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20 Mar 2017, 16:00

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Opinião

Os Fuzileiros Portugueses

Como representante da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto tenho estado a trabalhar com o comando da Escola de Fuzileiros do vale do Zebro no sentido de implantar um protocolo de colaboração que permita o controlo do processo de treino e dos planos nutricionais, quer dos recrutas quer dos operacionais no ativo.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Tem sido uma experiência gratificante e estimulante que me tem permitido conhecer, de perto, mais um corpo de tropas especiais cujo treino é dos mais exigentes que conheço. Esse grau de exigência está diretamente relacionado com a dificuldade e a periculosidade das missões que lhes estão cometidas. Os Fuzileiros Portugueses, como tropa de elite, são chamados a intervir em teatros de operações em que o perigo é o denominador comum. Seja nas águas do Índico, na Bósnia, Timor ou Afeganistão, os fuzileiros Portugueses são postos à prova nas mais difíceis e exigentes situações. Para isso foram treinados; para isso são recorrentemente treinados, permitindo um estado de prontidão operacional que permita a Portugal responder aos desafios que as várias missões da NATO lhe colocam.
Por isso, os fuzileiros Portugueses têm de elevar o seu nível de preparação operacional para patamares que que o risco tem de ser assumido. Só os políticos que vingam na defesa patológica do “politicamente correto” é que pensam que uma tropa de elite como os fuzileiros pode ser preparada sem risco. O risco, racional e metodologicamente controlado, é condição sine qua non da preparação dos fuzileiros. Quem coloca a sua vida ao serviço das missões perigosas que a Pátria assume, não pode ser preparado sem a assunção do risco.

O risco, que faz parte da intervenção operacional dos fuzileiros não pode ser anulado no processo da sua preparação. O risco pode e deve ser controlado ao máximo, mas não pode ser evitado, sob pena de estarmos a preparar qualquer coisa que não uma tropa de elite. A preparação militar inócua ou a tender para isso, é dimensão de outras tropas. Um especialista cripto pode ser preparado no “conforto” dos gabinetes se a sua missão se radicar a um comando central longe do teatro de operações. O mesmo especialista cripto que acompanha os fuzileiros em operação tem, forçosamente, de ter uma preparação especial. Antes de ser cripto tem de ser fuzileiro, quer na preparação quer no espírito de corpo e de combate.

Nas minhas visitas aos Fuzileiros tenho-lhes transmitido, sempre que me é pedido, módicos da minha falaz sabedoria, mas tenho recebido muito mais deles. A começar pelo exemplo. Respira-se, naquela Escola de Fuzileiros, um saudável ambiente de treino. Quase toda a gente treina voluntariamente para manter o corpo e o espírito em prontidão operacional. Os instrutores dão o exemplo e, ao contrário de muitos outras instituições militares e paramilitares, raramente se vê um “gordo” nos fuzileiros, pois a qualquer momento podem ser chamados para as mais exigentes missões. O meu melhor amigo costuma dizer que só acredita em duas coisas – em Deus, que é ele, e no treino. Relevando o seu ateísmo, ele tem toda a razão pois o treino é a “mãe e o pai” de todas as funcionalidades, sejam físicas sejam mentais.

O dia-a-dia na Escola de Fuzileiros evidencia o espírito gregário e de corpo que é a razão da sua força. Denota-se um saudável respeito hierárquico que não é servil, mas operativo. Todos são respeitados como seres humanos pois os comandantes também desenvolveram as suas competências de chefia no perigo das missões. O orgulho de pertencer a este corpo de elite vislumbra-se no mais jovem grumete e no mais graduado comandante. Sentem orgulho em ser fuzileiros e ser herdeiros e fautores da sua grandiosa história.

Nesta última visita à Escola dos Fuzos tive uma agradável surpresa – o Cabo Pinto. Ele é o zelador-cicerone do Museu dos Fuzileiros. Quando lá cheguei, estava a tratar, com desvelado carinho, de um arcabuz centenário que é uma das relíquias do acervo museológico. O Cabo Pinto propiciou-me uma vívida lição de história Pátria na história dos Fuzileiros. Alia, a um profundo conhecimento da saga histórica dos fuzileiros e por arrasto de fases importantes da história Pátria, um sentido de humor que mantém o interesse dos ouvintes presos ao discurso bem elaborado. O cabo Pinto é um professor-nato cuja verve didática pede meças aos melhores professores que conheci. Donde menos se espera, surgem os Hermanos Saraivas que estão escondidos nos interstícios na nossa mais profunda Portugalidade.

Conviver com os Fuzileiros hoje, é um remake do meu convívio com muitos deles quando estive na Guiné. Lá morreram muitos, mas o seu sangue cobre de honra as páginas mais belas da nossa incontornável História.

Opinião

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