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Foto: Arq/Miguel Oliveira

4 Jul 2014, 10:28

Texto de

Opinião

Os amantes frustrados

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São mais os editores a quem move o desejo ao mesmo tempo altruísta e vaidoso de partilhar o seu prazer inadulterado com o mundo e, assim, dar o sopro da vida e do olhar ao seu amor.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

As únicas coisas importantes na vida são as que nos arruínam sem que haja uma razão para isso. É o que acontece com a literatura, pela qual tanta gente já sofreu, viveu e morreu em segredo, quer fosse seu leitor, seu estudioso, seu tradutor, seu colecionador, seu crítico, seu vendedor, seu impressor, seu autor e, talvez mais do que todos, seu editor.

Há, é verdade, editores para quem os livros são meros enchidos de papel, onde deitam muita água e muitos corantes, a quem poupam no sangue e na carne que tanto custam e quase não dão lucro. Mas são muitos mais os editores a quem move o desejo ao mesmo tempo altruísta e vaidoso de partilhar o seu prazer inadulterado com o mundo e, assim, dar o sopro da vida e do olhar ao seu amor, para que ele deixe de ser uma massa inerte e anónima.

E esse desejo leva-os a gastar o seu próprio dinheiro e tempo e olhos e esforço a tentar disseminar os livros de que gostam, como se fossem amantes desvairados que desejam mostrar ao mundo que o seu amor é o mais belo de todos o que já houve na face da Terra.
Só que o fazem do fundo do corredor, escondidos pelos nomes dos autores, pelas capas dos designers, pelos caracteres dos tipógrafos e pelas marcas das suas editoras, como se fossem Pigmalões intimidados por terem o poder e a desfaçatez de mostrar em público as formas da sua paixão.

Mas é muito raro que o mundo os oiça, que atente nas obras de amor que tantos lhe querem apresentar. E por isso são também tantos os editores endividados, falidos, arruinados e frustrados pela sua paixão. Mas, como verdadeiros amantes, não recriminam a literatura, não se arrependem do seu amor, não lamentam os sonhos perdidos, suspiram somente por uma coisa, uma única coisa: o não terem mais um pouco de dinheiro para editarem só mais um livro, só mais um autor, só mais um objeto de paixão.

Jorge PalinhosJorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.