9 Dez 2012, 14:56

Texto de

Opinião

O freguês e a lista de fiado

Cortes nas freguesias servem apenas para alhear cada vez mais as populações idosas da vida pública e para desmantelar decisivamente o poder de participação cívica e democrática dos cidadãos.

Um freguês é aquele cidadão que compra produtos numa pequena mercearia, que vai a uma tasca cujas paredes transpiram vinho e cheiros de conversas enervadas, que prefere manter-se fiel ao café da rua onde mora em vez de tomar café nespresso em casa, que procura uma venda ou um mercado para fazer as suas compras, evitando assim os labirínticos corredores dos hipermercados cujo epicentro de tal fenómeno reside no barulho repetitivo dos apitos das máquinas sinalizando os produtos comprados. E as expressões que delimitam o freguês, que o fazem emergir no imaginário coletivo, são claramente palpáveis através dos discursos dos mais idosos: “aquele café não têm fregueses”, “tal mercado não têm freguesia” são as frases que ouvimos das pessoas mais velhas, aquelas que cresceram e se desenvolveram sem shoppings e hipermercados, aqueles que pediam emprestados ovos, ou azeite ou outra coisa qualquer ao vizinho quando lhe faltava algo em casa.

Eram, portanto, os fregueses, aqueles que viviam numa comunidade cujas relações eram marcadas pela densidade dos contactos. Um freguês é, assim, aquele que estabelece uma relação intricada entre alguém que vende um produto e aquele que o compra, podendo traduzir-se mesmo em casos de fiado, numa carta de encargos que o freguês terá de cumprir no final do mês, ou da semana, ou passado alguns dias, caso não tenha dinheiro disponível na carteira no momento da compra.

Dir-me-ão alguns que também os Continentes, os Jumbos e companhias Lda têm um sistema que permite que se pague no final do mês os produtos comprados mas desculpem dizer-vos que para mim se tratar de uma relação mediada por um rectângulo plastificado que não compromete profunda nem genuinamente o vendedor e o comprador. Antes introduz uma relação de desconfiança mútua traduzida no sentimento de medo do vendedor nunca mais ver aquela pessoa. Enfim, diria que se desvalorizou o fiado, as folhas de papel em branco dos merceeiros e dos donos das vendas, das tascas que iam fiando o vinho que se ia bebendo durante as discussões de futebol ou política, para se alocarem tais incumpridores em cartões de plástico que iludem quem compra e engordam quem os vende.

Mas o que me traz aqui a este texto, a este local que vos convido através das palavras, é que também era possível, segundo os relatos das pessoas mais idosas, circunscrever um itinerário próprio do freguês – é aquele que por natureza, desenvolve relações de proximidade com os agentes locais, que é conhecido simultaneamente pelo sr. Pereira do café e pela dona Aninhas do mercadinho, que por seu turno é conhecido dos vizinhos. Ou seja, um freguês era aquele que vivia, claro está, numa freguesia, cuja sede de tal vivência quotidiana eram as juntas de freguesia. E, tais juntas, ao serem criadas, tiveram como intento principal permitir um aprofundamento das relações locais, promovendo um maior envolvimento comunitário dos cidadãos/fregueses, garantindo desta forma a acessibilidade de todos à Escola, à Cultura, à Saúde, à Justiça. A junção das freguesias a que se assistimos constitui uma tentativa de subordinação da componente antropológica de cada freguesia à componente economicista dos nossos tempos, porque não bastante garantir o funcionamento de umas juntas através da junção com outras. Muitas das nossas freguesias (e dos nossos fregueses) construíram uma identidade forjada nas relações locais e, tais relações, contribuem para a edificação da identidade cultural de cada comunidade.

Tais freguesias foram também criadas porque o envolvimento político dos cidadãos deve começar exactamente aí – porque os problemas que o café do sr. Pereira atravessa de falta de fregueses (pelas razões que tentei descrever brevemente acima) é um problema à escala local, da freguesia, apesar de possuir certamente uma génese ao nível do Poder Central. Porque quando, enquanto fregueses vamos à junta de freguesia e nos queixamos de determinada situação, estamos naquele preciso momento a fazer política. Cortar nas freguesias é cortar nesta capacidade de qualquer um de nós fazer política e de se sentir representado no órgão democrático mais próximo das populações. Em alturas de crise, o Poder Local deveria ser cada vez mais reforçado porque, mesmo seguindo a lógica das “Políticas de Cortes nas Gorduras” que nos querem vender a troco nomeadamente da viabilidade do pagamento dos salários e das pensões, tal corte nas freguesias traduz-se em apenas 0,1% do Orçamento Geral do Estado. A ser verdade, não posso entender senão que tais cortes sirvam apenas para alhear cada vez mais as populações idosas da vida pública e para desmantelar decisivamente o poder de participação cívica e democrática dos cidadãos. Ainda bem que já não existem as folhas onde se anotavam os fiados porque talvez este Governo tivesse a maior lista de história da nossa democracia, a julgar pelas dívidas que tem deixado ao nosso Povo. Mas desta lista de fiado, desta dívida, o Governo parece nunca querer falar.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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