28 Jul 2012, 21:16

Texto de

Opinião

Planespotting

É o low cost levado ao extremo. Estacionam o carro e seguem à boleia pelo ar, até onde os olhos conseguirem chegar. Bernardo anda a pensar comprar uns binóculos, investir mais a sério na atividade. Pelas suas contas, faltam-lhe 2 ou 3 tardes de domingo para que uma universidade lusitana lhe dê a licenciatura em engenharia aeronáutica.

“Lá vai um”, disse o Bernardo. “Lá vem outro”, disse a Maria. E, enquanto um dizia e o outro acrescentava, a bebé Mafalda deixava-se embalar pela azáfama monótona das partidas e chegadas.

Se isto fosse um filme, começaria assim, com uma sequência pré-título. Uma indicação clara de local e ambiência, o tom e o timbre, salvaguardando, pois claro, as respetivas variações. À falta de melhor, um trocadilho para título, a homenagem sentida a “Trainspotting”, a obra prima de Danny Boyle (dir-se-ia mais “obra filha”, porque “prima” é um parentesco demasiado distante para o esforço do realizador inglês).

Aqui os comboios voam, a droga chega engarrafada ou em caixas que cheiram a fritos, às quais, com alguma lógica hermética, a Maria chama “tamparueres”. Não estamos em Edimburgo ou Londres. Isto é outra coisa. Aqui perto dormiu el-rei D. Pedro, que, apesar de ter chegado à sua terra pela praia do Mindelo (os reais sapatos cheios de areia, uma maçada), foi suficientemente visionário para se deixar dormir perto do sítio onde se iria erguer o aeroporto. A esperança, quase tanto como a saudade e o Galo de Barcelos, é coisa bem portuguesa. O rei esperava decerto que o novo edifício lhe permitisse viajar de forma mais cómoda, económica e higiénica.

Deixemo-nos de “flashebaques”. É domingo à tarde. Pedras Rubras. Junto à cerca, presos por fora, Bernardo, Maria e a bebé juntam-se a um grupo considerável que despreza os centros comerciais, por de lá não se ver o céu, e os passeios à beira-mar, porque a história das caravelas já está muito gasta, e a malta quer sonhar. Deseja-se uma brisa que alivie a pista, que não é rubra nem de pedra, mas escalda os olhos que, por isso, procuram no céu um refresco azul, se possível acompanhado pela visão majestosa de um Boeing ou de um Airbus.

Maria abocanha uma sandes de presunto, sem tirar os olhos das nuvens. Bernardo, ao que vejo, especializou-se nas chegadas, tem horizontes mais baixos mas nem por isso mais modestos. “Aquele é o da ‘Exigente’, não é? O laranjinha. É, é, o das três e meia, que vem de Londres”, diz Bernardo, orgulhoso por já saber os horários de cor. A mulher ri-se, chega a distrair-se e a tirar os olhos do céu. Bebe um pouco, o garrafão diz “plop“.

Pergunto-lhes mentalmente (não os quero distrair) o que fazem ali. Eles respondem-me – mentalmente, claro – que é uma forma barata de viajar, é o low cost levado ao extremo. Estacionam o carro e seguem à boleia pelo ar, até onde os olhos conseguirem chegar. Bernardo anda a pensar comprar uns binóculos, investir mais a sério na atividade. Pelas suas contas, faltam-lhe 2 ou 3 tardes de domingo para que uma universidade lusitana lhe dê a licenciatura em engenharia aeronáutica.

Na verdade, como filme, não está grande coisa. Falta-lhe intriga, um “volte-face”, um twist. Não há maus da fita. Os gigantes aqui são também super-heróis, carregam às costas centenas de seres humanos indefesos. O escape cómico é fraquinho, este rebolar nas relvas nacionais já cansa, quase tanto como a seca de ter que as regar constantemente.

Deixemos a Maria, o Bernardo, a bebé Mafalda (esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança entre nomes, pessoas, factos ou situações é mera coincidência) e os companheiros seguirem viagem neste “pouca-terra” que afinal de contas é um “terra-nenhuma”, um “muito-céu”, um “fura-nuvens” e um “passa-tempo”.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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