18 Nov 2011, 19:26

Texto de

Opinião

O que é que a baiana tem? Notas sobre a pretensa singularidade do Porto

Há uma coisa que me intriga: a mania de que o Porto é especial. A única coisa de especial no Porto é o FC Porto. Tudo o resto é como nas demais cidades.

Porto

Foto: Flickr

Há uma coisa que me intriga nas gentes do Porto: a mania de que o Porto é especial. Aviso já de entrada: a única coisa de especial no Porto é o FC Porto. Tudo o resto é como nas demais cidades, tudo são casas, algumas delas monumentos, alguns dentre eles soberbos monumentos, tudo são ruas, algumas delas bonitas, muitas delas feias, outras nem bonitas nem feias, tudo nelas é gente na rua para cá e para lá, gente bonita e outra feia e outra nem bonita nem feia, gente que come nos restaurantes e bebe nos sítios onde é para beber.

Tem o rio Douro, é certo. Mas que tem o rio Douro que falte aos outros rios? Tem beleza, o Douro. Corre manso, e corre bravo quando o inverno o tira das margens. É belo como qualquer rio, tem esqueletos no fundo como qualquer rio aos pés duma cidade, tem frigoríficos e pneus e colchões. Se, por artes do aquecimento global, o Douro secasse de repente, os portuenses fugiriam de nojo ao descortinar-lhe o bojo: toneladas de lixo. Lixo para todos os gostos, lixo grosso e lixo fino, lixo-limo e lixo-fóssil, estratificado para contar aos vindouros a história do que fazíamos.

E mesmo à tona, mesmo à tona ali onde o rio da Vila, que corre subterrâneo Mousinho da Silveira e Rua de S. João abaixo, ali onde o rio da Vila se desata no Douro em plena praça da Ribeira, é vê-las à tona: tainhas empurrando tainhas, tainhas tão aglomeradas que algumas ficam fora de água encavalitadas no lombo das outras, tainhas aos milhares comendo dejetos. Podemos dizer da tainha como do burro e da palha: todo o peixe come merda, a questão é saber dar-lha.

Depois dizem-me do Porto que foi capaz de dar Garrett, Camilo, António Nobre, Raul Brandão. Mas que grande cidade não teve os seus grandes escritores? Não aprecio as conceções personalistas da história, não aprecio as conceções personalistas do presente. Firmar a originalidade dum sítio com base nos seus grandes vultos é quase sempre ficar empatado, porque todas as cidades e todos os países têm grandes vultos, menos o Luxemburgo.

Daqui houve nome Portugal, disse um dia Eugénio de Andrade, portuense de adoção. E de Guimarães também houve. E de Tomar, de Évora, de Almeida, de Aljubarrota. Mas vamos para o tempo presente: o Porto gosta de se orgulhar de ter tido as primeiras bandas do chamado rock português. Não sei se isso não é mau logo à partida, mas admitindo que é bom, é tão verdade como as ter havido também em Lisboa ou em Coimbra. E depois já não há paciência para Velosos ou Reininhos – fizeram lume a seu tempo, mas agora tudo isso Jafumega. Álvaro Siza e Souto Moura projetam-nos no mundo (dos que andam atentos à cultura), mas depois a bajulice do 8 ou 80, neste caso 80, erige-os em mitos e não damos conta de que há outros arquitetos. Idem com Manoel de Oliveira – aqui concedo que tem algo de especial, algo que Tarantino ou Spielberg não têm. Mas nada prova, por enquanto, que não possam também chegar aos 102 anos.

Dizem-me depois dos grandes comerciantes, dos grandes industriais. Preferia às vezes que falassem também dos operários, dos que vieram da enxada e se amontoaram nas ilhas das traseiras da burguesia, dos que vieram encaixar-se nos blocos dos bairros sociais que agora os poderes autárquicos só vêem como um problema.

Que é que a baiana tem? (Para evocar um tema clássico do nordeste brasileiro). A culinária? Porto, capital do bacalhau, desde o mestre Gomes de Sá, que viveu no Muro dos Bacalhoeiros, aos que fizeram das tripas o coração da gastronomia tripeira? Mas que cidade não aprendeu a fazer do simples alimento um regalo único? Que cidadezinha será essa que não tem um petisco especial para brindar os forasteiros? Reconheço que é preciso imaginação para fazer um prato saboroso a partir das tripas dum ruminante. Mas os de Madagáscar também fizeram iguarias com o pénis de zebú, muitos outros com cobras e lagartos, com baratas, com aranhas – e mesmo alguns connosco próprios, afinal somos bichos e se comemos os outros também nos podemos comer a nós…

Não percebo, não descortino, não sei – onde está essa coisa especial do Porto. Essa que faz dos portuenses seres convencidos de que são uma naçoum – assim mesmo, como poum e limoum. O vinho do Porto? Mas faz-se em vários lados por esse mundo fora! E depois não é do Porto, é da Régua, do Pinhão, do Pocinho, de tanta terriola pelo Douro adiante. E depois não se armazena e exporta no Porto, mas em Gaia.

