31 Dez 2011, 16:18

Texto de

Opinião

O que espero de 2012?

O que desejo para a minha cidade? Agradecer a Rui Rio, que veio corrigir o regabofe despesista que as cigarras socialistas criaram.

Rui Rio

Rio tornou-se um dos mais lúcidos e válidos políticos portugueses. Foto: DR

Espero um boom de criatividade para descobrir formas de atenuar a sobrecarga económica e forçosamente emocional dos tempos de correm. Também desejo a desdramatização do nosso viver coletivo. Não é com lamúrias inconsequentes que ultrapassamos os difíceis momentos que vivemos.

Que cada um encontre, neste momento de crise, um módico de sabedoria que lhe permita discernir o que é essencial do acessório. E, para nós todos, o essencial, neste momento, prende-se à necessidade de nos adaptarmos à míngua de meios para fazer coisas. Isto é verdade para o governo do país, isto é verdade para governo das famílias.

Uma das características fundamentais dos seres vivos diz respeito à sua capacidade de adaptação a novos envolvimentos, continuamente tocados pela tensão da mudança. Essa capacidade foi e é condição sine qua non para a sobrevivência da espécie. A superior capacidade adaptativa dos pré-hominídeos foi crucial para a ultrapassagem dos constrangimentos impostos pelo habitat e pela luta contra os grandes predadores. Nesse tempo imperava a força das leis biológicas em que os nossos predecessores em pouco se diferenciavam das outras espécies animais.

Só que a partir de determinado momento a pressão biológica foi atenuada e o homem, já homo sapiens, começa a ser regido por leis sócio-históricas que lhe permitem um superior domínio quer do habitat, quer das outras espécies. O homem cultural começa a partir daqui com o culto dos mortos e a criação dos deuses. A criação dos deuses está alicerçada no espanto do homem perante os excessos das forças telúricas, incompreensíveis para os nossos antecessores.

A assunção do homem como ser cultural pressuporia uma superior integridade reflexiva e idoneidade atuante. Mas não, quiçá tocado por alguma “maldição” genésica, o homem continua a expressar a força das determinantes biológicas que lhe permitiram sobreviver no Pleistoceno. Ainda existe muito de agressivamente biológico nos comportamentos do homem hodierno. A cultura ainda é algo muito epidérmico à espécie humana e, como capa etérea que é, rapidamente se rompe quando a pressão do envolvimento faz emergir, em toda a sua força, os mecanismos de defesa do homem.

Por isso, em relação a este país que nos calhou em sorte viver, urge erigir uma ética de comportamentos que permita defender os pressupostos de humanismo em que se alicerça a democracia.

– Não mais subvenções e reformas milionárias para os políticos. Ninguém os obriga a aceitar os cargos de governo da res publica. O sentido de cumprimento de dever deve ser gratificante suficiente para não exigir prebendas acrescidas que não sejam as comuns aos outros cidadãos.

– Exigir uma justiça célere e adequada. Não permitir que os plutocratas criminosos escapem às malhas da lei com manobras dilatórias. Urge reformular o código penal que sancione com dureza os crimes mais hediondos, entre os quais se salientam os excessos de poder discricionário que são apanágio de muitos políticos.

– Limpar o ensino dos miasmas de facilitismo que o corrompeu e permitiu a emergência de exércitos de desempregados tecnicamente analfabetos. Informar a grei que a educação custa, que a cultura é dolorosa e momentaneamente desagradável, que o desenvolvimento científico consubstancia, muitas vezes, atos de coragem e sacrifício, que a elevação de um povo pela via duma formação superior não pode ser deixada aos ventos de ocasião e aos oportunismos políticos. Ter a coragem de eliminar as escolas e cursos excedentários que foram criados para satisfazer os anseios de poder de muitos caciques regionais. Num país com míngua de recursos todo o tostão tem de ser bem gasto. É isso que se pede aos decisores políticos.

