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20 Mai 2015, 21:31

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Opinião

O sexo dos livros

Pergunto-me se serei eu um Agostinho dos livros, um esteta para quem o título ou o autor certos não têm preço, ou antes um Octávio, que compra o que está em saldo.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

A mais injustiçada das grandes instituições portuguesas é a taberna. Durante séculos desprezada pela igreja, pelo estado, pelos livros, é na verdade a coluna dorsal da cultura portuguesa. Nas tabernas nasceu o fado, a poesia, a literatura, a política, a língua, a revolução. E nasceram também os petiscos que alimentam a alma portuguesa: o bolinho de bacalhau, o rissol, o jaquinzinho, o croquete, as moelas, o queijo com marmelada e outras iguarias que são mais nacionais que qualquer clube, monumento ou bandeira.

Eu gosto de tabernas. Não das novas, com tapas de fusão, mas das autênticas, onde se vende vinho duvidoso a copo, se fazem as contas no balcão e se conhecem personagens memoráveis, que nos contam vidas inteiras a troco de uma mini e sabem todas as soluções para salvar o mundo.

As mais recentes que conheci foram o Senhor Octávio e o senhor Agostinho, que, ao terceiro tintol, estabeleceram o mais encarniçado debate sobre prostituição a que já assisti. Como qualquer relacionamento, a sua conversa começou pelas prostitutas que tinham em comum – várias –, depois passou para a sua exaltação – grandes mulheres, tão sofridas –, a sua qualidade – melhores as mais experientes e carinhosas que as novas, a aviar homens como se fossem frangos –, a sua quantidade – centenas, a crer nas palavras etilizadas –, e, por fim, o preço.

Nisto ambos se dividem. Agostinho clama pagar o que for preciso pelas melhores, desde que lhe agradem. Octávio segue à risca um orçamento – cada vez mais diminuto às mãos da Troika – e, se não for a que mais lhe agrada, escolhe outra que agrade menos, desde que os algarismos estejam bem e sobre o dinheiro para a vidinha – a parte da vida que desconhece vícios ou paixões.

À medida que as línguas de ambos os homens se entaramelam e esmorecem, eu vou pagando, vou saindo, vou pensando enquanto caminho pela rua: não deixo de admirar Agostinho, que se arruína por uma paixão, em vez de a afogar na disciplina orçamental como Octávio. E à medida que a minha mente vagueia para esta crónica e para os livros, pergunto-me se serei eu um Agostinho dos livros, um esteta para quem o título ou o autor certos não têm preço, ou antes um Octávio, que compra o que dá jeito, o que está em saldo, o que passa pelo crivo do medo e do cálculo. Que escolhe um livro barato com um suspiro, e o leva para casa e para a cama, sem conseguir esquecer aquele outro livro cobiçado, cuja lâmina da carteira deixou ficar para trás.

Jorge PalinhosJorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.