1 Jan 2013, 19:23

Texto de

Opinião

O que têm os portugueses?

Poderíamos dizer que aquilo que têm os portugueses antes de mais nada é aquela sensação de azia no estômago própria de quem foi enganado. De há muito que os portugueses ou votam no PS que os engana ou no PSD que os desengana.

O que têm os portugueses? É possível pegar na questão sem dizer que estão cabisbaixos, macambúzios, receosos, amedrontados, abisonhados, aflitos? A pergunta tem feito falar especialistas de vários quadrantes, preocupados com os efeitos que está a ter em (quase) todo um povo a saraivada de estratégias do capital financeiro internacional, coadjuvada por um governo apostado em cumprir enquanto é tempo de exceção troikista um programa ideológico neoliberal.

Poderíamos dizer que aquilo que têm os portugueses antes de mais nada é aquela sensação de azia no estômago própria de quem foi enganado. Não me interessa neste texto explorar as razões profundas do engano. Mas de há muito que os portugueses ou votam no PS que os engana ou no PSD que os desengana. “Basta de sacrifícios!”, dizia Coelho quando preparava o KO a Sócrates. Foi o que este fez: pôs-se a caminho e aterrou em Paris.

O que têm, afinal, os portugueses? O que será que tínhamos e já não temos? Não vou repetir o que todos sabemos. Prefiro pôr a questão ao contrário, como modo de começar a dar a volta à situação. Podemos pensar, por exemplo, que é ainda muito mais o que temos do que aquilo que nos tiraram. E que ou os tiramos de lá ou o muito mais que ainda há para tirar vai ser cada vez mais tirado – é assim, sem pôr nem tirar. Temos ainda tanta coisa! Que coisas têm os portugueses que são muito deles? São tantas que não cabem aqui. Faço portanto um exercício de seleção e falo apenas de 2: a aldeia e o dentista.

1. A aldeia. Já alguém escreveu algures que todo o português tem uma aldeia. Desde aí tenho verificado o acerto da observação. Quatro em cada 10 portugueses que vivem em Portugal estão nas áreas metropolitanas de Pporto e Lisboa. Mas, mesmo assim, a esmagadora maioria deles tem uma aldeia. Foi por isso que se fizeram tantas vias rápidas, foi para poderem ir à terra deles nas pontes e fins de semana alargados, no tempo em que havia imensos feriados e SCUT. Mas em vez disso vieram ainda mais alguns da aldeia para o litoral, naquela teimosia lusa de fazermos sempre ao contrário.

Os que não têm uma aldeia arranjam sucedâneos. O principal é a compulsão a cultivar algo, que é o que faz qualquer um que vive na aldeia. Cultivar algo num recanto qualquer, couves-galegas em vasos, ervas aromáticas em floreiras num 5.º andar, salsa e alfaces numa banheira de ferro à saída da porta, limoeiros anões, tomateiros e cebolo em terraços recuados, hortícolas várias em pequenos quintais entalados entre prédios. Os verdadeiramente urbanos, para quem a cidade é uma respiração e uma arte de viver, mesmo esses têm um fundo inconsciente em que mora a aldeia – e é vê-los a inventar essa coisa pós-moderna das hortas urbanas e a fazer cursos de permacultura.

Ter uma aldeia tem muitas vantagens. Quem tem uma aldeia tem um retiro de férias no verão, tem chouriço e presunto no inverno. No verão, nas férias, tem pencas e tomates, cebolas, pimentos, agriões da borda dos ribeiros, frutas várias e feijão chícharo. E, ao regressar, ajouja os amortecedores do carro ao peso de abóboras e batatas, beterrabas e bróculos, amêndoas e alfarrobas, aguardente e azeite. Tudo arranjado entre primos e vizinhos, tamanha dádiva só se explica porque na aldeia são todos primos, e os que não são primos são necessariamente vizinhos. Agora nos Reis vou à minha aldeia, que não digo onde é para não terem a tentação de ir lá fazer-se passar por primos, e vou trazer castanhas, barriga de porco salgada e tintol que darão até à Páscoa.

