28 Abr 2012, 15:16

Texto de

Opinião

Os nossos vizinhos da Escola da Fontinha

A Es.Col.A da Fontinha tem ideias, voluntários, debate, festa, formação, arte e uma porta sempre aberta. A escola que pertence à Câmara tem barreiras policiais, tapumes, cacifos arrancados, livros e brinquedos tratados como lixo, cadeados e, desde quinta-feira, a porta soldada.

O Visões Úteis mudou-se para a Fábrica Social – Fundação Escultor José Rodrigues em meados de 2009. Porque sempre acreditámos que viver num lugar é mais do que habitar uns metros quadrados atrás de um portão, tentámos desde cedo construir pontes com a comunidade da Fontinha, privilegiando as relações com a população escolar, oferecendo aos moradores entradas gratuitas para os nossos espetáculos e criando bolsas para os workshops que promovemos. No entanto, para nós sempre foi claro que a Fontinha precisava de muito mais do que a nossa ação esporádica.

A escola abandonada da Fontinha era, nessa altura, uma visão desoladora para quem subia e descia a rua diariamente. Uma estrutura fantasmagórica, um desperdício de espaço e um perigo para a segurança pública. A degradação do edifício era visível. Tornou-se ainda mais notória no dia em que vimos uma das grandes janelas do primeiro andar, arrancada pelo vento, estilhaçada cá em baixo, em pleno recreio. A poucos metros das casas em volta. Os moradores falavam de outro tipo de insegurança, a que sentiam ao ver o espaço frequentemente ocupado por traficantes e consumidores de droga.

“O que é que este espaço podia ser?”, perguntávamo-nos e ouvíamos outros perguntar. Um outro tipo de escola, um espaço de apoio às atividades da Fábrica Social, um Centro de Dia, qualquer coisa útil e importante para o bairro, para as pessoas, qualquer coisa que ajude – as ideias eram muitas, mas pareciam nascer e morrer na Fontinha. Da Câmara do Porto não vinha nenhuma.

Quando a escola foi ocupada houve expetativa e desconfiança. “O que é que estas pessoas estão aqui a fazer?”. Até que essas pessoas fizeram algo simples e extraordinário – chamaram os moradores e perguntaram-lhes: “O que é que gostariam que nós fizéssemos neste espaço?”. Há quem chame a isto desplante, abuso, invasão. A nós soou-nos a serviço público, a apoio comunitário. A política municipal, na verdadeira aceção da expressão.

Depois da ocupação, muitos foram os dias em que parecia que a escola nunca tinha estado encerrada. Havia crianças a brincar à porta e a jogar futebol no recreio. Muitos foram os finais de tarde em que a entrada escura e desoladora de antes deu lugar a animadas Assembleias Populares, em que os sons das aulas de música ou de capoeira encheram o nosso caminho de volta a casa. Sentimo-nos acompanhados e, mais importante do que isso, sentimos que alguém estava a acompanhar as pessoas para quem o bairro é a casa.

A Es.Col.A da Fontinha tem ideias, voluntários, debate, festa, formação, arte e uma porta sempre aberta. A escola que pertence à Câmara tem barreiras policiais, tapumes, cacifos arrancados, livros e brinquedos tratados como lixo, cadeados e, desde quinta-feira, a porta soldada.

Nós, claramente, preferimos a primeira.

Visões Úteis

Texto escrito segundo o novo acordo ortográfico

  1. Estarei sempre ao lado do cidadão, e essencialmente no que constitui a defesa dos seus direitos, liberdades e garantias, plasmados desde o artº 1º até ao 79º da Constituição da República Portuguesa.
    Ora, o que se passava naquela escola era um EXEMPLO DE CIDADANIA.
    O que a polícia fez, e sobretudo o seu modus operandi, foi injustificável.

  2. Não sequem a FONTINHA....Ela é tua, ela é minha, e mais de quem lhe quer bem. Eu sou apenas aquele que luta pela ág,E. says:

    Não sequem a FONTINHA…
    Ela é tua…..
    Ela é minha…
    Ela é daquele que luta
    Para que não
    se cerre
    A porta
    Da ES. COLA
    Da FONTINHA

Opinião

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