19 Abr 2012, 20:48

Texto de

Opinião

Para sempre?

Assim como uma bota que pisa uma face humana para sempre, como escreveu Orwell, hoje um cassetete fechou uma escola. A da Fontinha.

Mais um dia para recordar: o poder autoritário e economicista calçou as botas e veio para a rua fazer uma demonstração de força. Mas não é este desfile de moda, hoje tão banal, que torna o dia especial. O que o torna especial é a carga simbólica que transmite e a prova de que o fascismo anda a marchar pelo mundo.

Fechar escolas por falta de verbas é a desculpa recorrente daqueles que doutrinam a austeridade, mas a verdade é que uma população educada pode-se tornar inconveniente no dia em que começar a pensar.

Daí também a qualidade do ensino que existe ser cada vez mais fraca e formatada – não interessa o que sonhamos, interessa o que vamos fazer para ganhar dinheiro e para entrar no ‘mercado’.

Não interessa que saibam muito, apenas o suficiente para trabalhar uma máquina. Não interessa que tenha um sentido, interessa o sentido.

Se assim não fosse, não havia motivos para fechar a Es.Col.A, um projecto assente na solidariedade e no espírito comunitário, que decidiu ocupar um edifício abandonado de uma antiga escola e começar a educar e ocupar o tempo dos habitantes de um bairro esquecido no centro do Porto, dando um sentido às suas vidas.

O espaço Es.Col.A será talvez dos projectos mais honestos que existem em Portugal. Praticar o conhecimento e a educação desta forma só pode conduzir as pessoas e a sociedade à verdade e à justiça. Exactamente aquilo que não interessa existir quando se pratica a política do fascismo, que só consegue sobreviver em mentes vazias.

Ao decidir encerrar um espaço destes, de ouvidos tapados e de forma violenta, contra a vontade dos cidadãos daquele bairro, a autarquia do Porto só vem provar que é o melhor exemplo disso em Portugal continental.

À política da nulidade cultural (também adoptada pelo actual Governo) e ao carácter economicista e anti-social (tão bem demonstrado no processo do Aleixo), basta somar as políticas populistas e demagogas, assentes no princípio ‘fachada limpa/alma vazia’, à atitude ressentida e autista, personificada no carreirista político que é Rui Rio. Uma miniatura daquilo que estamos a viver no país e no mundo.

E é esta a linguagem com que o Governo actual fala, é esta a linguagem do poder internacional, sustentado no que gere valor financeiro. Mais nenhum valor importa. A receita é essa – uma linguagem austera, bruta e seca, mascarada de propaganda e demagogia, de uma violência física e espiritual que conduz ao fim do conhecimento e por sua vez ao fim da liberdade.

O simbolismo do dia de hoje é precisamente esse: assim como uma bota que pisa uma face humana para sempre, como escreveu Orwell, hoje um cassetete fechou uma escola. Para sempre?

  1. Paulo Meireles says:

    Parabéns pelo artigo Miguel, simples, quase uma imagem, mas parabéns principalmente por te dares ao trabalho.
    Um abraço

    • FT, quando falo nas verbas, é num sentido generalizado e não deste caso em concreto – nos últimos 5 anos fecharam 3000 escolas do 1º ciclo em Portugal. Esta era gratuita.
      Acredite no que quiser, mas um político a falar de leis é como a falar de promessas.
      Cumprimentos

  2. Rui says:

    Caro Miguel,

    Fique-se pelo design, pois de política e políticas sociais nada percebe. O seu discurso é perfeitamente demagógico. E fazer referência a Orwell, neste contexto, demonstra uma visão perfeitamente desajustada e conspurca o nome desse que foi um grande homem. Muita coisa existe de errado no estado actual das coisas. Mas, dizer que vivemos num regime fascista, apenas denota uma cabal falta de conhecimento filosófico e desprezo pelas dificuldades superadas no passado.

    • Caro Rui, não consigo ler demagogia no meu discurso, apenas lógica. Mas talvez seja de difícil compreensão para si – não sei o que percebe de coisa alguma. Orwell, cuja dimensão será talvez a única coisa que estamos de acordo, teria certamente aprovado este texto e estaria neste momento a escrever precisamente sobre pessoas como o rui, que acreditam o fascismo é coisa do passado. Nunca disse que vivemos num regime fascista, mas sim que as suas características continuam vivas e estão a contaminar a nossa sociedade. Rejeita-lo, como está a fazer, é, isso sim, uma falta, não de conhecimento filosófico, mas de prática.
      cumprimentos

      • Rui says:

        Hilariante… Veja o link, acima, para o comunicado da CMP. O que lá consta é, sei-o, verdadeiro. Já viu as condições em que operavam, os pseudo-revolucionários? Não se baseie apenas nas imagens da comunicação social. Características fascistas existem, sim, nos que controlam a opinião pública (e não só).
        A sua demagogia reside no facto de apelar a sentimentos e emoções primárias, com base em informações deturpadas e, outras, totalmente falsas. Sou, profissionalmente, um interventor social. Conheço os meandros. Ademais, conheço alguns dos elementos do grupo em questão. Já tentaram colaborar com uma instituição na qual trabalhei. Sabe qual foi o resultado? Problemas atrás de problemas. Repare que trata-se de um fenómeno de contra-cultura de cariz anárquico. Eles não têm líder. Não têm organização hierárquica. Uma intervenção social, para ser eficaz e verdadeiramente profícua, deve ser organizada e apoiar-se na ciência (ciências sociais e humanas, fundamentalmente). Viu, por acaso, o estado de higiene em que eles operavam? Um tácito atentado à saúde pública. Sabe o que se passava dentro daquelas paredes à noite? Nem imagina… A única coisa para a qual se organizaram foi para encenar todo o folclore (no qual está incluída a instrumentalização dos moradores da zona)que lhe serviu de base para este artigo. Quero crer que não foi de má fé que elaborou a sua opinião. No entanto, acredite, não se coaduna minimamente com a realidade. Apoio iniciativas que mobilizem a população para boas causas. Esta, infelizmente, não é uma delas. Movimentos de índole anárquica já serviram o seu propósito há muito muito tempo.
        Quanto a Orwell, ele não opinaria sem fundamentos suficientes. Ele não era um idealista.

