha Utopia, mas já dizia Oscar Wilde que num planisfério onde não figure um país chamado Utopia, corresponde a um mundo que não merece a pena ser vivido. De seguida tínhamos de meter dentro quase todo o parlamento. Para já deixava de fora a Mariana Mortágua porque não sou insensível à conjugação perfeita entre beleza e inteligência. Os restantes ou são lindos ou são inteligentes. Uma destas qualidades, por si só, não justifica fugir à prisão. Seguem-se os banqueiros. Para estes não há meios termos. Para a dimensão patológica de rapacidade que os caracteriza só as mais frias masmorras herdeiras da inquisição seriam justas. Para estes devoradores da riqueza pátria a clausura não era suficiente; umas torturazinhas medievais equilibravam os pratos da balança na lógica do olho por olho, dente por dente.

Segundo um dos meus interlocutores, esta medida vingadora tão abrangente poderia meter na prisão gente inocente. Retorqui-lhe que entre políticos, advogado e banqueiros não existem inocentes. Mas, por daqueles estranhos sortilégios em que por vezes a vida é fértil se verificar que existe um inocente – paciência, será considerado como aquilo que os militares em operação denominam de “danos colaterais”. O que mais me espanta nos portugueses, em muitos portugueses, é o seu completo desfasamento em relação à importância de preservação da integridade do tecido social que deve ser respeitada tanto na coisa pública quanto na coisa privada. Somos hoje uma sociedade livre apesar da assunção plena da liberdade não fazer parte do nosso ADN ético e ontológico. A dimensão plena da liberdade caminha a par da responsabilidade, individual e coletiva, que frequentemente esquecemos. Somos intrinsecamente reverenciais e submissos a todos os poderes. Necessitamos de ícones para reverenciar pois não conseguimos conviver com a solidão das nossas insuficiências, medos e debilidades.

Como somos bipolares, quando a sujeição dói mais fugimos dela através de comportamentos patológicos que podem, em casos terminais, desembocar na agressão e no homicídio. Nesse aspeto fazemos jus à nossa condição de predadores que abafam, ou nunca tiveram, o controlo comportamental determinado pelo neocórtex. Somos homo sapiens, sapiens, ou seja, somos sábios ao quadrado, mas permanece pulsátil a força agressiva do nosso cérebro reptiliano. Na dança ontológica entre sujeição e revolta nada de sapiens nos caracteriza. Nos momentos de paz e acalmia interior temos tendência a eleger a normalidade como referência ontológica. Deificamos o normal, absolutizamos o belo, o limpo, o culto, o elevado. Assumimos a perfeição da normalidade como imperativo comportamental sem cuidar de saber que essa é uma capa de ludíbrio pois a nossa verdadeira dimensão é puramente animal, despida das roupagens da cultura e nada mais somos que um bando de macacos mandris com telemóvel e automóvel, mas com as mesmas regras sociais de domínio e sujeição. A nossa normalidade não é cultural, mas animal.

Comecei a falar em prisão para alguns grupos sociais e já derivei para a antinomia entre natureza e cultura. Talvez não sejam assuntos muito separados pois as pulsões de domínio, território e agressão/fuga estão bem vivas em quem tem da res publica uma visão instrumental para a consecução dos seus mais ínvios desígnios. O animal está à solta, urge enjaulá-lo.

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