27 Mai 2012, 11:26

Texto de

Opinião

O saber mexe-se

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Temos de nos adaptar às novas tecnologias, mas devemos ensinar às nossas crianças não só a pô-las em causa, mas a ter um juízo crítico sobre os resultados.

Portátil

Foto: SXC

O que é o conhecimento? Como encontrar a verdade? Eis perguntas sem resposta definitiva… a não ser que digitemos alguma palavra-chave num motor de busca e recebamos, sem incómodos de maior, respostas à distância de um clique. E se formos preguiçosos, não é importante: copiamos o texto e plasmamo-lo no local em que for mais conveniente.

Estes simples gestos levantam uma série de questões. Uma delas, bastante curiosa, tem que ver com a própria autoria que se vai diluindo, perdendo a escrita o seu espaço numa espécie de oralidade grafada em que tudo é de todos – excluindo por isso a subjetividade que a autoria empresta a cada um dos textos criados.

Saber ler não é apenas ler as palavras escritas mas senti-las num pensamento que é próprio de outra pessoa. A eterna migração dos textos, que parece desenhar-se na internet, fere essa interrelação podendo, em última análise tornar a leitura mais pobre.

Outro aspeto importante tem que ver com a natureza que atribuímos ao conhecimento e à vertente educativa que ela implica: é que no fundo delegamos a um motor de busca a responsabilidade da pesquisa – um movimento inevitável, dirão, e até a um certo ponto estaremos todos de acordo.

Acontece apenas que os resultados da pesquisa obedecem a muitos outros critérios: popularidade dos sites; número de atualizações; número de acessos de acordo com determinadas palavras-chave. Enfim, toda uma série de critérios em tudo estranhos à “verdade” ou sequer a uma certa objetividade do conhecimento. Os resultados flutuam conforme o mercado dos links e dos sites.

Será indispensável sujarmo-nos nesse mercado? Certamente. A questão educativa que se põe é ensinar às crianças não só a pô-lo em causa, a ter um juízo crítico sobre os resultados.

É certo que o saber move-se. Temos de nos adaptar às novas tecnologias. Elas maximizam gestos, põem-nos em contato com uma quantidade de informação dificilmente evocável por outras vias. No entanto, é um computador a pesquisar por nós – e é isso que devemos ter o cuidado realçar também às nossas crianças.

O saber move-se – repetimo-nos – mas nem sempre como os motores de buscam teimam em indicar.

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Luís Fernandes says:

    Os infofanáticos não estão preparados para a tua reflexão. Exige pensar, que é algo que a rede dispensa. A prova do que digo será o quase nulo eco da tua crónica.

  2. Daniela Ormonde says:

    A quem diz (e quem não o diz?) que tudo o que existe pode ser encontrado no google, pergunto: por acaso sabe qual a lógica dos algoritmos desse motor de busca? Sabe que o google calcula “os melhores resultados para si” consoante as suas pesquisas anteriores sem que se dê ao trabalho de perguntar aos utilizadores se lhes interessa esse mecanismo?
    Porque se preocupam eles em escolher por nós e simultaneamente omitir que o fazem?
    Bourdieu falou-nos dos objectivo dos media cuja aparência plural e independente se revela afinal numa realidade estreita e repetitiva: dinheiro. Como ganhar dinheiro? Fazendo apelo às emoções (daí a preponderância de notícias espectaculares,dos fait divers), isto é, dar-nos a papinha que mais gostamos. Assim faz a fórmula do google: dá-nos apenas aquilo que nos agrada, o que confirme as nossas expectativas acerca do mundo. É a velha máxima: o cliente tem sempre razão. Resta-nos a pergunta: será a procura do conhecimento compatível com filtros auto-confirmatórios? Se sim, então temos que para um dado assunto existem “x” “versões de verdade”, sendo “x” o número de indivíduo a pesquisar no google (assumindo que os “históricos de pesquisa” não coincidem). Há por aí algum matemático interessado em formalizar isto numa elegante equação?

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