        Espero que tenha a hombridade de, pelo menos, tentar analisar melhor este caso particular. Pois, parece-me que as suas intenções são boas.

        Cumprimentos.

        • pedro says:

          O comunicado da c.m.p. está cheio de falsidades. O grupo constituiu uma associação com o intuito de assinar o contrato como tinha sido prometido, mas finalmente a proposta que recebeu era para ser despejado no fim de Junho. Daí não ter aceite. Esse comunicado tenta manipular a opinião pública e infelizmente consegue. De fato não vivemos num regime fascista mas a julgar por alguns comentários ainda há pessoas com saudades de Salazar. Não há nenhum argumento que justifique o que aconteceu. Livros e material didático foram destruídos pela polícia. Computadores arremessados pelas janelas do primeiro andar.. Por favor não defendam este tipo de comportamentos.

        • Paulo Vieira says:

          Caro Rui,

          Não conheço os pormenores deste caso. No entanto achei interesse aos argumentos que utilizou para sustentar a sua posição: “fenómeno de contra-cultura de cariz anárquico”, “Eles não têm líder” “Não têm organização hierárquica.”

          Como se a existência ou não de líderes fosse em si uma virtude (ou um defeito). Acho que isto diz muito da sua forma de pensar.

          Temos hoje em dia exemplos paradigmáticos de como a colaboração voluntária e a boa vontade das pessoas conseguem produzir feitos impressionantes. Sem líderes. Sem hierarquias. Por exemplo, na internet, a Wikipedia, ou o OpenStreetMaps.

          Ah, e tenho grandes dúvidas que as razões do despejo tenham sido o “estado de higiene em que eles operavam”. Quanto ao que se “passava dentro daquelas paredes à noite”, não faço a mínima ideia. Mas suponho que se se passasse alguma coisa de errado, haveriam moradores a queixarem-se. Pelo que percebo, esta iniciativa tinha o apoio da população.

          Parece que a liberdade assusta algumas pessoas.

          Cumprimentos.

  3. pedro says:

    Rui,
    clickei no seu link e fiquei chocado com o que li. Riparofilia?? Riparofilia?? Onde foi buscar essa ideia?? Os seus argumentos perderam toda a credibilidade, assim como a sua inteligência também a perdeu. Já tinha invocado a declaração da cmp como sabendo-a verdadeira, quando sei que é falsa, pois sou próximo de algumas pessoas que estão ligadas ao grupo Es.Col.A. Sei que constituiram uma associação com o intuito de celebrar contrato com a cmp. Apenas não o fizeram porque o contrato previa que fossem despejados no fim de Junho. O Rui lança para o ar fatos baseados em informações que diz serem verdadeira mas não cita as suas fontes. Basicamente atira para o ar o que lhe convém e inventa verdades à sua vontade. As fotos que publicou são apenas de uma cozinha desarrumada. Sinceramente já vi a minha cozinha em pior estado no fim de festas e convívios e não creio a minha pessoa sofra de compartamentos desviantes ou que promova atentados à saúde pública ou privada. O Rui devia ter vergonha e pensar duas vezes antes de publicar textos que não se debruçam na realidade dos factos e que apenas têm origens em preconceitos. O Rui acha que o grupo é anarquista e como obviamente odeia anarquistas põe-se a disparar estas barbaridades sem sequer fazer uma análise cuidada da realidade específica deste caso. Se é de fato, como afirma, um interventor social, espero que mais projetos como o da fontinha apareçam pois parecem-me mais úteis para as populações carenciadas do que os de pessoas com o seu tipo de raciocínio. Devia ter vergonha, sendo interventor social, de defender acções que destroem livros, computadores etc. Apesar de tudo agradeço que tenho publicado a sua infame visão pois ela só fortalece o monvimento Es.Col.A

  4. Rui says:

    Boas tentativas de refutação… Mas não passaram disso: tentativas.
    Eu conheço aquela realidade de perto e de “ambos os lados”. Leram o que escrevi, mas não tiveram a sensibilidade suficiente para interpretar os vários posicionamentos defendidos. Não perceberam as partes cómicas, nem se debruçaram sobre o essencial dos argumentos apresentados.
    Ou, se perceberam, é porque defendem: cozinhas das quais até os ratos fogem; electrodomésticos a libertar belos tóxicos; intervenção que ignora as ciências; e um albergue onde não há qualquer controlo de quem lá entra.
    Quanta ingenuidade… Agradeço o agradecimento, mas não tem de agradecer, pois a razão do agradecimento não se verifica. Não dei mais força ao “movimento”, pois este, espero, morrerá naturalmente. Se assim não for, há razões para muita preocupação. Pois, são abertos os precedentes para que surjam mais “movimentos” com base no caos.
    Que fique claro:
    – Defendo mudanças na legislação para permitir ocupação de espaços devolutos;
    – Sou contra as acções que se verificaram de destruição de livros, computadores, etc;
    – Sou a favor de movimentos que promovam conscientemente uma intervenção profícua.

Opinião

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