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A chegada do PAIGC a Cancolim foi saudada com alegria e emoção.

22 Mar 2014, 15:38

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Opinião

Onde estavas no 25 de Abril?

Há 40 anos estava na guerra colonial, Guiné-Bissau, numa aldeia do fim do mundo, em Cancolim, longe de Bafatá. Quando a madrugada mais luminosa aconteceu já levava várias operações no mato, quilómetros de caminhadas por entre trilhos de floresta sempre à espera de um balázio, uma mina debaixo da árvore, um ataque do PAIGC. Aparentemente, no país dos “coronéis de lápis azul” o Fascismo estava para lavar e durar. Não existiam mortos nem feridos. Antes “baixas em combate”, notícias a uma coluna de jornal.

Imagem de perfil de Manuel Vitorino

Nasceu no Porto (Paranhos). Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, depois tirou uma Pós-Graduação em Direito da Comunicação, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Escreveu durante anos sobre cinema n'O Primeiro de Janeiro e trabalhou 23 anos no Jornal de Notícias. Faz parte da Direcção do Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto. Depois da cidade, gosta do FCP, mas também de caminhar pelo vale do rio Bestança. A Itália é o seu destino de eleição. Mantém em permanência o blogue Mau Tempo no Canal.

Manuel Vitorino na guerra colonialAté ao 25 de Abril vivia num país de partido único, salazarento, cinzentão, liberdades vigiadas por legionários e pides. Dizer mal do António de Santa Comba Dão só em voz baixa. O delator tanto podia ser o vizinho “bufo” como o colega de trabalho. Ler o Avante dava direito à perda de emprego. Distribuir um panfleto de apoio aos presos políticos à prisão. Tudo era literalmente proibido. Até um beijo na rua.

Naquela manhã do dia 25 de Abril acordei cedo e a telefonia só transmitia marchas militares, notícias sobre um “golpe de Estado” em Portugal feito por militares. “Aqui posto de comando das Forças Armadas” ouvi vezes sem conta a par de siglas únicas e inimagináveis: “MFA”, “O Povo Unido….” Estou em África, no meio do nada, fico inquieto, ansioso. Já só queria aterrar em Lisboa, viver dia e noite, fazer parte da História.

Sintonizo a Emissora Nacional, depois a BBC, mais a Deutsche Welle, a Voz da Alemanha e nas várias estações oiço sons de gente sedenta de Liberdade, reportagens de multidões nas ruas de Lisboa e do Porto, exigências de “Libertação dos Presos Políticos” e “Abaixo a guerra colonial”.

Subitamente, o país está em catarse colectiva, em festa. E fico colado à rádio de todas as ondas hertzianas. Pelo microfone de um repórter estimado, Adelino Gomes oiço as primeiras declarações do capitão Salgueiro Maia, o mais generoso de todos aqueles que ousaram restituíram o país à dignidade, retenho gritos de Liberdade, o cerco ao quartel do Carmo – onde Tomás e Marcelo se refugiam antes do exílio dourado para a Madeira e depois o Brasil – a chegada de Spínola ao palco dos acontecimentos. E digo com os meus botões: “A Guerra Acabou”.

E assim aconteceu. A 2ª companhia do BC 4518 ainda fez mais duas ou três incursões pelo mato, mas poucos dias depois da “Revolução dos Cravos” uma coluna de “temíveis guerrilheiros” do PAIGC ultrapassou o arame farpado e veio fraternalmente ao nosso encontro. E por magia tanto as Kalashnikov como as G3 calaram-se de vez.

No quartel o tempo foi vivido em festa, emoções e lágrimas. Abraços calorosos e confidências. “Nós sabíamos quem vocês eram e o que faziam em Cancolim”, disse-me um combatente das tropas de Amílcar Cabral. Depois das cervejas, decidimos continuar a conversa pela noite dentro, trocar de farda e emblemas, tal e qual como acontece nos jogos de futebol. A minha competição foi outra. A guerra da Guiné só podia ser ganha pelo PAIGC.

Opinião

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