17 Dez 2012, 19:12

Texto de

Opinião

Pai Natal vs. Menino Jesus

Meus olhos abriram de descoberta – talvez entendesse nessa altura o verdadeiro significado do Menino Jesus que os mais velhos nunca me conseguiram explicar.

Era gordo, vestia umas roupas compridas e vermelhas. As longas barbas descaídas acompanhavam o ar bonacheirão que emanava dele. Vinha da Lapónia, com as renas, vinha para oferecer presentes, principalmente aos meninos que esperavam excitados pela hora da sua abertura. Descia dos céus na noite de Natal com o trenó, aproveitava o facto de a noite ir comprida e os meninos estarem já a dormir para deixar as prendas na chaminé de cada casa por onde passava, independentemente da zona e do tipo de casa – moradia, prédio, casarão, casinha modesta, barraca. Era esta a lenda que me entusiasmava quando era criança, era este o sonho que preenchia o vazio do meu espírito ante a materialidade do Mundo. Era a fantasia personificada na figura do Pai Natal, que surgia sempre todos os anos pela mesma altura, e no seu ato generoso de descer à Terra dando presentes a todos os meninos.

Diziam-me os mais velhos que o Pai Natal não prestava. Que no Tempo-do-Menino-Jesus era tudo mais bonito, que a magia era maior. Nunca entendi aquilo. Na minha cabeça de criança de 6/7 anos, ficava com a leve sensação de que o Pai Natal veio continuar a tarefa do Menino Jesus. Era como se esse menino não pudesse mais descer à Terra e destinasse a sua missão a um velho, eventualmente o seu avô. Mas os meus tios, tias, mãe, pai e avós insistiam: porque o Menino Jesus era o Menino Jesus, esse sim, é que era o verdadeiro amigo dos que “não-têm-natal”, era um menino fraterno, que o Pai Natal pertencia ao consumo, ao dinheiro, aos shoppings, às grandes empresas que lucram com a sua figura. Viravam-se uns para os outros e diziam que era obra da Sociedade de Consumo. Mais uma vez vos digo que não compreendia o que estavam a dizer. Olhava atónito todas aquelas conversas. Ainda estava longe de entender o que era uma sociedade e um consumo, muito mais longe estava de compreender o que era uma sociedade de consumo – conseguirei dizer que hoje compreendo o que isso significa?

A dicotomia entre o Pai Natal e o Menino Jesus gerada na minha cabeça ia-se esbatendo com o tempo. Um dia descobri que esse Pai Natal não era como imaginava. No que diz respeito à forma, não posso dizer que não fosse. Continuava a ser o mesmo bonacheirão dos meus sonhos, o mesmo avôzinho com barbas compridas e vestido de vermelho que me encantava enquanto esperava na ceia de Natal os seus presentes. Mas não me convencia da sua generosidade, da sua honestidade, da sua permeabilidade em todos os lares. Era uma criança negra, de cabelos maltratados e trajes sujos pedindo esmolas numa metrópole qualquer que me impedia de caminhar pelo Sonho e pela Fantasia.

Desde aí, o Pai Natal foi-me sempre parecendo cada vez mais escuro, era como se o vermelho das suas vestes fosse dando lugar a um vermelho mais escuro, mais escuro, mais escuro, de tal forma escuro que apenas via só o preto das suas vestes. E era como se o Pai Natal agora fosse todo vestido de preto distribuir presentes e nunca mais enxergasse o seu vermelho na sua roupa, ao mesmo tempo que a criança de 12 anos, negra, de cabelos maltratados e trajes sujos que crescia em mim e que pedia esmola numa metrópole qualquer, aparecia cada vez mais nítida na minha alma. E essa criança mais do que pedindo esmola nas ruas de uma metrópole onde os movimentos das pessoas com sacas de presentes apenas serviam para a tornar mais invisível, ela pedia modas para comer nas ruas do meu coração, nas veredas da minha alma, e era como que se em cada ato de pedinchar ela me picasse por dentro e me magoasse mesmo não me pedindo nada. Meus olhos abriram de descoberta – talvez entendesse nessa altura o verdadeiro significado do Menino Jesus que os mais velhos nunca me conseguiram explicar.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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