Depois vêm com a alma, com aquilo de sermos uma cidade intimista, fechada no granito, protegida na bruma que se desprende da sua epiderme marítima, a cidade dos matizes de cinzento que só se descobre a custo como o encanto das mulheres envergonhadas. A bruma do Porto é diferente da de Portimão? E o musgo do granito não é o musgo que há em qualquer outro granito? O Porto é mais intimista que Leiria? É preciso descobri-lo mais do que a outro lado qualquer? Ou isso é uma presunção desta nossa necessidade de nos sentirmos únicos? Que raio fez o Porto para se achar especial?

Sou do Porto, nasci no Porto, luto por ele como lutaria por Freixo de Numão se tivesse nascido em Freixo de Numão. É uma coisa que me ultrapassa, que vem inscrita no nosso modo de estar no mundo, lutamos pelo torrão que nos pariu. E depois? Chega. Não tenho paciência. Gosto do Porto, não estou farto dos portuenses – estou farto dos portuenses a falar do Porto.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Tiago Cortez says:

    É especial porque é! É o Porto, é a capital do mundo. Não é racional, é místico. O Porto não é uma cidade, é um ideal não definido.:)

  2. Carlos says:

    É especial porque é o Porto, não sou portuense e acho especial. Se for conforme o seu pensamento nada é especial pois dificilmente encontrará algo que seja único a uma cidade.O Porto é mais intimista que Leiria, Douro é o mais belo rio português, Foz-Ribeira é um passeio único, etc… Não é a cidade mais bonita do mundo, mas para mim é especial, tenho pena daqueles que não vêem o mesmo que eu, pois são esses que perdem.

  3. Manel says:

    Ó Luis Fernandes, ainda bem que não te conheço. Mas porque é que não vais comer carne e escrever para outra cidade qualquer que aches especial. Deves ser mesmo infeliz na Invicta pá! Coitadinho…

  4. Meu caro homónimo,
    Parece-me que o seu problema está na sua formação. Está a pensar de mais e a sentir de menos.
    O que o Porto tem de especial sente-se.
    Não se vê, não se classifica, não se categoriza nem prioriza.
    O Luís está a comparar. E nunca ninguém disse que Lisboa, Évora ou Aljubarrota não tinham nada de especial.
    Agora o Porto, o Puarto, essa naçaum (que na minha opinião é mais nassounh) tem de especial somo nós.
    É uma energia que vem da mistura do cheiro da neblina sobre a Foz com a personalidade das vendedoras ambulantes da Ribeira, da gasolina dos Rabelos com o cheiro da Nortada (sim, que até pode ser da Petrogal ou de Leixões, mas é dos Limos e dos ventos polares).
    O que o Porto tem, é uma paisagem única, que outros terão à sua maneira.
    Nunca ninguém disse que os outros não tinham, mas aí, no Porto, nós Portuenses temos.
    É verdade, perdemos demasiado tempo a bater no peito e demasiado menos a fazer coisas boas pela nossa cidade… Passamos demasiado tempo a ter pena de não sermos Lisboa que a fazermos do nosso Porto um centro único, o melhor do Mundo.
    Eu gostava que o porto fosse a Capital Mundial da Pneumologia (por causa do clima fresco, da humidade, da poupa poluição), da Bacteriologia, por causa desses homense mulheres incríveis que povoam o IPATIMUP, da música, porque temos essa sala emblemática, da Arte Contemporânea, por causa de Serralves e de toda a vida que se sente nas ruas do Centro, da Música, porque o ritmo das ondas com as gaivotas, o som das frestas e ruelas com o eléctrico, são únicos e especiais. Sim, outras cidades têm eléctricos e vento.
    A Capital Mundial da Arquitectura, falou de Siza, sabia que é o arquitecto vivo mais premiado do Mundo? Há outros, certamente mais anónimos, e é isso que é especial.
    A Capital Mundial do Vinho, dos apreciadores de vinho, dos produtores de vinho.
    E porque não, do futebol? O Porto, o Boavista, o Salgueiros… conhece alguma cidade que tenha tanta alma com dois clubes quase moribundos? O Porto tem, nós, Portuenses temos, porque somos assim, com fibra e especiais.
    É claro há muitas outras coisas em muitas outras cidades. Mas não são nossas.
    E estas são.
    Afinal, porque o contratou a Faculdade, se andam por aí tantos professores, ou os jornais, se para escrever há tanta gente?
    Porque quis o Luís fazer tudo isso, e ser lido, se há tantos blogues.
    Certamente, porque sentiu que podia.
    Eu, sou do Porto, não nasci na cidade, mas morei aí a maior parte da minha vida.
    Disse mal do Porto muitas vezes, dos Portuenses tantas mais, dos Portistas um sem conta.
    Mas depois, depois de ter de sair do Porto por razões profissionais, tornei-me mais Portuense, e (pasme-se) mais Portista, eu, um Boavisteiro de gema!
    O Porto dá-nos orgulho, e faz-nos sentir mais fortes.
    As pessoas do Porto não permitiram que a cidade perdesse o Coliseu, nem que Napoleão entrasse aqui.
    O que o Porto tem não se vê. Sente-se.
    Um conselho: Pare, na cidade.
    Deixe-a correr à sua volta, e depois volte e tente ser o melhor do Mundo na sua profissão. Psicólogo, Professor, escritor, bloguista ou blogueiro, Pai, marido,amigo, homem.
    Tenho a certeza que pode conseguir.
    E (também) há-de ser graças ao Porto.

