22 Mai 2011, 15:52

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Opinião

O talento e os amigos são o novo cavalo de Tróia

O conceito de um emprego seguro não faz mais sentido. Não que seja um mau conceito – não é. Os humanos apreciam o conforto desde sempre. É legítimo. O problema é que hoje as sociedades organizam-se de outras formas.

O jornalista de ciência Robert Krulwich deu este mês um bom conselho aos estudantes de jornalismo: criem os seus próprios projectos, não fiquem à espera de um lugar seguro nos grandes grupos de comunicação social. O conselho foi dirigido a alunos nos Estados Unidos, mas vale para todos os que vivem em cidades que, como o Porto, apresentam altos índices de desemprego mas também uma boa rede de indústrias criativas.

Krulwich tem razão. O conceito de um emprego seguro não faz mais sentido. Não que seja um mau conceito – não é. Os humanos apreciam o conforto desde sempre. É legítimo. O problema é que hoje as sociedades organizam-se de outras formas. As empresas também. Cabe então aos jovens construir espaços onde possam sentir a mesma protecção que, até agora, era encontrada nos quadros de uma empresa.

Podemos acusar Krulwich de uma certa dose de romantismo. Mas a verdade é que tenho visto o seu conselho posto em prática todos os dias. Em Londres. Em Nova Iorque. E no Porto também. Há jovens a escrever blogues especializados, a vender as suas ilustrações online, a abrir negócios alternativos e a criar projectos independentes (o próprio Porto24 é um bom exemplo disso).

Quando se sentem sozinhos, fazem co-working. Associam-se. Partilham. Comercializam e divulgam os seus trabalhos sem precisar do guarda-chuva das grandes empresas. Esta nova geração – que já não é bem a minha – está a seguir precisamente o modelo que Krulwich preconiza.

Se é fácil? Não, não é. Krulwich é o primeiro a reconhecê-lo. Há contas para pagar, o tempo não é elástico, isso sem falar na angústia que um projecto independente pode implicar. Krulwich explica essa sensação usando a metáfora do cavalo de Tróia. Os novatos saem das universidades inspirados pelos trabalhos que vêem no New York Times ou na BBC, mas não conseguem perceber como é possível furar o bloqueio do mercado de trabalho. Ser contratado por uma redacção onde se faz jornalismo de referência é hoje extremamente difícil.

Aos olhos dos mais jovens, os meios de que os mais experientes dispõem podem parecer do domínio da ficção. Têm viagens, telefone e equipamentos pagos. Têm o reconhecimento das fontes e do público. Não passam recibos verdes, não escrevem sozinhos em casa, não trabalham ao telefone enquanto estendem a roupa. No passado, os profissionais que hoje beneficiam de um emprego seguro (ou da sua ilusão) souberam entrar no mercado usando um estratagema que já não funciona. A eficácia de uma estratégia depende do seu contexto histórico.

Krulwich sugere então uma outra estratégia, esta adaptada à admirável nova era em que vivemos. Consiste em algo simples, como explicou aos alunos da Escola de Jornalismo de Berkeley: “Talvez, para a vossa geração, o cavalo de Tróia é aquilo de que vocês dispõem, o vosso talento, apoiado por uma legião de amigos. E não amigos em altos cargos. Esta é a era dos amigos ocupando cargos modestos. Aqueles com quem vocês convivem hoje são quem vai reparar em vocês, questionar-vos, trabalhar convosco, e proteger-vos. Talvez eles serão a vossa força.”

Eu acredito que o modelo Krulwich vale não só para os estudantes de jornalismo mas para todos nós. Jornalistas ou não, independentemente da idade. Precisamos muito disso num país em que a taxa de desemprego volta a atingir máximos históricos, sendo que a região Norte está acima da média nacional (12,4%) estimada pelo Instituto Nacional de Estatística.

Vibro com a possibilidade de a ideia propagar-se, contaminando diferentes sectores e ideologias, impulsionando novas formas de as pessoas se associarem, trabalharem e prosperarem. Temos muito a aprender com uma geração que inventou o seu próprio cavalo de Tróia.

P.S.:  Robert Krulwich está associado a um dos projectos radiofónicos mais bonitos que já ouvi. Chama-se Radiolab e gravita à volta de temas científicos ou médicos. Os podcasts podem ser obtidos gratuitamente a partir desta página.

  1. Sammy says:

    Bom Trabalho Andreia. Os Jovens precisam de toda a ajuda, porque esta luta, vai ser sempre a perder. Mas Hey.. Nunca perdemos o sentido de Humor e nunca paramos de lutar! =)

  2. Um excelente incentivo a accao, num momento em que a desilusao e o baixar de bracos tende a imperar. Obrigada pela dica.

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