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19 Mar 2017, 12:43

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Opinião

Os riscos da globalização ou a globalização em risco?

“A globalização é um processo que permite os poderosos explorarem os fracos” (Alejandro Cifuentes).
“A globalização encurtou as distâncias métricas, aumentando muito mais as distâncias afetivas” (Jaak Bosmans).

Imagem de perfil de André Rubim Rangel

André Rubim Rangel é “tripeiro de gema” (cidade e clube). Licenciou-se em Teologia, tem curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e é mestre em Ciências da Comunicação (ramo Jornalismo). Além de jornalista é professor profissionalizado contratado. Trabalha no semanário ‘Voz Portucalense’ (repórter e redator). Dirigiu alguns órgãos: o ‘JornalVERIS’ (que fundou e administrou), a revista ‘Espaço Solidário’ (co-fundou, além de diretor de Informação da ODPS); o marketing da revista ‘A Folha dos Valentes’ (e seu redator); e o ‘Jornal da P@z’. Como colunista e repórter voluntário, escreveu regularmente: no jornal ‘O Primeiro de Janeiro’; no semanário ‘Grande Porto’; no jornal ‘Diário do Minho’; e no jornal ‘Gazeta do Planalto e Região’ (S.Paulo, Brasil). É, ainda, presidente da Associação para o Diálogo Multicultural (ADM) e membro dos órgãos sociais da Associação Alma Mater Artis. Foi e é dinamizador e moderador de largas dezenas de debates e conferências de cariz geral, entre outros eventos. Em termos pessoais, é colecionador e amante de presépios, entre outros hobbies.

O título, entre as duas partes, contém um “ou”… Eu diria mesmo que, afinal, a globalização do modo como está, está num duplo risco: tanto detém extensos riscos como ela própria tende a definhar-se. Mas ainda sem encontrar-se numa “espécie” em vias de extinção. Tem havido, de facto, esta análise de que dois dos motivos atuais que estão a acelerar a queda ou a fragilidade da globalização – e que afetam a Europa e o Mundo – são: o ‘Brexit’ (que já refleti aqui em tempos, nesta coluna de opinião) e a vitória e respetiva presidência de Donald Trump nos E.U.A., que não vou aqui explanar. Hoje, e nadando apenas à superfície neste tema da ‘globalização’, sem mergulhar a fundo, permitam-me que reproduza sobretudo dois breves discursos que transcrevi. Eles circulam no digital, mas somente em vídeo. É importante e interessante debruçarmo-nos melhor neles, com a leitura dos mesmos.

Ambos os discursos bordam e abordam a globalização, tanto num sentido mundial bem como num desvio europeu. E ambos querem transbordar de paz esperançosa e de esperança pacífica, deixando um repto de mudança, de positivismo, de ideal, a fim de que cada local seja global e de modo a que todo o global alcance o local, com sintonia e em sinfonia. Para tal, temos de admitir o que fazer, como fazer, e não nos demitir. E já, porque o mundo não espera, muito menos os flagelos que lhe são desferidos e que nos deixa, a todos e cada um/a, feridos dérmica e epidermicamente.

“NACIONALISMO x INTERNACIONALISMO”
Eis o primeiro discurso – dando primeiramente lugar às mulheres –, uma intervenção recente de Angelina Jolie na ONU, como embaixadora da boa vontade do ACNUR:
“A diferença de vida entre aqueles que, como nós, nasceram em sociedades democráticas e ricas, e aqueles que nasceram em favelas e campos de refugiados pelo mundo é uma profunda injustiça. Nós vemos e sabemos que é errado, é desumano. Esta desigualdade contribui para a instabilidade, conflitos e migrações. Também contribui com a noção de que o sistema internacional serve a poucos com o trabalho de muitos. Mas então… qual é a nossa resposta como cidadãos? Nós retiramo-nos do mundo de que antes nos preocupávamos em fazer parte das soluções? Eu tenho orgulho em ser norte-americana e… eu sou uma internacionalista. Eu acredito que todos os que estão comprometidos com os direitos humanos também o são. Isso significa olhar para o mundo com um sentido de justiça e humildade. E reconhecer nas lutas dos outros. Isso vem de um amor ao seu país, mas não à custa dos outros, do patriotismo, mas não do «nacionalismo barato». Inclui a visão de que o sucesso não é ser melhor do que outros, mas sim, encontrar o seu lugar num mundo onde os outros também podem ter sucesso. Uma nação forte, assim como uma pessoa forte, ajuda os outros a levantarem-se e a serem independentes. Se os governantes e os líderes não mantêm a chama do internacionalismo acesa, nós, como cidadãos, devemos fazê-lo”.

“A EUROPA DE HOJE”
O segundo discurso cabe ao eurodeputado espanhol Esteban González Pons, vice-presidente do Grupo PPE, uma intervenção realizada na transacta semana em sessão plenária em Estrasburgo, sobre a relação do ‘Brexit’ com a globalização:
“A Europa hoje limita-se a norte com o populismo e ao sul com os refugiados afogados no mar; a leste os tanques de Putin e a oeste o muro de Trump. No passado com a guerra, no futuro com o ‘Brexit’. A Europa está hoje mais isolada do que nunca, mas os cidadãos não o sabem. A Europa, no entanto e por isso, é a melhor solução e não sabemos explicá-lo aos cidadãos. A globalização ensina-nos que a Europa é hoje inevitável, a única alternativa. Mas o ‘Brexit’ também nos ensina que a Europa é reversível, que se pode andar para trás na História, mesmo se fora da Europa faça muito frio. O ‘Brexit’ é a decisão mais egoísta que se tomou desde que Winston Churchill salvou a Europa com o sangue, suor e lágrimas dos ingleses. Dizer ‘Brexit’ é a forma menos insolidária que há de dizer adeus. A Europa não é um mercado, é a vontade de viver juntos. Deixar a Europa não é sair de um mercado, é deixar os sonhos compartilhados. Pode ter-se um mercado comum, mas se não temos sonhos comuns não temos nada. A Europa é a paz que veio após o desastre da guerra. A Europa é o perdão entre franceses e alemães. A Europa é o retorno à liberdade da Grécia, Espanha e Portugal. A Europa é a queda do muro de Berlim. A Europa é o final do comunismo. A Europa é o estado de bem-estar, é a democracia. A Europa é os direitos fundamentais. Podemos viver sem tudo isso? Podemos renunciar a tudo isso? Por causa de um mercado vamos voltar atrás e abandonar tudo isso? Espero que na próxima cimeira em Roma, falem menos do que a Europa nos deve e falem mais sobre o que devemos à Europa, depois de tudo o que já nos deu. A União Europeia é a única primavera que o nosso continente viveu em toda a sua História. Eu sou um daqueles que no dia em que a primeira ministra May anuncie o ‘Brexit’, começamos a sonhar com a manhã na qual os ingleses voltam para casa”.

E concluo, hoje num artigo mais breve, com aquela afirmação categórica que me recordo de escutar pessoalmente da ativista iraniana e prémio Nobel da Paz, Shirin Ebadi: “A globalização só estará concluída quando os direitos humanos forem globais”. Ouvia-a há poucos anos nas «Conferências do Estoril», que discutem de dois em dois anos (este ano volta com a 5.ª edição) precisamente sobre esta temática dos «desafios globais, respostas locais». Pratiquemo-lo, também nós, igualmente e reciprocamente, em cada comunidade e sociedade de modo mais angular, singular e, ainda, regular.

jornalvp.arr@sapo.pt

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