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20 Jan 2014, 22:55

Texto de

Opinião

A pintura em perspectiva

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Carlos Correia é um artista que merece ser visto e seguido atentamente.

A nossa crítica de arte anda um pouco distraída e por outro lado os coleccionadores de arte são pouco afoitos em saber procurar o que por cá se vai progressivamente criando. Percebe-se o melindre da situação. Os mercados andam nervosos e os investidores não querem correr riscos. Vem isto a propósito duma excelente mostra de pintura de Carlos Correia (Lx, 1975), talvez uma das melhores exposições de 2013 que esteve patente na Galeria Pedro Oliveira, no Porto. Trata-se duma curiosa e muita bem concebida exposição de pintura, em que a estrutura do próprio quadro é posta permanentemente em foco, de modo a levar o espectador literalmente a olhar para o espaço interno do quadro numa atitude de quase voyeurismo “puro”. O que faz mover, por assim dizer, estas pinturas talvez seja esse subtil e profundo efeito de perspectiva tecido continuamente como uma “coisa” oculta, embora seja isso que nos arrasta quase inocentemente para o interior de cada quadro. A perspectiva não deve ser aqui entendida como uma tridimensionalidade rígida, que fecha o espaço daquilo que nela é apreendida, mas antes como a condição de possibilidade de libertação espacial do próprio objecto representado, deixando assim o campo de visão do espectador sempre disponível e em aberto.

Carlos Correia procura dar a ver, através do invisível, que no fundo é a essência da perspectiva, uma parte desse outro visível, que é aqui tratado como um teatro pictórico que rememora todas as partes do espaço à medida que o seu interior, profusamente preenchido ou entaipado, vai sendo desvelado pelo olhar atento do espectador. Tal como “Os embaixadores” e “As meninas” são obras que nos ensinam o que é um quadro, este “quadro/mesa”, (título da exposição) procura ser uma experiência visual intensa que nos leva a olhar, talvez ilusoriamente, para aquilo que julgamos estar a ver, através duma aproximação barroca ao objecto artístico que estas pinturas acolhem como tal. A intensidade cromática e a presença tutelar da perspectiva, enquanto representação do objecto mantida em suspenso, bem como o despojamento formal do desenho funcionam nestes trabalhos como máscaras que moldam o território visual duma (des)ordem exemplar feita de pranchas, planos, articulações, cenários, ângulos e projecções que no fundo são representações oculares/tentaculares que testemunham aquilo que João Silvério (citando Didi-Huberman) no texto de apresentação procura sintetizar da forma seguinte: “um quadro é uma prancha que serve para tudo (escrever, contar, jogar, comer (…) mesmo para pendurar nas paredes dum museu; uma mesa reutiliza-se sempre para novos banquetes, novas configurações”.

Poderíamos parafrasear Lacan, a propósito do que ele disse da pintura, e aplicar as suas palavras ao trabalho de Carlos Correia: “Jamais tu ne me regardes lá où je te vois“. É isso que neste caso define precisamente o importante trabalho deste artista que merece ser visto e seguido atentamente.

Opinião

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