Image de Os panteões telúricos não servem para nada

Foto: VanGore/Wikimedia Commons

23 Jan 2014, 11:28

Texto de

Opinião

Os panteões telúricos não servem para nada

Eusébio chegou ao céu e foi sentar-se à direita de Deus-Pai, lugar de eleição que muito poucos merecem. Nesse espaço de eleição encontrou outro português que também da lei da morte se libertou – Joaquim Agostinho.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Alto lá, estou a escamotear informação. Eusébio não foi diretamente para o céu pois, como gostava de beber o seu uísque, coisa rara neste mundo, Deus, por intercessão do decrépito Mário Soares, obrigou-o a penar uma semana no purgatório para se limpar dos pecados da gula.

Assim, depois deste período de depuração, Eusébio acercou-se do senhor do universo com o corpo alvo dos bem-aventurados. Corpo branco como o dos anjos purificado pela penitência pois a alma desse herói moderno já era límpida como as mais límpidas águas desde que nasceu.

Eusébio (E) – Ó Deus com que então mandas-me penar uma semana no purgatório.

Deus (D) – Ouve lá ó King. O Mário Soares, embora agnóstico, tem tentáculos de poder tanto no céu como no inferno, por isso sempre soube viver bem entre Eu próprio e o Diabo.

Joaquim Agostinho (JA) – O King não merecia isto. Também tu, ó Deus, permitiste que o teu filho dileto, no ofertório, fizesse acompanhar o pão dos justos com o vinho da alegria.

D – Sim, acho que errei em mandar o King para o purgatório. Olha King, como compensação vais treinar a equipa de futebol do céu pois temos vindo a perder os jogos todos com o inferno e purgatório.

E – Acho melhor esperar pelo melhor treinador de Portugal, o Pinto da Costa, pois com esse o céu fica com uma equipa de ataque continuado e invencível.

D – Não dá para esperar. Ele faz que vem mas não vem. Tem sete fôlegos como os gatos e vai, de certeza, durar mais que o Manuel de Oliveira que já tem o trono dele engalanado cá no céu há mais de duas décadas.

JA – Em termos de deuses para nos virem fazer companhia, temos o Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora.

E – É isso Deus, esses também têm aqui assento garantido.

D – Calma, calminha. O Carlos Lopes tem agora a missão de relançar a excelência internacional do atletismo dos verdes da segunda circular. É missão difícil e duradoura que eu vou permitir que ele cumpra como campeão que é. Quanto aos outros. Bem, ainda são uns ganapos. Deixai-os viver e gozar o privilégio de se sentirem reconhecidos por tudo o que fizeram pelo desporto e autoestima do povo português.

JA – As raparigas, a Rosa Mota e a Fernanda Ribeiro, já têm lugar assegurado ao teu lado direito?

D – Alto e para o baile. O lado direito está reservado aos heróis olímpicos gregos da antiguidade, a vós e a todos os machos que se evidenciem. Elas ficam no lado esquerdo.

E – Ó Deus deixa-te de merdices e não venhas com essas tangas de segregação sexual. Elas, numa sociedade machista, patriarcal, em que eram insultadas quando corriam na rua, tiveram de ultrapassar todos os preconceitos e afirmar-se, em valor, ao lado dos homens. Merecem todo o respeito e admiração quer da terra quer do céu.

D – Ó King, tens razão. A partir de hoje, aqui no céu todos os campeões serão tratados por igual.

E – Mas Deus, eu e o Joaquim Agostinho, não fomos campeões olímpicos nem campeões do mundo. Porque estamos aqui ao teu lado direito entre tantos campeões do passado?

D – Não sejas modesto Eusébio. Os títulos terminais são puramente circunstanciais. Quantos campeões o são porque os seus competidores, melhores que eles, se lesionaram. O título é, muitas vezes, uma questão de sorte. Agora, não tem nada de sorte o exemplo que tu e o Joaquim deram ao luso povo e a todo o mundo. Vocês foram a seiva vivificante que permitiu a todos os desportistas portugueses assumir como própria a máxima do negro presidente dos Estados Unidos – sim, nós também podemos. Vocês foram grandes por todas as vitórias que conseguiram. Mas foram especialmente grandes nos momentos de desaire já que nunca deixaram que a derrota vos prostrasse no chão. Vocês foram exemplares pois quando caíam não ficavam a lamber as feridas e levantavam-se à procura de novos desafios. Essa é a estirpe dos deuses que eu quero ao meu lado.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.