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Foto: Natal Zeitgeist

11 Jan 2017, 12:57

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Opinião

Os alquimistas estão chegando

“Rapai”, como dizem alguns parceiros de projeto lá no norte fluminense, sexta, dia 6, depois de uma jornada de trabalho puxada, escaldando no calor desse verão carioca, que amolece o asfalto que se pisa e entorpece os miolos, fui parar na Casa Amarela, em Santa Teresa, para comemorar o dia dos Reis, à la Terê.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Artistas, amigos, frequentadores de carteirinha, o vento que entrava pelos janelões do antigo casarão, soprando o cair da tarde. Vento? É, vento. Lá sempre tem. Ladeirão, de quina para parte da Baía de Guanabara, janelas por todo lado. Ufa!

Fofoca daqui, fofoca dali, a Terê inicia as comemorações fazendo uma oração singela e trazendo uma pergunta e um pedido a cada um dos presentes. Por que deixamos de comemorar o dia de Reis na cidade do Rio de Janeiro? Que recordação cada um de nós teria desse dia?

No cesto dos depoimentos, o Rousseau tira do fundo do baú suas memórias. Lembra de si menino, na cidade de Vassouras, levado pelo pai a saudar os reis em tradições. Ainda revirando o baú, encontra as lembranças dos folguedos – surpresa! – na cidade do Porto, há anos, quando a trabalho visitava estaleiros. Tapetes e panos nas janelas, versos recitados pelas crianças, as portas que se abriam e os doces portugueses que eram oferecidos aos miúdos. Doces por-tu-gue-ses, frisou bem. Sobre os doces, esse é um comentário que ainda que escrito e dito a um oceano de distância não carece de nota de rodapé, seja o leitor de que nacionalidade for, friso eu.

Sem script nem ensaio, um após outro, falou-se da alegria que sentiam, dos detalhes das preparações, da não-memória. Algumas palavras-chaves prevaleceram como estrela-guia. Generosidade, diversidade, destemor. Generosos, aqueles que nascem e que se dispõem a começar uma jornada em um mundo desconhecido. Generosos, aqueles que os acolhem e que se entregam a fazê-los florescer. Aqueles que os saúdam, que atravessam um deserto sem sequer pertencer à comunidade do menino na manjedoura. Imigrantes, como disse a Marta. Como os sírios, africanos e tantos outros que a cada dia atravessam muitos mares de desertos.

E, olhando nos olhos desse momento inesperado, mágico, eu diria, com tantos ventos que insistem em trazer notícias desalentadoras, me dei conta de que estava diante de alquimistas, como na música de Jorge Ben Jor, buscando transformar desesperança e indiferença em ouro, incenso e mirra. Mais, escreveu-se naquele momento um Auto de Resistência à pouca fé na humanidade.

Para o ano que vem, vejamos quanto ouro esses alquimistas terão conseguido transmutar, o qual, despido de suas metáforas e transformado em portas abertas, poderá vir a ser reconhecido na sua essência verdadeira – sabedoria e, quem sabe, fé na vida e nos homens.

Nunca passei o dia de Reis no Porto. Nunca havia passado o Reis na Casa Amarela. O que parece sem conexão, à parte a data que se comemora, vincula-se por uma única palavra: generosidade. Que transbordou dos alquimistas de Santa Teresa. Que, nas minhas experiências e convívios, transborda dos portuenses. Feliz Ano Novo!

 

Marisa Oliveira tem paixão pelo mar, por belos filmes, por viajar. E por ter bons amigos.  Adora ler e escrever e contar estórias. Adora a língua portuguesa. Redonda e macia. Jornalista, colabora em periódicos. Escritora, é autora do romance infanto-juvenil “Guga-Niquim, o menino-homem-onça” e dos contos reunidos no livro “Goiabada Cascão”. Outros contos seus foram publicados em obras coletivas. Brasileira, é carioca da gema.  MO_Bairro dos Livros- Ler é voar_P24-4

Opinião

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