3 Jan 2013, 14:17

Texto de

Opinião

O Porto vai mudar

Receio mais Menezes do que o cinzentismo conservador e paroquial de Rio. Por isso, apoiarei abertamente Manuel Pizarro.

Fernando Gomes ficará para sempre associado ao passado recente do Porto. Não apenas pela sua visão e determinação (como no caso do metro ou da criação da Área Metropolitana do Porto), mas também por identificar e perseguir objetivos estrategicamente relevantes, como o de Património da Humanidade e Capital Europeia da Cultura. Além disso, sabia ouvir e envolver todos, dentro e fora da Câmara e dos partidos políticos, era capaz de identificar e dar corpo a boas ideias e, além do mais, sabia afirmar a cidade para lá das suas fronteiras, seja com os seus vizinhos, como junto do governo do país, em Bruxelas, ou em associações como a do Eixo Atlântico e a dos Municípios Ribeirinhos do Douro/Duero.

Seguiram-se anos turbulentos com Nuno Cardoso, onde as muitas realizações ficaram coladas a excessos nos gastos e nos conflitos, entre os quais com Orlando Gaspar e o PS, com Teresa Lago e a Sociedade Porto2001 e, por fim, com Fernando Gomes, de quem foi assessor e sucessor e era suposto ter sido antecessor. E veio Rui Rio, o “contra Gomes”: a cidade fechou-se sobre si mesma, a cultura foi atacada, o CRUARB foi encerrado, acabou o diálogo com Gaia (e diminuiu muito com Maia e Matosinhos e quem quer que fosse), desapareceu o discurso do Norte e da ligação do Porto e do Norte à Galiza, a Castela Leão e ao Mundo.

Em vez de investimento passamos a ouvir falar apenas de poupança, em vez de envolvimento com os outros, passamos ao silêncio amuado e às birras e vetos pessoais, perdendo-se no meio o rasto a qualquer visão de futuro. Felizmente muito do que vinha de Fernando Gomes deixou lastro e o dinamismo do aeroporto Sá Carneiro e da Universidade, aliado à capacidade empreendedora de alguns e à própria resiliência da cidade permitiram que o Porto atravessasse sem excessivos sobressaltos estes longos anos de gestão fechada e desconfiada.

Chega agora, com 2013, o tempo de mudança, sabendo-se que, com as eleições autárquicas, não apenas mudará o presidente, como o estilo e a forma de gestão municipal.

Antes mesmo de se conhecer as escolhas de CDS, PC e BE e de sabermos se é possível existirem “autarcas voadores” que enganem a lei de limitação de mandatos, impõe-se considerar como forte e possibilidade de a opção ser Menezes versus Pizarro.

Face ao cansaço da política de Rio, que se popularizou como oposto a Gomes, corre-se o sério risco da escolha recair agora no oposto de Rio, com Menezes a emergir como o homem dos mil investimentos (e um ou outro “buraco orçamental”), capaz de realizações de “encher o olho”.

Não é agora o tempo de contrariar essa visão, nem de lembrar que o saneamento que permitiu bandeiras azuis nas praias e passadiços sobre o Douro foi obra de Carvalheiras, mas é tempo sim de alertar para as vistas curtas (e pouco cultas) que marcam ações como as que promovem o desaparecimento de algumas caves de vinho do Porto e a construção de parques de estacionamento e restaurantes que tapam o Douro e têm cada vez menos carros e pessoas, entre tantas outras.

É tempo de lembrar que o modelo de “cidade-estrela” da “competitividade acima de tudo” tem os seus limites, e a certa altura as reproduções de um qualquer modelo, seja tipo Barcelona (até com cestas para turistas) ou Bilbao (com arquitetura mais arrojada), pode levar a que, na ânsia da cidade se vender aos outros e ser mais e mais moderna, acabe por perder a sua alma e se transformar numa outra coisa, muito brilhante no presente, mas com menos passado e mais problemas no futuro. Não quero isso para o meu Porto.

Por isso receio mais Luís Filipe Menezes do que o cinzentismo conservador e paroquial de Rui Rio. Por isso, apoiarei abertamente Manuel Pizarro, esperando que o envolvimento de todos favoreça a construção de um projeto que, sem grandes estrelas, nem ações muito arrojadas, seja a soma articulada de muitas pequenas e boas coisas, somáveis à energia de todos e à determinação de alguns em perseguir objetivos estratégicos, orientados para a construção de uma cidade melhor, projetada no Mundo, mas atenta sobretudo à vida dos seus cidadãos.

