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Foto: Arq/Hugo Magalhães

30 Jan 2014, 9:20

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Opinião

O programa na gaveta!

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Nesta altura, em que retomo a colaboração com o Porto24 (com quem tinha colaborado no âmbito das eleições autárquicas), não posso deixar de abordar a coligação pós eleitoral que foi subscrita pela candidatura de Rui Moreira (com o apoio do CDS) e o PS.

E vou analisá-la em termos comparativos com a situação que se viveu no Porto na sequência das eleições autárquicas de 2001, nas quais fui um dos protagonistas.

Efetivamente, nessas eleições, como recordarão os mais atentos e com memória, a coligação PSD/CDS, liderada por Rui Rio, elegeu 6 elementos para a Câmara, tantos como o PS (cuja lista foi liderada por Fernando Gomes). A CDU, cuja lista encabecei, elegeu um Vereador.

Na altura, e na sequência de um contacto feito por Rui Rio, dialoguei com ele, comunicando-lhe que o  Vereador da CDU estava disponível para aceitar a delegação de competências (vulgo Pelouro) desde que: i) as competências fossem dignas, ou seja, o pelouro tivesse efetiva capacidade para resolver problemas da cidade e da sua população; ii) a delegação de competências fosse acompanhada pela transferência dos necessários meios humanos e financeiros; iii) a aceitação de qualquer pelouro não pusesse em causa a total independência política do Vereador da CDU, cujo único compromisso seria com os seus eleitores e com o programa que lhes tinha apresentado.

Rui Rio aceitou esta posição que, curiosamente, Nuno Cardoso não tinha aceitado quando, dois anos antes e recém-empossado Presidente da Câmara, me tinha questionado sobre a disponibilidade para aceitar um Pelouro (tendo, na mesma altura, atribuído im Pelouro ao General Carlos Azeredo, que encabeçara a coligação PSD/CDS).

Assim, entre 2002 e 2005 assumi importantes responsabilidades na Câmara. Este facto não me impediu de ser, digo-o sem imodéstia, o principal e mais consequente crítico de políticas de Rui Rio e dos seus Vereadores, ao mesmo tempo que, sem problemas, defendi várias propostas que estes apresentavam e que, a mim e à CDU, pareciam positivas para a cidade e para a sua população.

Durante estes quatro anos, o PS (com Manuel Pizarro na primeira linha) zurzia-me todos os dias, dizendo que “a CDU estava coligada com a direita”, que “a CDU era a muleta da direita”, que “o Vereador da CDU era o sustentáculo de Rio”, etc., etc., etc..

Mas, esse mesmo PS e esse mesmo Manuel Pizarro, em 2013, o que é que fazem?

Depois da maior derrota eleitoral de sempre do PS na cidade, curiosamente com as melhores condições objetivas para poder recuperar a presidência da Câmara (PSD e CDS separados, PS ausente do Governo, Direita numa situação de grande desgaste em consequência das políticas governativas), o PS, dizia, disponibilizou-se para assumir pelouros.

Até aí, na minha opinião, nada a opor (embora seja normal, no PS, os protagonistas das derrotas demitirem-se…). No poder autárquico, em coerência com a defesa que faço dos executivos pluripartidários, defendo a assunção de Pelouros pelos diversos eleitos.

O problema é que, ao contrário do que Manuel Pizarro disse no discurso da noite eleitoral, o PS abdicou do programa que tinha apresentado aos eleitores, passando a ser um executante do programa de Rui Moreira!

Efetivamente, o acordo subscrito por ambos diz expressamente: “A governação municipal respeitará as linhas fundamentais do programa eleitoral do Primeiro Signatário, maioritariamente sufragado pela população da cidade”, ou seja, o programa de Rui Moreira!

O PS, conhecido por ter colocado o socialismo na gaveta, colocou, na mesma (que é tão funda!), o programa que tinha apresentado aos Portuenses… Traindo, desse modo, os seus eleitores e desvirtuando a riqueza do poder local democrático em cuja génese está o debate de ideias e de programas!

Assim, enquanto o Vereador da CDU, no mandato 2002/2005, votou contra diversas propostas da coligação PSD/CDS (salvas, na sua maioria, pelo voto comprometido do PS…), no mandato 2013/2017 vemos, como tem acontecido até agora, os eleitos do PS a serem os mais fervorosos defensores das políticas de Rui Moreira e do CDS. Ou seja, eleitos domesticados!

Perante esta situação, alguns “comentadores” que tanto criticaram a CDU acham que, no Porto, com este acordo, “se fez história”…

Manuel Pizarro e o PS antes das eleições “propunham” um programa de Esquerda. Depois das eleições comprometem-se a executar o programa do candidato que apelidaram de ”direita” e dos “ricos”! Ou seja, para Manuel Pizarro e para o PS, o Programa e as ideias são verbos de encher. O que interessa é o poder pelo poder…

Rui Sá escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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