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Foto: Arq/Miguel Oliveira

20 Mar 2014, 17:35

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Opinião

O Vento Interno

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Tomei conhecimento do conceito de “vento interno” através da medicina tradicional chinesa. A expressão interessou-me, desde logo, não tanto pelo lado terapêutico – não desdenhando esse aspeto – mas pela sonoridade extremamente poética, aliás, muito mais comum na curvatura delicada da linguagem asiática do que na dureza das designações científicas europeias.

Imagem de perfil de Carlos Luís Ramalhão

Nasceu em Manchester, Inglaterra, mas veio crescer à Maia, cidade de origem da família paterna, onde vive. Deambulou pelo jornalismo, mergulhou no argumento e na escrita criativa, passou pela tradução. Estudou Jornalismo e Ciências da Comunicação na Universidade do Porto e Writing for the Media na Bournemouth University, em Inglaterra. Colaborou em diversos projectos culturais, dos livros à fotografia, passando pela música e pelo cinema. É co-autor do livro de contos ''Taxicidade'', editado em 2007, e autor do conto “Antes que venha o Inverno”, publicado como e-book, em 2013. É também formador de escrita criativa e argumento.

Não consigo imaginar um hepatologista, num corredor engarrafado do Hospital de São João, a alertar-me para as consequências do vento interno.

Diga-se, a título de curiosidade, que o vento da medicina tradicional chinesa se desdobra noutros sentidos que não apenas o interno. No entanto, foi este, aparentemente relacionado com questões do fígado, e não outro, que me referiram.

As palavras existem para que viajemos nelas. São maleáveis, elásticas, permitem-se exercícios infinitos, jogos eventualmente perigosos que, à semelhança do fruto proibido, possuem uma diabólica capacidade de atração.

Pus-me a cavalo nesse vento, sem sela nem rédeas, dei-lhe uma nova forma, consistente com a sua natureza escorregadia, assobiadora e rebelde. Tomei consciência de um novo vento interno, lambendo desenfreado o interior do meu corpo. Chamei-lhe revolta.

Este furacão feito de brisas, tal como a caixa negra que me transformou as maneiras de ver televisão, também grava para que eu veja mais tarde. No entanto, não se limita aos noticiários ou aos resumos dos jogos de futebol. O meu vento grava as cenas feias, as figuras tristes do dia-a-dia. E deixa-se incendiar por elas.

Perto da Rotunda da Boavista, quando a rua dá lugar a uma avenida, uma senhora conduzindo apressada à minha frente, protesta com voz de buzina, esbraceja como quem tem razão, reclamando para si o espaço ocupado por uma senhora mais velha, com dificuldades de locomoção, que tenta sair de um carro à velocidade que o corpo lhe permite. O meu vento levanta-se perante o egoísmo humano.

Num café, homens de barba a fazer as vezes de maturidade, discutindo notícias de futebol. Uma mulher sem barba nem nada, juntando-se à festa, apregoando razões que descambam em insultos. Escondida atrás das suas pernas, uma criança assiste, arredonda os olhos espantados. O meu vento assobia diante do mais primitivo desejo de conflito, a sobrevalorização do supérfluo.

As notícias apresentam-me uns senhores bem arranjados, melhor falantes. Talvez eles achem que a repetição das ideias se aloja em nós como um barulho bom, como uma música de Philip Glass. Falam da crise no passado. Falam do futuro como se ele fosse um gelado à beira-mar. Os seus sorrisos gémeos é que nos governam e se governam e eles convidam-nos a tomar um chá como se este país fosse a sua sala de estar e a honra da visita fosse toda nossa. O meu vento ameaça transformar-se em tornado e os seus repentes são revoltas, gritos de basta que disfarçam os lamentos impotentes.

Tudo isto o meu vento vê, e com tudo isto se ergue e caminha. Mas o meu vento é interno, está limitado aos terrenos do meu corpo, não basta. É por isso que ele se estica até às pontas dos meus dedos, puxando-lhes as cordas para que desabafem. Para que existam e (h)ajam.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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