    • Isabel Nunes says:

      Muito bem dito!
      Não nasci no Porto mas fui muito bem adotada e, por isso, estou muito grata às gentes da Invicta e Mui Nobre cidade que tão bem me receberam.
      Bibó Porto!!!!!!!!!!!!

  5. José Sousa Dias says:

    Com todo o respeito que me merece um professor universitário, mas a cidade do Porto é tão rica, tão confortável, que me apetece dizer que a cidade é a minha casa. Para se gostar do Porto ( por favor, não confundam o F C Porto, de que sou apenas simpatizante) é preciso, ou, tem que se gostar do frio, da chuva, do granito. Acho que é preciso conhecer muito bem o Porto, a história, os sítios, os nomes das ruas, mas sobretudo estar na cidade há muitos anos.

  6. É verdade, Luis Fernandes, o Porto é isso. O Luís é uma das pessoas elevadas, capazes de ver,porque se sabe dar tempo, todas as dimensões essenciais de qualquer lugar. Um abraço.

  7. Sérgio Pinto says:

    A sério? Não tens nada melhor para escrever? Faz um favor a ti próprio e dedica-te a outra coisa.

  8. David says:

    Não sou do Porto, sou até de muito longe, mas bastou-me viver lá um ano e picos para ficar a sentir o Porto como a melhor cidade do mundo.
    Obviamente não visitarei nem viverei nunca em todas as cidades do mundo mas tenho a certeza absoluta de que o Porto é a melhor cidade do mundo.
    Não consigo perceber portuenses que de alguma forma diminuem o Porto, tal como não consigo perceber, por exemplo, portuenses benfiquistas, mas é lá com eles, o problema é deles, a infelicidade é deles.
    No Porto tudo é especial e o FCPorto é muito especial e também é, sem dúvida nenhuma para mim, o melhor clube do mundo, embora neste preciso momento esteja num dos piores momentos da sua história.

  9. Antonio Brogueira says:

    só mais um ponto, fc porto é que é especial na cidade do porto? tenho pena de quem diga isso, até me sinto revoltado, um professor da faculdade??? não seja triste, demonstra uma falta de cultura e bom senso. O senhor conseguiu fazer neste textinho em portugues de novo acordo ortográfico uma declaração que por si só chega a sua fotografia, abra os olhos e ponha se a andar… ignorância como a sua é contagiante e perigosa…

  10. pedro pinheiro says:

    Pronto! vocês são uns nabos! o homem já percebeu a interactividade nuito antes de vocês… então não veêm que ele acaba através das vossas palavras a afirmar a singularidade e especialidade do Porto? retirar o fcp da história foi para retirar o óbvio… grande artigo, grande provocador!

