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9 Jul 2017, 13:28

Texto de

Opinião

Pensamento corporativo

O pensamento corporativo opõe-se à racionalidade e à lógica. Esta ideia, subscrita por um pensador estrangeiro, infelizmente está a grassar de forma impiedosa e, até, implacável, no nosso país.

Imagem de perfil de Manuel Luís Mendes

Manuel Luís Mendes é natural do Porto e licenciado em História. Foi professor no ensino oficial de Português e de História. E ainda docente de Comunicação no ISEF (hoje Faculdade do Desporto) e na Escola Superior de Jornalismo. Foi ainda jornalista no Jornal de Notícias, tendo chefiado a secção de Desporto. Trabalhou na área da Educação e Ensino.

Se não vejamos: a organização dos árbitros, denominada APAF, decidiu boicotar a cerimónia da entrega dos prémios da Liga de futebol, alegando pretextos ridículos e nos quais ninguém acreditou nem acredita.

Esta reação negativa mostra bem o espírito corporativo dos nossos juízes, ao jeito da filosofia dos tiranos que reza que quem não é por nós é contra nós…

A APAF, em vez de assumir, com determinação e empenho, a luta pelo esclarecimento urgente e cabal da questão dos emails que envolvem o Benfica, e que atingem a dignidade dos seus associados, optou por fazer como a avestruz, enterrar a cabeça na areia esperando que a tempestade passe…

Ou, então, decidiu amuar e tentar apoucar a cerimónia organizada pela instituição que lidera o futebol profissional, não comparecendo ao sorteio dos campeonatos. Uma entidade que, porque sustenta e promove a arbitragem profissional, deveria merecer-lhe o maior respeito.

Assim, e sem papas na língua, poderemos afirmar que atuou como uma organização cobarde, não enfrentando as dificuldades, mas fugindo delas, como o diabo da cruz…

A APAF, em consequência, não mostra, pois, nem personalidade nem coragem patenteando fragilidade e fraqueza numa altura em que se exigia determinação e liderança para o setor. Ou, então – o que seria mais grave – mostra-se cúmplice de um problema que compromete os seus filiados.

Outro exemplo, noutro campo, é o referente ao roubo de armamento militar.

Pois, ao arrepio da nossa consciência coletiva, os corporativistas atribuíram a responsabilidade da situação, a dificuldades estruturais, políticas e conjunturais. Isto de ânimo leve face a um ato de enorme gravidade!

Foi uma posição caricata, notoriamente unilateral e classista de imediato desmontada e desmentida pelo Chefe do Estado Maior do Exército que responsabilizou pela ocorrência gravíssima quem deveria zelar pela segurança, não só de um paiol, mas de todos nós.

Defender e representar os profissionais de qualquer setor deve ser uma obrigação das organizações de classe – agora, atacar outros não será obrigação, mas perversão mental. Isto, mesmo quando se chega ao cúmulo de pedir a demissão de um ministro por uma responsabilidade que nunca terá de ser sua…

Ou seja: se me derem a guardar um cofre valioso, pagando-me para tal e eu aceitando esse compromisso, e se eu for assaltado, por desleixo (no mínimo…), a culpa será de quem me pagou por garantir esse serviço?!

Haja decoro e decência, mesmo na disputa partidária. A confrontação de ideias é salutar, mas nela não vale tudo. Há regras éticas a cumprir, caso contrário, deixamos de viver em civilização para sobrevivermos na lei da selva…

Opinião

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