Image de Palavras que mexem

Foto: SXC

11 Nov 2016, 16:07

Texto de

Opinião

Palavras que mexem

O grande problema dos livros de hoje é o de que as suas letras não se mexem o suficiente.
Digo-o com toda a seriedade.

Imagem de perfil de Cronistas do Bairro

Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

É um facto de que as tiragens dos livros são cada vez mais pequenas: livros que antes se editavam aos milhares, editam-se hoje às centenas, quando não às dezenas. E numa altura em que as pessoas leem cada vez mais no ecrã, talvez o grande problema dos livros seja o de que pode ser confuso olhar duas vezes para a mesma página e as letras desta continuarem no mesmo sítio.

Tenho a certeza de que a partir do momento em que os engenheiros coloquem as letras dos livros a rodar, a correr, a saltitar e a piscar no papel, a venda de livros será dez, vinte ou cem vezes maior. Pois se há milhões de pessoas que se entusiasmam com o texto de rodapé das televisões a andar para a esquerda, com as páginas de internet a subirem na tela, com o texto dos tablets a deslizar para todos os lados, com as telas de LCD a piscarem e até com o texto dos placards eletrónicos dos estádios a encolher e a esticar com cada golo, não se pode deixar de concluir que o problema dos livros de hoje é a sua tipografia não ser suficientemente dinâmica.

Suspeito que esta preferência pelos textos que mexem se deva ao facto de parecerem mais alegres e vivaços, ao contrário dos textos em papel que, pela sua insistência em manterem-se quietos, podem dar a ideia de estarem mortos.

E ninguém gosta de coisas mortas, de coisas paradas.

É por isso que é importante agitar os textos dos livros. Ou não tarda que os únicos a lê-los sejam os velhos, as crianças ou aquelas pessoas estranhas que pasmam com o pôr-do-sol, com o vento a varrer as folhas, com falarem com as pessoas diante de si, com estarem em silêncio com as pessoas diante de si, e que gostam de coisas lentas, ou mesmo paradas, por lhes darem tempo para pensarem, lembrarem-se, esquecerem-se, entusiasmarem-se, ficarem tristes e descobrirem a vertigem dos espaços entre as palavras postas em sossego.

Jorge PalinhosJorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.