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Nos anos 80, era assim a redacção do Comércio do Porto, então na Avenida dos Aliados. Foto: Carlos Pereira Santos

1 Mar 2014, 18:23

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Opinião

Os jornalistas do Porto

Há dias, no auge da polémica à volta da tragédia do Meco, no Prós e Contras da RTP, uma estudante ergueu-se na plateia para vociferar contra os jornalistas, dando-me, pelo menos a mim, uma novidade: a prática de praxes agressivas nas redações com os estagiários. Sinceramente desconheço. Mas, sim, fui praxado, em 81, quando entrei para redação do Comércio do Porto no tempo em que nos tratávamos como os pescadores, por camaradas.

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Quase sempre jornalista, começou no assassinado jornal O Comércio do Porto e daí seguiu para O Jogo, O Norte Desportivo, A Bola e RTP-N. Actualmente, encontra-se de novo n'O Jogo. No jogo das palavras, escreveu um quase romance, “A Candidata”, que aconselha a quem ainda não leu. É co-autor da biografia de Jorge Costa, o Bicho, e foi o ghost writer da biografia de Vítor Baía, até este revelar a autoria... na apresentação do livro. Coisas que acontecem a quem acha que nada acontece por acaso. Nasceu em Leça da Palmeira, indiscutivelmente, o melhor de todos os cantinhos onde existe vida, e tem uma paixão eterna pelo Porto.

E o que me fizeram? Lambuzaram o auscultador do telefone com cola e ligaram-me para eu atender. Claro que não fiquei com o auscultador colado e a coisa resolveu-se entre sorrisos com um pano húmido. Ao longo da carreira fui sempre exercendo o direito de praxar quem chegava. Por camaradagem, oculto aqui o nome de algumas vítimas de um interessante rol de traquinices de gente grande, como da vez em que, exercendo a autoridade de chefe e em o conluio com o diretor em excelente exercício, o António Soares, mandei uma Patrícia (e ficamos por aqui) para a porta do Centro Comercial de Santa Catarina contar os idosos que entravam. E ela lá foi, diligente, convencida que estava a exercer uma tarefa que a ajudaria a subir na vida profissional. A mesma vítima, sem desconfiar, bebeu um cálice de Tantum Verde convencida por mim de que estava a provar pisang ambon. Acho que nunca lhe revelei a verdade, e a verdade é que lhe fez tão bem a ela como à gengiva que me andava a perturbar.

Práticas destas são, julgo, salutares, e se anda por aí alguém com praxes agressivas nas redações faça o favor de se demitir, porque o espírito não é esse. Eu sei que se perdeu muito da classe que a classe tinha. Ainda há dias estava a tomar um café com o meu irmão Vítor, do JN, e em dez minutos raramente olhou para mim: esteve sempre a arrastar o polegar no écran do iPhone enquanto conversava sem se aperceber que às vezes fugia do tema.

É chato quando se diz ‘no nosso tempo é que era’. A nostalgia é um direito, mas quando se fala assim já está implícita uma crítica ao que são os tempos de hoje, e hoje há juventude cheia de valor no jornalismo. Mas pode ser também uma lição. Nesses deliciosos anos 80, os jornais ainda eram rivais, duros mas leais, principalmente ao jornalismo. O Comércio, o JN e o Primeiro de Janeiro, lutavam pelas notícias até o jornal ir para a rotativa, mas de seguida os jornalistas aconchegavam-se no Pajú até alta madrugada, a saborear a vitórias de uma cacha em grande ou a afogar a tristeza de ter falhado a notícia. E era também na noite que se aprendia a ser jornalista, com a vantagem de não haver a ditadura dos jornais on-line, que hoje representam uma espécie de inimigos dos jornais de papel e que leva a disparates tremendos.

O Porto perdeu essa prática do convívio. E havia rituais sempre bem regados, como ir ao Ginjal à quarta-feira comer tripas, ou à sexta ao Pixote ouvir karaoke e ao sábado ao Batô.

Enfim, não quero nada que isto cheire a saudosismo, porque continuamos a ver-nos por aí, mais de dia, é verdade, mas se calhar com uma tremenda saudade de uma noite em que a conversa valia muito mais do que um polegar a roçar o écran do iPhone.

PS: Há dias na redação de O JOGO onde tenho o prazer de trabalhar, preguei uma partida das antigas, que ainda não foi revelada. Nem agora o vou fazer, sendo que desta forma posso deixar na dúvida se preguei ou não partida, ou se este Post Scriptum não é ele mesmo uma partida das antigas. Confusos? Também eu, principalmente desde que ouvi falar em milagre económico. Acho que o ministro nos quis praxar a todos.

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