22 Set 2012, 15:14

Texto de

Opinião

O monstro precisa de amigos

Boas notícias: o mundo não acabou. Continuo a ter tantos sonhos, mas a estrada para a sua concretização faz-me lembrar as travessias de comboio na velhinha Ponte D. Maria: vão saltando parafusos de cada vez que por lá passa a locomotiva.

"O Monstro Precisa de Amigos", Ornatos Violeta

"O Monstro Precisa de Amigos", Ornatos Violeta

Comprei-o esta semana, o mítico álbum da banda recentemente ressuscitada ao vivo a que um dia ouvi chamar Ornatos Violentos. Se era apenas confusão linguística ou a visão de alguém facilmente impressionável por umas guitarradas mais vigorosas, não sei. Gostava imenso de os ter visto em concerto. Não vi.

Mas sim, eu ainda compro CDs. Uso como desculpa o facto de o rádio do meu carro não ler mp3 mas a verdade é que sou muito tátil, gosto de sentir as coisas nas mãos. Se eu comprar um álbum em mp3 não o posso desembrulhar, folhear o livrinho com as letras e os desenhos, senti-lo como meu.

Voltando ao “monstro”. Há muito que o devia ter comprado. Não é de ontem a minha admiração pelas melodias, quase todas desesperadas, enfeitadas pela voz de chuva de Janeiro do Manel Cruz, voz que se desfaz, escorre lentamente pelas janelas embaciadas de um café. É um dos melhores álbuns feitos neste país. Escapa às críticas do Vitorino, este não é “tristemente ridículo”, como são – na opinião dele – os portugueses que cantam em inglês.

Escutando as 13 faixas do disco agora, 13 anos após o lançamento, sinto as suas letras de forma diferente. Já não estou em vésperas de fazer 20 anos. Já não uso o nome do álbum como mensagem de S.O.S. (lembras-te, chegaste a ficar ofendido comigo por eu me referir a mim próprio como “monstro”?) e já não sou um estudante universitário, nem sequer um jovem licenciado. “Se o meu peito diz coragem”, é por ser um teimoso inato.

O sentimento “para de olhar para mim” há muito passou o seu tempo. Aquela rebeldia alegremente idiota, o orgulho na fealdade, provoca-me esgares sarcásticos. Revejo no ar carregado tudo o que “eu vi mas não agarrei”. E foram tantas coisas, sensações, até – talvez acima de tudo – pessoas. “Uma chaga para lembrar”?

Até a ironia política, ou os trocadilhos que lhe conservam o interesse, me consegue arrancar sorrisos. Poderá Passos Coelho, num acesso íntimo de cantorias, entoar alegremente “não vejo Portas para trás”? Ou convencer-se repetindo “o meu mal é ver que eu vou bem”.

“Ouvi dizer” que o tempo passou e eu “não tive a noção de ver nascer um homem”. O ponto alto. A tremenda ousadia de pôr o Vítor Espadinha a causar-me arrepios: “a cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte”. Perfeito. Eu não escrevi apenas um, mas muitos nomes, uns bonitos, outros feios, alguns saíram-me da garganta há pouco tempo, entre a multidão que descia a Avenida dos Aliados como quem luta para não se afundar de vez.

“Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã. E eu que tinha tantos sonhos para depois”. Boas notícias: o mundo não acabou. Continuo a ter tantos sonhos, mas a estrada para a sua concretização faz-me lembrar as travessias de comboio na velhinha Ponte D. Maria: vão saltando parafusos de cada vez que por lá passa a locomotiva.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.