19 Dez 2011, 16:35

Texto de

Opinião

O príncipe e o rio

Os insultos do povo gritados da margem direita estão muito longe para ele se preocupar e o barco é fortaleza suficiente.

O príncipe navegou até meio do rio. Chegado ali parou, porque não ia a lado nenhum. Ia ficar para ver. Cerrou a capa, que o vento soprava furioso de Norte marcando a frio este Outono agreste. Fitou lá ao longe, na encosta, as torres mergulhadas na neblina, à espera, como ele.

Este rio que lhe corre por baixo dos pés, reforça a sensação de que está suspenso, imune ao suceder das alvoradas, no centro dos ponteiros que giram, alheios à sua vontade. Dez anos de regência pesam como um cavalo cansado e há muito que ele queria montada fiel, para partir para longe a conquistar outras paragens.

Por isso aqui continua, de cara ao vento, no meio do rio, longe do burburinho que adivinha na margem. Seria bem cansativo ter de os ouvir, nas suas vozes de ignorância, sempre a querer o que não pode ser, o que não deve, o que ele não quer. Se o escolheram há 10 anos, era porque lá fundo o povo sabia que era a ele, ao príncipe, que cabia saber o que querer.

Hoje vai-lhes dar ação, no gesto inequívoco de uma explosão, nem que alguns deles não percebam o gesto criativo desta destruição. São João de Deus os faça ver que as pedras que ele derruba são caminhos abertos, nem que fiquem para ser trilhados por outros. Além do mais, há que conquistar estes espaços, diluir o foco da doença esmagando-o pois, como dizia o florentino, “nenhuma garantia de posse é mais segura do que a ruína”.

O mesmo florentino que um dia escreveu que “o príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros, deve construir fortificações, mas o que tiver mais temor dos estrangeiros do que do povo, não precisa preocupar-se com isso”. Os insultos do povo gritados da margem direita estão muito longe para ele se preocupar e o barco é fortaleza suficiente. E se na margem esquerda não pode confiar, volta-lhe hoje as costas, mas não esquece as batalhas que hão de vir.

Alguém chega de bote ainda a tempo do momento crucial. A água corre barrenta contornando o casco, cheia de vontade de chegar à espuma do mar. Já não falta muito. Fazem-lhe sinal da margem. Ele assente com a cabeça. Ouvem-se as explosões que fazem erguer colunas de água do fosso, que por um momento parecem sustentar a torre que logo de seguida se desfaz num rugido rouco.

Do meio do rio, o príncipe fita a nuvem de poeira que se ergue e o silêncio que se abate, enquanto à sua volta há manifestações de gáudio. Voltou a ficar parado o tempo, depois daquele pequeno solavanco. Esta gente que se agita, a fúria que lá longe se ergue perante a torre destruída, são ecos de algo a que ele já não pertence. Já quase não está cá, navegando parado na sua bolha, no seu barco no meio do rio. Só falta cumprir esta ausência. Não falta muito.

David Pontes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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