Todo o português tem, repita-se, uma aldeia: Cal de Bois, Colo do Pito, Vale da Rata, Venda da Gaita, Lamas de Cavalo, Torre de Dona Chama, Nabo, Anterronde, Broalhos, só para citar as mais discretas. São todas em Alguidares de Baixo, relativamente a salvo da Ikea e das lojas Sonae e Jerónimo Martins. Enfim, podemos não viver na aldeia, mas a aldeia vive em nós, podemos ser urbanos até à medula, mas somos aldeões até ao tutano.

2. O dentista. Os portugueses dividem-se em 2 grandes grupos: os que vão ao dentista e os que queriam ir. Por enquanto, ainda sou dos que vão. E os que vão não vão a um dentista qualquer, mas ao seu dentista. O seu dentista é melhor do que os outros, e só por razões de força maior se muda. Eis algo que exige uma explicação: por que razão nenhum português gosta de mudar de dentista? Pode haver razões de vário tipo, mas avanço apenas com a psicológica: ninguém gosta de ser visto de babete ao pescoço e boca escancarada, em pose de criança à espera do cerelac; ninguém gosta que ouçam o barulho do seu próprio cuspo, naquele gorgolejar manso que fazem os pequenos aspiradores que nos engancham na beiça; ninguém gosta que lhe digam que o incisivo está com mau aspeto, que tem restos alimentares entre o primeiro e o segundo molar, que tem os dentes incrivelmente tortos ou que tem halitose. De modo que ir ao dentista é um pouco como ir ao ginecologista: fica-se à mostra, indefeso perante a autoridade do especialista a enfiar-nos ferros na boca (foco apenas o caso do dentista). Esta exposição hardcore faz retinir em nós as campainhas infantis da fragilidade e da vulnerabilidade, instaurando-nos um movimento regressivo até ao tempo em que éramos mamíferos no sentido literal da palavra. Resta-nos então criar um laço afetivo forte com aquela figura que, no nosso processo fantasmático, pode destruir-nos com a broca, de modo a apaziguá-la e trazê-la para o nosso lado. E trazemos: apesar de parecer ir castigar-nos aplicando sobre o nosso rosto boquiaberto aquele farol de sala de interrogatório, protege e cuida, tendo como foco a região oral – precisamente a das primeiras gratificações, como sabe qualquer aprendiz de psicologia do desenvolvimento.

Mas ando preocupado com o modo como a lógica de marketing empresarial está a invadir a medicina. Há agora umas clínicas dentárias que nos fazem uma avaliação e nos vendem um plano oral, em suaves prestações. Por mim resisto. Resisto mesmo ao engodo da primeira consulta gratuita, que é aquela em que fazem o plano que irá esticar-nos a seguir. Os portugueses devem conservar o hábito de irem apenas ao seu dentista, que já os vê há muitos anos naqueles preparos e os envolve numa densa relação clínica. A mim, tirarem-me o meu dentista era como arrancarem-me um dente.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

    • Filomena says:

      Prof, confirmo!

      Tenho uma aldeia. A minha mãe, já reformada, vai lá pelo menos uma vez por mês, de comboio, e chega a casa com o seu carrinho de compras supercheio… Eles são diospiros e marmelos da Esperança, sua amiga de infância, tangerinas e salsa da Tia Lurdes, um coelho e uma galinha do Tio Eduardo e por aí adiante.
      Tenho também a minha dentista que me esburaca toda, mas que não troco por nenhum dr. white.
      Ah! E claro que tenho o meu ginecologista, que já mudou de consultório 3 vezes, mas que persigo sempre. Mudar? Claro que não. Por um lado, já conhece bem os cantos à casa e, por outro, sou uma rapariga fiel… eh eh eh

      No comentário acima do meu, o Prof. é adjectivado de brilhante, com B grande! Pois eu cá vou substantivar… O Prof. é uma ESTRELA!!!

      Uns Bons Reis!!!

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