– Defender, intransigentemente, o preceito que a medicina, a seguir ao pão para a boca, é o mais forte fator de agregação social. A tessitura moral de um país assenta na forma como as questões da saúde são equacionadas. Aqui não há lugar para alternativas economicistas. Se aceitarmos, como ponto de partida, a universalidade da medicina como um direito inalienável dos povos, urge, da mesma forma que as torres do Aleixo estão a ser deitadas abaixo, destruir todos os locais onde a saúde é vista como mero fator de lucro. Implosão imediata de toda a medicina privada não é um ato terrorista mas uma ação de purga que purificará a ar irrespirável criado por muitos políticos irresponsáveis.

– Redimensionar as forças armadas no seu papel de agregação social, não permitindo exércitos pretorianos alheios ao tecido social de onde emanam, potenciando os homens em armas com um elevado grau de operacionalidade que faça jus ao prestígio internacional que possuem e mereçam a história deste país que, malgrado algumas cobardias ocasionais, se caracterizou pela coragem e heroísmo nas várias frentes de combate. Urge adaptar o número das chefias, reduzindo-as drasticamente, para não termos mais almirantes e generais que marinheiros e soldados. Também a este nível os interesses corporativos têm de ser combatidos.

– Que os nossos empresários cresçam na assunção que os seus funcionários não são escravos mas sim parceiros fundamentais para a consecução dos projetos que desejem levar a cabo. Mais que trabalho barato devem exigir competência profissional pois esta, à la longue, rende mais que aquele. Que os donos do capital assumam o risco de investir agora. Agora, quando os melhores tendem a emigrar, exaurindo o país dos recursos humanos mais válidos e melhor adaptados para a renovação de conceitos e atitudes no trabalho. É dever patriótico dos patrões não desistir ao primeiro desaire e ouvir os seus empregados na procura das melhores soluções para cada empresa. É nas situações de contraciclo que se vêem os grandes empresários.

– Que as centrais sindicais deixem de funcionar como correias de transmissão de alguns poderes políticos esclerosados e fixados num passado que não mais existe e ajudem os trabalhadores com intervenções pedagógicas que permitam elevar o trabalhador a parceiro consciente do processo de produção. Em situações de procura da sobrevivência todos os radicalismos são condenáveis e, visando a manutenção dos postos de trabalho, os trabalhadores têm que ser flexíveis e colocar mais a inteligência e menos a emoção na resolução dos seus problemas profissionais.

– Desejo veementemente que o governo tenha coragem para a despudorada falta de sentido patriótico de alguns senhores. Que meta na ordem os pilotos da TAP e os maquinistas da CP e outros setores profissionais que, por serem estratégicos, abusam do seu poder, afetando a vida de todos os portugueses com greves espúrias. Como é possível um governante, verdadeiro criminoso da res publica, admitir acordos com os pilotos que os tornam parcialmente donos da empresa onde trabalham? Não há nenhum tribunal capaz de condenar esse político? Aceito, por imperativo patriótico, que os governantes me reduzam parte significativa dos meus proventos de trabalho para salvar o país da falência. Todos temos que colaborar na solução porque também todos contribuímos, uns mais outros menos, para o problema. Por isso, exijo que os pilotos da TAP sejam metidos na ordem, mesmo que para isso se tenham de fazer leis ad hoc que os levem à prisão quando exorbitam nas suas reivindicações. Não se pode brincar com um país pobre como o nosso e, esses senhores, já andam a brincar connosco há muitos anos.

O que desejo para a minha cidade?

Para já agradecer a um senhor que se chama Rui Rio que conheço desde miúdo como empenhado praticante de atletismo no CDUP e que se tornou um dos mais lúcidos e válidos políticos portugueses. Rui Rio veio corrigir o regabofe despesista que as cigarras socialistas criaram com uma rede de clientelismo que permitiu a emergência ao poder municipal dessa inconsequência política que se chamou Nuno Cardoso, fautor de cedências fáceis a poderes fáticos sem legitimidade social e política por muito que proclamem urbi et orbe a fama da cidade.

