8 Jun 2011, 14:37

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Opinião

“Overqualified”

Se o Estado fosse uma empresa, gostava que os seus acionistas, nós, fôssemos tão exigentes como as empresas são ao contratar pessoas com "excesso de qualificações".

José Sócrates

Foto: DR

José Sócrates, o primeiro-ministro demissionário, esteve 23 anos em cargos públicos, referiu o próprio no discurso de derrota. Foi uma surpresa para mim. Sabia, claro, dos 6 anos como chefe do Governo e dos outros 6 que esteve nos governos de Guterres, mas desconhecia que tivesse estado antes outros 11 anos em cargos públicos.

Fiquei igualmente surpreendido quando me contaram que Pedro Passos Coelho, o futuro primeiro-ministro, tardou a entrar na vida ativa, política excluída. Fui confirmar e descobri que, de fato, os empregos dignos de estarem no currículo do líder do PSD foram os que teve aos quarenta anos.

E já sem admiração fui ver os candidatos do PS que se perfilam – seja qual for o senhor que se segue, o que se segue ao que se segue e o que, finalmente, será primeiro-ministro. A experiência em cargos públicos de António José Seguro, Francisco Assis e António Costa é igualmente longa. Como era a de Ferreira Leite ou Marques Mendes.

Assim, concluo que quando se fizer a avaliação dos nossos líderes, primeiros-ministros e presidentes da república, pelo menos desde 1985, não se poderá acusá-los de falta de experiência política ou de falta de traquejo na gestão da coisa pública.

Quem chegou até aqui esperará agora uma estocada de taxista ou de mesa de café, de como “os políticos são todos iguais” ou “andam a governar-se” ou algo parecido. Mas não. Não o irei fazer. Nem irei concordar com os meus amigos que defendem que o Estado devia ser gerido como uma empresa. Contudo, é certo que a gestão do Estado não está a correr bem, e para isso tanto fez que tivesse ou não um timoneiro ao leme, com anos e anos de experiência da gestão da coisa pública.

Se o Estado fosse uma empresa, gostava é que os seus acionistas, nós, fôssemos tão exigentes com os candidatos a cargos públicos como as empresas são ao contratar pessoas com “excesso de qualificações” – nem o digo por maldade, pois sei o que é ser considerado “overqualified” e posso dizer que “it really sucks”.

E por experiência pessoal escrevo, dizendo de outra forma o “ide trabalhar” de um taxista irado, que um banho de humildade no mercado de trabalho faz bem a qualquer um, seja no setor privado ou no público.

E talvez, então, os profissionais da coisa pública, ou da política, dessem mais valor aos empregos que têm e, quem sabe, se não seria assim que os eleitores encontravam neles, nos eleitos, uma legitimidade que lhes devolvesse, aos votantes, a vontade de votar.

PS: A irresponsabilidade alemã e da União Europeia na crise E.coli e dos pepinos continua.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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