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25 Fev 2015, 10:55

Texto de

Opinião

O falar das coisas

E eu tentava orientar-me no labirinto de ruas, procurando palavras que me trouxessem um calor familiar, olhando o sol e os edifícios e descobrindo pela primeira vez que a língua é também paisagem e mapa e companhia.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Rebentou uma discussão entre o homem atrás do balcão e o homem de costas dobradas que contava as moedas na mão curvada como um ninho. Foi um instante o concurso de vozes até o homem depositar as moedas no bolso e ir-se embora rosnando. O homem de pele cor de chocolate derretido que se sentava na mesa ao meu lado sorriu e sussurrou-me uma frase. Eu devolvi o sorriso e senti pânico. Percebendo que eu não entendera, levantou a voz numa repetição. Continuei a sorrir e, antes que ele voltasse a elevar a voz, apontei a minha boca e rodei o dedo, tentando explicar nesse fútil gesto que era estrangeiro por um dia numa cidade com a qual não partilhava línguas. O sorriso desapareceu-lhe da cara e ele virou o rosto e a mão num único gesto, como se descobrisse, envergonhado, que tentava falar com um cão.

O passeio continuou depois, pelas ruas, em lojas, mercados. As vozes que ouvia e não entendia eram como silêncio, e a minha própria voz, por mais que a elevasse, não era mais do que um som igual a todos os outros sons que rugem ou sussurram na cidade. As trocas faziam-se por dedos que apontavam ou se levantavam, ou rabiscos de números que se faziam. Um lojista jovem escreveu a conta numa máquina de calcular e apresentou-me esta qual tábua da lei universal. E eu tentava orientar-me no labirinto de ruas, procurando palavras que me trouxessem um calor familiar, olhando o sol e os edifícios e descobrindo pela primeira vez que a língua é também paisagem e mapa e companhia.

Mas no último dia, na última rua, a caminho do aeroporto, um homem abordou-me. Numa língua, e depois noutra, em palavras torcidas para serem entendidas, em gestos, com tudo ao mesmo tempo, contou-me a vida: mostrou as mãos para mostrar que costumava lavar pratos em restaurantes, deslizou os dedos para mostrar quanto tinha vadiado de país em país, apertou os ombros talvez para mostrar o sufoco de uma família demasiado exigente, ou de uma miséria opressiva. Fez-me perguntas a que respondi com a boca e as mãos e o corpo e tudo aquilo que me apareceu no caminho. Trocámos opiniões, pediu-me cigarros que eu não tinha, pediu-me dinheiro que dei. As palavras podem estar em tudo aquilo que se possa tocar.

Jorge PalinhosJorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.