Nada me move contra os socialistas que têm recebido frequentemente o meu voto nas legislativas. Nas autárquicas, como moro em Gaia, não tenho outra alternativa que não seja votar em Luís Filipe Menezes, que transformou uma cidade esteticamente execrável numa agradável sítio para viver, apetrechado com múltiplas valências que a tornam um pólo de desenvolvimento regional e nacional elogiado internacionalmente. Na mesma linha de reconhecimento do que é válido no meu país reconheço o gigantesco trabalho de António Costa no município da capital, que se esforça em sanear os gastos excessivos e supérfluos que muitos dos seus antecedentes criaram e que condicionaram o futuro de Lisboa. Amo o meu país, e tudo e todos que contribuam para o seu engrandecimento receberão o tributo da minha gratidão qualquer que seja o seu quadrante político.

Desejo com esperança que os partidos políticos tocados por Atena, deusa da sabedoria e coragem, saibam escolher os líderes que governarão as 2 cidades que me estruturaram o ser – Porto e Gaia, esperando no futuro vê-las unidas numa só. Porto-Gaia são as faces de uma mesma moeda que se poderá constituir como força agregadora do melhor que temos e somos.

Para a Universidade do Porto, da qual faço parte, sonho vê-la, rapidamente, entre as melhores 100 do mundo. Capital humano possui com suficiência em quantidade e qualidade para atingir tal desiderato. Espero que as forças endógenas que nos movem não sejam nunca bloqueadas pelas resistências internas e externas dos instalados na vida. Temos que ser eternamente insatisfeitos, tocados pelo sentimento de incompletude, para cumprirmos o fim último da Universidade – criar excelência na ciência cada vez mais impregnada de sabedoria humanista.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. André Vilhena says:

    “fautor de cedências fáceis a poderes fáticos sem legitimidade social e política por muito que proclamem urbi et orbe a fama da cidade”.
    Não me vai dizer que é o Benfica que dá fama à cidade do Porto ou que tem legitimidade social e política, pelo menos aqui no Porto..Estes “portuenses” que tanto “amam, adoram, idolatram” a cidade, afinal, é tudo uma treta..vai-se a ver e são adeptos de um clube que fica a 300 km e é o símbolo do Portugalzinho de antanho, do garrafão, e do centralismo parolo , bacoco , patego, que asfixia tudo à sua volta, qual erva daninha…A letra não diz com a careta, meu caro senhor..Amam tanto o Porto e atacam tanto um dos seus MAIORES ÍCONES E SÍMBOLOS que ostenta, orgulhosamente, o nome da cidade e que tanto a prestigia: F.C.POrto..Não é o F.C.Porto que está a mais, o que está a mais são estes jacobinos sem terra que deveriam fazer a mala de cartão e zarpar daqui para fora,e ficando, apenas, os legítimos defensores da cidade a lutarem por um Porto melhor.

  2. José Nogueira says:

    Faço minhas palavras de André Vilhena e digo mais:
    1. Desejo boa viagem e um resto de vida política feliz ao Dr. Rui Rio em Lisboa;
    2. Gostaria que os “portuenses”, que só o são de nascença, e que vivem na Capital do Império à sombra do Poder Central, que falassem só do que conhecem e que deixassem de dizer mal permanentemente da Invicta;
    3. Dos portuenses residentes que se aproveitam da sua visibilidade mediática para SÓ exporem os aspectos negativos da nossa cidade, que os há, indiscutivelmente;
    4. Peço ao futuro Presidente da CMP, seja ele qual for, que trabalhe afincadamente com TODOS, jovens e velhos, portuenses ou não, nacionais ou estrangeiros, que vivem a/na nossa querida cidade, que a amam incondicionalmente e que a querem (estão a!) melhorar, transformar e tornar mais atraente para os muitos milhares (como eu) que adorariam viver no Porto e que, para já, devido essencialmente a condicionalismos económicos, o não podem fazer. Ainda não perdi a esperança, aos 56 anos, de viver o resto dos meus dias na Invicta.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.