23 Dez 2013, 19:27

Texto de

Opinião

O Natal e a bela cidade adormecida

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Um prato de comida pode estar mais quente se for dado com amor e em que o Outro se sinta dignificado enquanto pessoa do que travessas cheias de comida quente que são simplesmente despejadas em cima de qualquer mesa para que os desafortunados deem algum sustento ao seu corpo moribundo.

Imagem de perfil de Simão Mata

Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

“Só no Natal é que comemos como deve ser”
(Subsidiário do Rendimento Social de Inserção)

Em época natalícia multiplicam-se os jantares de Natal para os mais carenciados da Cidade do Porto. E nas outras cidades, portuguesas e estrangeiras, o cenário parece ser o mesmo, nascendo de forma espontânea uma solidariedade adormecida e escondida ao longo de todo o ano.

No decurso do meu trabalho de psicólogo com pessoas que foram arrastadas para as malhas da exclusão e da pobreza pela mesma sociedade que ilumina palácios, como dizia pertinentemente o assistente social José António Pinto a semana passada, dizia eu que no decurso do meu trabalho de psicólogo com estas pessoas, uma delas, a certa altura, disse algo que me deixou sem palavras:

“Sabe Dr. já me inscrevi em mais um almoço de Natal. Só no Natal é que comemos como deve ser”

Bem eu lhe poderia referir a rede de respostas ao nível de gabinetes de apoio e de cantinas sociais espalhadas pela cidade e que têm como missão – ao longo de todo o ano – dar suporte alimentar a quem não pode assegurá-la de forma autónoma e independente. Mas a minha resposta, se fosse essa, não teria sentido para aquele que proferia tão nobre conclusão visto que o seu comentário revelava algo de outra natureza. Estava ele a referir-se, mais do que o simples combate da fome e da subnutrição, ao facto de “comer como deve ser”, ao sentir-se aquecido com a refeição depois de ingerida, algo que as cantinas sociais – nobres são elas – não conseguem satisfazer por completo. Toco e sublinho este ponto: o calor da comida não se cinge à sua temperatura em graus celsius mas também à forma como ela é dada com amor e carinho ou, pelo contrário, de um jeito frio e despreocupado. Um prato de comida pode estar mais quente se for dado com amor e em que o Outro se sinta dignificado enquanto pessoa do que travessas cheias de comida quente que são simplesmente despejadas em cima de qualquer mesa para que os desafortunados deem algum sustento ao seu corpo moribundo.

Foto: Cláudia Silva/Arq.

Aquela constatação de alguém que recebe o rendimento social de inserção, que é pobre e não tem dinheiro para comer, nem no Natal, nem no Carnaval, nem na Páscoa, nem em qualquer altura do ano porque vive com aproximadamente 180 euros por mês e destes vão 100 euros mensalmente para um quarto da Segurança Social, sobrando-lhe apenas 80 euros para subsistir, deixou-me completamente sem resposta e, mais profundamente, envergonhado. Envergonhado, por um lado, pelo adormecimento da sociedade civil relativamente à fome que se assiste ao longo de todo o ano num número considerável de portugueses que vive nesta situação de aflição diária pela subsistência e, por outro, envergonhado pela escorja de dirigentes políticos que nos governam e que se recursam em cumprir o significado do verbo “servir” ao longo de todo o ano, esboçando-lhe um entendimento, ainda que prosaico e barroco, do seu significado em épocas natalícias.

Parece que é nesta bela cidade adormecida, que acorda com o beijo das luzes de Natal das ruas e das casas, com as músicas natalícias ridículas que ecoam nos centros comerciais e com os sacos de prendas que se transportam das lojas, que o amor ao próximo parece recrudescer. E talvez o mais triste de tudo isto é percebermos que todo este movimento de miraculosa compaixão pela pobreza alheia revela muito da nossa própria pobreza medíocre, não se desse o caso de muitas vezes só ajudarmos verdadeiramente o Outro quando sabemos que tal ato filantrópico de amor ao próximo não compromete a existência de comida quentinha, em graus celsius e em amor, nas nossas tão fartas mesas de consoada.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24.

  1. solicitar à Secretaria de Educação ocertificado de conclusãocertificado de conclusãocertificado de conclusãocertificado de conclusãocertificado de conclusão, quando tiversido aprovado em todas as matérias do currículo do Telecurso 2000.

  2. Boas!Amanha então vai ser o terceiro grande dia, primeiro e a compra, segundo a desmontagem, terceiro o banho hehehe.Aí para os lados da Inglaterra estou a ver que ainda não chegaram os Empilhadores, é normal a distância é grande ainda vão demorar uns anos a fazer a viagem áquelas exurbitantes velocidades.É só para dizer que até a Clinica AlcanenUMM tem um e já há bastante tempo pela côr.Falando certinho agora, cuidado quando o chassi estiver pronto pois andar a arrastar, empenar, riscar etc só leva a que nao ha a tal perfeição depois no finalBoa SortecUMMpsUMM Cournil Entreperneur Clássico 10-10-1984Gostas de Ajudar os outros UMMistas?Queres ser ajudado quando precisares de alguma coisa?Coopera com a nossa lista de UMMistas amigos e entreajudados.Preenche: http://spreadsheets.google.com/viewform?formkey=dDlpVThZUW9neEVwNkJ1aEx1cHczQXc6MA.. E em breve receberás os contactos e localização de todos os companheiros que cooperaram como tu.

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