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Fernando Jesus says:

    Goste fundamentalmente da parte que classifica os mandatos de Fernando Gomes como anos de ouro na vida de uma cidade que caminha a paços largos para uma sombra de cidade, uma cidade fantasma.

  2. Meu caro Rio Fernandes é normal que não subscreva a leitura e análise da política portuense no que diz respeito à sua governança nestas últimas décadas. Mas, numa coisa estamos de acordo, a cidade teve dois pilares políticos a gestão aberta e plural de um Fernando Gomes, que pensou e teve a coragem de ir mais além do que o habitual. E a gestão contida, equilibrada,um pouco fechada de Rui Rio. Dois homens políticos com posturas diferentes mas que se complementam na forma de pensar e de gerir a nossa cidade. O Presidente Rui Rio teve a virtude de consolidar as contas, moralizar a forma de governar a cidade, enquanto que Fernando Gomes foi o iamginativo, o sonhador o poéta da politica para a nossa cidade. Todas as outras figuras são menores e acidentes, dos quais não resta memória. Gomes e Rio deixam assim marcas na forma de governar a cidade. O Futuro que nos interessa é mais sómbrio e mais pobre. Falta liderança, falta programa e falta estratégia. A cidade encalhou para os lados da Afurada. Abraço amigo do FMR

  3. Manuel Martins says:

    Excelente a análise do Prof. Drº. Rio Fernandes – o Porto do sec.XX foi marcado pela liderança forte e indiscutível, de Fernando Gomes.
    O Drº. Rui Rio foi um excelente Contabilista, disso penso também não existirem dúvidas.
    Mas tenho receio da gestão panfletária, inconsequente e despesista de Luis Filipe Menezes – e lamento também dizer que não acredito, por experiência própria, na firmeza e “estatuto político” de Manuel Pizarro para gerir a Cidade – será mal meu, acredito – mas é o meu ponto de vista.

  4. RF says:

    Menezes vai pagar caro os buracos que deixa em Gaia, “penso eu de que” e mais ainda a sua cumplicidade-intimidade-solidariedade com o Dr. Relvas, Passos Coelho e Gaspar.
    Mas Manuel Pizarro merece a confiança de quem se queixa de termos “sempre os mesmos” e merece apoio por si mesmo e não apenas pela fundada desconfiança relativamente aos outros. Pena que, ao contrário do CDS com o PSD, o PC e o BE não no PS o parceiro político e persistam em conversa de esquerda e opções favoráveis à direita.

  5. José Pinto - Medas says:

    Prof. Rio Fernandes

    Aproveito para lhe enviar um abraço e desejar-lhe um feliz Ano de 2013. Subscrevo totalmente as suas palavras dirigidas à cidade do Porto. Eu tenho esperança de que os Portuenses em 2013 usarão a inteligência e sabedoria para não se deixarem enganar novamente.

  6. Nuno Quental says:

    Caro Rio Fernandes
    Texto lúcido e excelente síntese. Concordo com quase tudo mas no que respeita ao Rui Rio acho que está a ser demasiado negativo. Concordo com o cinzentismo da pessoa e na sua falta de visão e de afirmação, mas recordo também a luta recente pela gestão autónoma do Aeroporto do Porto (infelizmente sem sucesso). O ideal seria uma pessoa com o perfil de gestão financeira de Rio e a capacidade mobilizadora de F. Gomes. Não quero defender o Rui Rio porque não tenho apreço suficiente por ele para isso, mas há que o colocar num outro patamar, bem acima, quando falamos de pessoas como Nuno Cardoso ou LF Menezes. De resto de acordo com o risco que corremos com a súbita aterragem de mais um salta-pocinhas… Um abraço.

