20 Ago 2013, 11:56

Texto de

Opinião

Obrigado Carlos Tê

O Carlos Tê, com a acuidade dos artistas, concretizou em poemas o fluir existencial duma geração, não a dele mas a minha, que tinha a guerra no Ultramar como pano de fundo e que procurava nos múltiplos sentidos da vida o sentido terminal da mesma.

Regresso recorrentemente ao “Mingos e Samurais” para rever com toda a força as emoções dos meus dias de juventude.

O Carlos Tê não fez por menos, apesar de ser um miúdo à minha beira e não ter vivido com a força requerida os anos sessenta, conseguiu em duas dezenas de poemas bem esgalhados retratar os sonhos e desilusões da minha geração. Juntando os poemas do Tê e a música do Rui criou-se o Rosebud de toda uma geração. Por muito que me esforce para esquecer o álbum, ele regressa a mim com a força da vida vivida, das imagens que me preencheram o existir e obriga-me a viagens de retorno que muitas vezes têm o riso ou as lágrimas como companheiros.

O Carlos Tê, com a acuidade dos artistas, concretizou em poemas o fluir existencial duma geração, não a dele mas a minha, que tinha a guerra no Ultramar como pano de fundo e que procurava nos múltiplos sentidos da vida o sentido terminal da mesma.

Logicamente, nunca conseguimos descortinar um sentido para a vida mas pelo menos tínhamos o rock como lenitivo. É bem verdade, o rock coloriu-nos a vida e quem assistiu à passagem do testemunho do Elvis Presley para os Beatles e Rolling Stones nunca pode dar a sua vida como mal empregue.

Muitas vezes as angústias existenciais e afetivas terminavam em poemas denunciando amores não correspondidos. Quase esqueci os poemas que fiz mas lembro-me bem de um poema do meu amigo Adelino que morava para os lados de S. Vítor.

“Se a vida me desse algo que ao amor se comparasse

Acho que haveria razão para que na hora de morrer chorasse.

Mas porque hei de chorar na hora em que morrer

Se a vida nada me deu que eu gostasse de ter”…

Cá está aquela dimensão de abandono, de cão ferido e lamuriento, que as gajas da minha juventude provocavam. Tenho o prazer, agora, de as ver velhas e gastas enquanto nós continuamos lindos e graciosos apesar da barriguinha da cerveja.

Também eu me pasmava de amores impossíveis que se consubstanciavam em poemas que guardava no fundo da gaveta. Éramos lindos, naïves, e uns morcões do caraças. Com raras exceções éramos todos “serial tampas”. Fazíamos filas nos bailes implorando com o olhar de cão abandonado o favor de uma dança e normalmente tínhamos um negativo abanar da cabeça como resposta.

Havia baile em Valbom, sim senhores. Só comecei a dançar com alguma frequência quando mostrei a uma das raparigas as minhas mãos calejadas do Remo e que permitiram afirmar-me como serralheiro mecânico. Os estudantes só queriam os chiços de ateliê para as desgraçar. O operariado era mais justo e comedido, só queria uns roços e o mais que viesse por acréscimo. Às vezes a coisa dava para o torto e eram mesmo obrigados a casar com pais furibundos a ameaçar mortes e linchamentos.

Ter sido jovem nos anos 60 foi um privilégio que nem as “espinhas no rosto” reduziram de intensidade.

Cursei “Faltalogia” com nota máxima na Oliveira Martins e, também com nota não tão máxima, cursei “Bilharologia” no Batalha. Tê não inventou. Existia mesmo um gajo chamado não Meno mas Gastão que bilharava a preceito e nos obrigava a assistir pávidos e pouco serenos ao desfiar da sua arte quando decidia visitar os vários antros bilharísticos da cidade. Limitávamo-nos a pagar e a jurar nunca mais cair noutra.

Acabei o curso comercial em 1963 e, já doutor, encetei a romaria dos empregos aos bochechos. A tropa impedia a obtenção de empregos mais duradouros o que a mim dava algum jeito. Com o verão a aproximar-se eu, explorado pelos gólgotas do sistema capitalista, era despedido. O meu pai nem sonhava que os despedimentos eram provocados por mim para fruir das praias e mais tarde das idas a Espanha com a canoagem.

Comecei a jogar basket no Fluvial e passei para o CDUP enquanto tentava entrar no Instituto Comercial. Ia estudar para a biblioteca municipal e passei a frequentar o café S. Lázaro onde vegetavam os intelectuais das Belas Artes. Fumava “Provisórios” ou “Kentucky” com ar intelectual e com uns livros debaixo do braço para me assemelhar aos artísticos cabeludos.

