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Foto: Arq/Carlos Romão

9 Fev 2014, 13:20

Texto de

Opinião

Os secretários e afins

Confesso-­me excitado, entusiasmado, pasmado e feliz. Estes dias em que a costa tem sido atacada por ondas de paixão dos surfistas, e de desalento de quem mora perto e vê no poder do mar uma ameaça que contrasta com o sentimento de beleza que ele nos transmite, achei que poucas coisas me poderiam surpreender.

Imagem de perfil de Carlos Pereira Santos

Quase sempre jornalista, começou no assassinado jornal O Comércio do Porto e daí seguiu para O Jogo, O Norte Desportivo, A Bola e RTP-N. Actualmente, encontra-se de novo n'O Jogo. No jogo das palavras, escreveu um quase romance, “A Candidata”, que aconselha a quem ainda não leu. É co-autor da biografia de Jorge Costa, o Bicho, e foi o ghost writer da biografia de Vítor Baía, até este revelar a autoria... na apresentação do livro. Coisas que acontecem a quem acha que nada acontece por acaso. Nasceu em Leça da Palmeira, indiscutivelmente, o melhor de todos os cantinhos onde existe vida, e tem uma paixão eterna pelo Porto.

Nem o praxenitismo das notícias à volta da tragédia do Meco, ou do suposto rapto do bebé do Estreito da Calheta, ou da pergunta de 59 minutos de Fidel Lacão, ou mesmo das repercussões de um mergulho do Dragão no Caldeirão do Funchal, nada disto me surpreendeu tanto e me deixou tão entusiasmado como o facto, agora indesmentível, de Portugal ter um secretário de Estado da Cultura. Juro que não tinha dado conta.

Quero dizer, há dias suspeitei disso quando ouvi que o secretário tinha estado em Serralves e falou de cultura. Um secretário da Cultura deve falar da Cultura, fica­-lhe bem, embora poucos saibam do que falam. Um secretário de Estado da Cultura, Canavilhas à parte, porque ai já entram outros atributos, é sempre um grosso problema.

No caso, Barreto Xavier é um secretário e uma figura, do estilo Marques Mendes, como
é um homem surpreendente. Porque existe. Tive agora a certeza através de Miró, esse pintor que devia ser um tipo muito divertido a avaliar pelos traços. Também me confesso um estranho perante uma pintura, mas faço as minhas leituras, acho que
Dali era um safadinho, sei que Picasso não era propriamente um pintor de piquinhos, e pronto, fico-­me por aí e pelos desenhos do meu pequeno Rodrigo, de quem, sinceramente, tenho algum receio quando me apresenta desenhos de monstros absolutamente monstruosos, como devem ser os monstros.

Miró trouxe­-me a certeza dessa notícia, e o próprio Miró, lá onde está, há­-de estar também sensibilizado. Há um secretário de Estado da Cultura em Portugal. E isso deixa­-me contente, apesar de a grande parte dos secretários e ministros da cultura quase passarem sem serem vistos. Aliás, julgo que os ministros e os secretários nem sempre estão nos sítios certos.

Lembro­-me que quando andava na Filipa de Vilhena a fazer o curso de jornalismo, o professor Costa Carvalho (então sub diretor no Comércio do Porto) conseguiu levar lá um governante que estava com a área da Comunicação social. O homem ficou espantado com a tecnologia que havia por lá (e que provavelmente não teria no gabinete), computadores, telex, tudo isso. Estávamos em 1980 (!) e O Comércio do Porto, essa paixão que ainda me faz comichões mais a vontade de esganar quem o matou, preparava­-se para ser o pioneiro na informatização. Como viria a ser.

O homem ficou espantado com o que viu naquela sala onde se estudava jornalismo na Filipa, mas não deu parte de fraco. “Está tudo muito bem, mas falta aqui o cheiro da tinta. Um jornalista tem que cheirar a tinta”. Alguém, de lado, suspirou uma frase: “Ora, um limpa retretes não tem necessariamente que cheirar a merda”. É verdade. Olhem só a volta que o mundo da informação deu! Os jornalistas deixaram de ter o cheiro a tinta, mas os secretários de estado continuam a ter uma atracção fantástica pela ignorância.

PS: Não é nada contra este secretário, é simplesmente porque não percebi ainda qual a necessidade de haver um secretário de Estado da Cultura quando a fatia do orçamento que lhe cabe não dá para comprar um bloco de apontamentos ou, vá lá, um quadro de Miró.

Opinião

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