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22 Out 2014, 11:42

Texto de

Opinião

Os livros encontrados

Procurar um livro num motor de busca não é o mesmo que entrar numa livraria que exala pó e papel, percorrer as lombadas com o dedo e ficar tão felizes como se tivéssemos encontrado um tesouro.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Se me esquecer das caças ao tesouro, dos passeios de bicicleta, das partidas de futebol, dos desenhos animados e dos jogos de computador, na minha infância o mundo dividia-se em dois: o mundo dos livros da escola e o mundo dos livros que serviam para escapar à escola. Cada um destes mundos tinha as suas estantes, capas, formas, usos e tempos e nada neles era confuso ou ambíguo.

Só que vieram mais anos, e mais livros, e tanto anos e livros têm a tendência para nos minguar os olhos e complicar a vida. Os livros multiplicam-se e as estantes multiplicam-se e as categorias multiplicam-se e o tempo livre é cada vez menos. Estava capaz de afirmar que acontece o mesmo com o tempo, mas isso fica para outra altura. E instala-se a dúvida: como organizar a enxurrada de livros que subitamente nos invade a vida como uma divisão de blindados invade um país?

O escritor Georges Perec ensina que os livros podem ser organizados por ordem alfabética de título ou autor, por tema, por cronologia de edição ou de compra, por nacionalidade do autor, por língua da publicação, por tamanho, por cor, por harmonia das lombadas, pelo uso dado, pela frequência da consulta, pelo apreço ao autor ou ao livro, pela qualidade da edição, pelo número da edição, pelo género literário, pela data de aquisição, pela amizade ou amor que o ofereceu ou que o devolveu quando a amizade esfriou ou a paixão ruiu.

Mas, de todos modos de organização, diz Perec, a quem a reverência me proíbe de contrariar, o melhor modo é a não organização. Deixar que a busca de um livro seja uma aventura e que cada livro que se procura faça encontrar quatro ou cinco outros livros. E assim usufruir do maravilhamento de descobrir um livro que tínhamos esquecido ou não sabíamos onde estava – como se fosse um livro novo encontrado pela primeira vez.

Apesar de serem compostos por palavras, os livros devem ser procurados com as mãos e não com outras palavras. Procurar um livro num motor de busca não é o mesmo que entrar numa livraria que exala pó e papel, percorrer as lombadas com o dedo, estalar as páginas à procura do índice, ler com vagar as primeiras frases e descobrir uma cintilação que nos deixa tão felizes como se tivéssemos encontrado um tesouro.

Jorge PalinhosJorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.