Em 1969 fui para a tropa. O Dinis tinha ido um ano antes. Morreu em combate nas matas da Guiné. O meu melhor amigo, companheiro de vida e desporto que permanece perene no que de melhor tem a minha alma, deve estar no Olimpo a ouvir de vez em quando o “Mingos e Samurais”.

Eu, como a única aptidão musical que tinha era tocar às campainhas das portas, limitava-me a ir assistir aos concertos dos artistas de perto de mim – Os Blusões Negros e o Armindo do Rock. Mesmo nessa altura as garinas não davam muitas baldas, por isso, bem posso afirmar que sexualmente, a minha geração, é especialista em prazeres solitários com uns beijos à mistura. “Querido, beijaste-me? Estou grávida tens de casar comigo” e nós, morcões bem assumidos, acreditávamos.

Fomos uma geração de mudança. Conseguimos libertar-nos dos espartilhos culturais, religiosos e políticos que tolhiam o país. Mais do que constrangimentos políticos tínhamos bloqueios culturais, éticos, civilizacionais. A luta política era coisa para muito poucos; a luta por um Portugal moderno empenhou toda a minha geração. Uns emigraram com os sonhos na bagagem, outros ficaram arrostando com a ingente tarefa de transformar o país por dentro. Conseguimos parte disso. Construímos a liberdade cívica e política. Ainda nos falta a luta pela cultura.

Quando a cultura popular tem elevação e corresponde ao pulsar de uma sociedade, mesmo o lúmpen se deixa tocar. O grande êxito do “Mingos e Samurais” foi pôr no mesmo comprimento de onda, as mães dos drogas dos bairros camarários e as filhas, os pais dos marginais do roubo por esticão e os filhos, os políticos de direita saudosistas dos seus credos de esquerda e as meninas bem do “jet 9 e 1/2”, os professores universitários e os seus tempos de pseudo-revolução antissocial e as meninas da minha geração que não se punham nuas mas que queriam ficar com os Mandrakes e os Cavaleiros Andantes para juntar aos Corin Telhados com que municiavam os seus sonhos húmidos.

Estou vingado. Obrigado Carlos Tê.

  1. Obrigado Zé

    Enquanto lia o teu artigo, dei comigo a viajar no tempo e de repente, vejo-me parado em cima de um telhado, no Mosteiro de Amarante, pronto para entrar num baile com o Segundo Galarza e o Quinteto Académico. Tinha acabado de descobrir uma entrada estratégica. Com esta descoberta, para além da entrada grátis, tinha a possibilidade de vender a senha de uma “falsa” saída e novamente regressar ao baile (pelo mesmo lugar), podendo assim acabar a noite em festa e com dinheiro no bolso, que era coisa que raramente tinha.
    Somos sim uma geração de mudança, mas também do “desenrasca”. Nunca a falta de dinheiro ou do que quer que fosse, era problema. Havia sempre solução. Faziam-se quilómetros a pé, á boleia, á chuva, de noite, etc…, mas o espírito da aventura, da descoberta, do amor… era assim. Tinha que ser e pronto.
    Sabíamos que dependíamos de nós.
    Tu em Valbom como serralheiro mecánico, eu por Areosa como marceneiro, também por lá tentei a minha “sorte”, ao som da música dos Creedence ClearWater Revival. O colocador de músicas (D.J. da altura) anunciava as músicas: “Agora vamos ouvir dos Credencial Cliar Uater revival a música “Mai love come back to me”. E traduzia: “Meu amor salta-me p’rás costas”.
    Ninguém ali se atrevia a rir ou a tecer qualquer comentário. Siga a dança… .
    Sim, falta-nos uma luta pela cultura, por uma cultura de valores onde a seriedade, o mérito e o saber, são as verdadeiras metas. Onde todos, são chamados á responsabilidade, mas também ao reconhecimento.
    Não é admissível termos um Presidente da República, entre tantos outros políticos e ex-políticos, sob suspeição (negócio da casa do Algarve) e em funções, depois de beneficiado que foi com acções do BPN (não cotadas em bolsa) e que tanto prejuízo deu e dá ao País.

    Estou na “estrada”. Obrigado Zé

    A propósito de “bailes” e “artistas” ouve a minha música “CORRENTE LATINA” em http://www.myspace.com/fnanisantos

    Abraço

  2. O Carlos Tê não fez por menos, apesar de ser um miúdo à minha beira e não ter vivido com a força requerida os anos sessenta, conseguiu em duas dezenas de poemas bem esgalhados retratar os sonhos e desilusões da minha geração. Juntando os poemas do Tê e a música do Rui criou-se o Rosebud de toda uma geração. Por muito que me esforce para esquecer o álbum, ele regressa a mim com a força da vida vivida, das imagens que me preencheram o existir e obriga-me a viagens de retorno que muitas vezes têm o riso ou as lágrimas como companheiros.

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Opinião

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