  7. Teresa costa says:

    O Prof. Rio Fernandes faz uma análise lúcida do xadrez autárquico no Porto.
    O Manuel Pizarro é um excelente candidato, merece ganhar e o Porto precisa que ele ganhe. A subida de Meneses à presidência da Câmara do Porto seria algo desastroso não só para a cidade como para a democracia. Não podemos esquecer e é obrigação de todos nós lembrar todos os dias que a candidatura de Meneses fere o espírito da lei de limitação de mandatos.
    Pena é que alguns falhados da política como esse tal de Manuel Martins, que na Câmara de Gondomar não conseguiu mais que uns míseros dezoito por cento, venham para aqui destilar o seu fel e a sua inveja contra o Manuel Pizarro, pessoa a cujos calcanhares estão a milhas de poder chegar.

  8. Manuel Martins says:

    “D.Teresa da Costa”, ex-muitas coisas e afastada de muitas coisas; a liberdade não tem donos por isso é liberdade, vá-se habituando…minha “democrata” do “esse tal”.
    Fel e inveja não é vocabulário que deva integrer a opinião política – a luta política faz-se de ideias e projectos, do perder e do ganhar,da opinião livre – mas nunca do fazer dívidas eleitorais para obter resultados políticos, nem do viver da política e muito menos do “emprego” pela via da política.Até sempre.

  9. Ainda no seu mandato na Câmara Municipal do Porto, foram desenvolvidos estudos sobre a reabilitação de mercados e feiras e respectivas evoluções recentes e previstas, dos 21 mercados e feiras da cidade do Porto, na valorização cultural, económica e social deste sector. Na sequência do projecto do Metro do Porto (designado por Metro Ligeiro do Porto), adjudica em 1996, o projecto de execução para a reabilitação do Mercado do Bolhão , concluído em 1998, mantendo as características de Mercado Aberto, a alma comercial da venda de produtos frescos, bem como a manutenção do comércio tradicional que nele existe, virado às ruas que o circunscrevem.

  10. fedupofstupitudy says:

    Eis o discurso redondo, medíocre e subcognitivo, digno de um escuteiro idiota adolescente-fora-de-tempo que parece querer criar, espuriamente, a ilusão de um futuro tão harmonioso quanto infantilmente fantasioso, só comparável à construção fantasmática da Coreia do Norte.
    Uma redacção tão imaculadamente alinhada na sua fruste e pseudo-inocente cinzentice é, para além da expressão da incapacidade de pensar, um convite a abdicar do próprio pensamento como possibilidade de questionar o mundo e de construir alternativas. Liquida e esvazia a participação inteligente e responsável no governo da polis, reduzindo-a à propaganda no seu nível mais degradado de elaboração discursiva: a que se encontrava nos “livros de leitura” da escola primária do estado novo. Finge que os cidadãos são facilmente infantilizáveis, incapazes de juízo crítico, de autonomia, avessos à complexidade na reflexão e incultos.
    E é disso, também que este patético texto é sintoma: da incultura no seu estado embrutecido. Se não tivéssemos tido a oportunidade de conhecer por quem o analisou criticamente, como Deleuze, Guattari, Derrida ou Stiegler, tínhamos ao longo desta peça literária o exemplo acabado do conceito de bêtise.
    Não é menos grave que tal produção seja provinda da academia: de facto, ele não pode deixar de ser tido como o sintoma da degradação da instituição universitária, da incultura galopante que a afecta no seu coração (a impotência de construir saber e a perda do saber-teorizar), da sua subordinação à economia como fundamento de uma concepção mercearista do mundo, e da vil e humilhante posição subserviente perante medíocres e atávicos interesses e pequenos desprezíveis poderes de que são feitas fétidas nomenclaturas partidárias.
    O texto é, assim, eloquente pela sua idiotia, ao fazer eco de problemas que não é capaz de formular, qual vírus antes de se inventar o antídoto: a desinstitucionalização por que passa a instituição universitária (incompetência epistémica, desvalorização ética e incúria estética) e a degradação que traveste a propaganda de debate cívico inteligente e responsável.
    Apetece terminar com a citação do parágrafo final, “a construção de um projeto que, sem grandes estrelas, nem ações muito arrojadas, seja a soma articulada de muitas pequenas e boas coisas, somáveis à energia de todos e à determinação de alguns em perseguir objetivos estratégicos”, exemplo esdrúxulo da inocuidade criativa, da mediocridade arrogante e do nanismo intelectual de cretinos parassimpaticotónicos
    . A não ser que a intenção do texto tivesse sido a de arrasar a candidatura autárquica que afirma pretender defender: diabolicamente genial, sendo o caso!

Opinião

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