  11. Maria Correia says:

    O que o Porto tem mesmo de especial são as pessoas.As que cá nasceram e vivem,apesar de textos como estes.
    São aqueles que nunca trocaram esta cidade por outras.Sobretudo pela capital,onde ganhar dinheiro e subir na vida é provavelmente mais fácil.
    Ser do Porto é ficar.Insistir.Ficar.

  12. Maria Rita says:

    Caro Luís Fernandes,

    Cada um tem direito à sua opinião, e isso é inquestionável. No entanto considero que há opiniões e opiniões… Não entendo como sendo do Porto é capaz de dizer que, e passo a citar “Tudo o resto é como nas demais cidades, tudo são casas, algumas delas monumentos, alguns dentre eles soberbos monumentos,..” . Então depreendo que para si não há nenhuma cidade que lhe desperte um sentimento especial, um carinho maior que por outra cidade qualquer!? Em mim, o Porto desperta-me um sentimento de alegria e paz.. sempre que vou até à Baixa, à Ribeira, como muito a outros locais do Porto sinto-me como se fosse uma turista e descobro sempre novos locais e encantos. Sim, são casas, ruas e monumentos mas têm uma particularidade que marca muita gente, e o Sr. Luis Fernandes faz parte de uma minoria que não acha o Porto especial. Mais que ruas, casas e monumentos, o Porto tem as pessoas, os portuenses, que tornam a cidade hospitaleira e especial! E são essas as pessoas que têm orgulho da cidade que gostam de falar e enaltecer. E falam com razão, pois caso não saiba o Porto já foi considerado uma das mais belas cidades para se visitar (https://apps.facebook.com/theguardian/travel/2011/nov/06/travel-portugal-vintage-porto) por revistas internacionais.
    Peço desculpa pelo meu comentário, que poderá estar algo repetitivo ou incoerente, mas tive de expor a minha opinião relativa à sua crónica.
    Nasci no Porto e sou daquelas que não se cansa de falar da beleza da minha cidade.. tenho muito orgulho no Porto e nos Portuenses e só espero que continuem assim!
    Sempre que alguém tem orgulho em algo não se cansa de falar nisso e dado que a minha cidade é realmente um motivo de orgulho eu, tal como muitos outros, não me canso de falar nela.
    E peço desculpa se o ofender, mas se o Sr. não sabe o que é ter orgulho de algo deve ser muito infeliz!

    Mas como mencionei no início, cada um tem direito à sua opinião e esta é a minha.

    Os meus melhores cumprimentos,
    Maria Rita

  13. Anónimo says:

    Se está tão farto dos portuenses a falar do Porto, porque é que acabou de o fazer e sem sequer sair-se bem nisso?

    Perdeu uma óptima oportunidade de aperceber-se que, nem os seus momentos pseudo cómicos cronistas valem a pena, nem as suas observações são profundas. Podia ter-se abstido de comentar e transformar-se num dos portuenses que o irrita.

  14. Valério says:

    Caro Luís. Apenas hoje li pela 1ª vez as suas crónicas / opiniões aqui no Porto24. Li e voltei a ler.
    Não tenho por hábito comentar blogs, opiniões e outras situações, mas neste texto, tive que opinar…
    Sabe, identifiquei-me muito com o texto, por vários motivos: a gente vive em diferentes cidades e ao fim de algum tempo na vida de saltimbanco, começa a perceber que há muita coisa real, comum em tantos outros sítios por onde já passou… Mas deixe-me dizer uma coisa: o Porto é especial (e o Luís sabe-o tão bem). Tanto o sabe, que escreve e o descreve desta maneira.
    Não sendo portuense de naturalidade nem tão pouco de crescimento, pois cheguei ao Porto homem feito, hoje digo: São tantos os motivos que me fazem ficar… Concordo e revejo-me na crítica que faz aos “portuenses de gema”, tripeiros, do mais bairrista que conheço e também digo que chega a ser doentia a (des)necessidade do tripeiro dizer que o seu Puorto é melhor que todas as cidades. Mete outras que conheço a um canto! Cidade que junta mar e rio numa só paisagem, eleva os canones de beleza citadina a um nível difícil de atingir; um Parque da Cidade que desagua na foz (local perfeito para a forma física – de preferência sem nortada). E as pessoas e a comidinha… há de tudo – do excelente ao intragável, como em tantos outros locais… Mas permitam-me portuenses de gema: o Porto também é meu! e é sim, especial!
    A si, Luís, um grande abraço! E continue por muito tempo a agitar o pessoal que “o lê”.

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