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Foto: Soraya Simonelli

20 Set 2016, 10:17

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Opinião

O céu de Ludovica

Ludovica passou muito perrengue na vida. Ainda jovem teve que cuidar da mãe que foi acometida de uma doença rara e, talvez por isso, ninguém nunca soube afirmar de fato o motivo, tornou-se senil antes do tempo, perdendo a memória de forma inexorável.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Assombrada pelas experiências, o fato é que Ludovica decidira registrar toda a sua vida. Fosse porque imaginava poder consultar as informações quando a memória falhasse, fosse porque criara uma crença de que em vidas futuras voltaria e resgataria a Ludovica desta vida, sim a Ludovica que cuidara da mãe e tal, e poderia dar continuidade a tudo que empreendera e que deixara incompleto, a tudo que avaliara ter sido uma falha, um equívoco, uma decisão errada, corrigindo, portanto os caminhos anteriormente tomados. Afinal, de que serve errar e se não se pode consertar?

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Soraya Simonelli

Com o rigor e a precisão que dizem só os germânicos possuem para executar tarefas, Ludovica, então, passou a fichar todos os livros que lia. Meticulosamente. Com igual dedicação e empenho, criou um diário, onde registrava passo a passo suas ações, emoções, reflexões e conclusões sobre cada acontecimento, relação ou decisão. Não queria desperdiçar nenhum conhecimento já adquirido.

Por óbvio, na maioria das vezes, levava mais tempo a fichar e registrar do que propriamente a desfrutar fosse lá o que fosse e, ainda que alertada pelos mais chegados – Ludovica não ponderava -, a passos resolutos punha cada vez mais alma no desenvolvimento do seu projeto.

Assim é que com o passar do tempo já não havia prateleira que bastasse. Já trocara de apartamento algumas vezes, sempre em busca de um maior ou pelo menos que oferecesse melhores condições de arrumação. Os diários antigos foram transformados em anuários e o fichamento de livros, obedecendo a uma lógica toda especial, foi editado em volumes, por gênero, autor, nacionalidade do autor, quase uma enciclopédia. Quase não, era uma enciclopédia. Em volumes.

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Soraya Simonelli

Quando já não dispunha de recursos financeiros suficientes, a informática veio para salvar Ludovica e seu projeto. Sem abrir mão dos volumes físicos, entregou-se às novas tecnologias. Criou uma fantástica metodologia de produção e arquivamento de obras e, pronto!, experimentou uma felicidade indescritível por imaginar que estariam a salvo, ela e o projeto.

Mas vamos lá, as facilidades muitas vezes provocam exageros e Ludovica, agora totalmente informatizada, já não encontrava modos de garantir as memórias da sua produção. E quando os pen drives, os hds externos pareciam querer traí-la ou subtraí-la, chegaram as nuvens. E sem abrir mão dos back-ups iniciais, Ludovica transferiu tudo para a nuvem. Escolheu uma cor de rosa. Nem tão perto nem tão longe. De tão feliz, permitiu-se um momento de paz. Ligou a televisão ao acaso. Os atletas paralímpicos, em suas paralisias cerebrais, em suas deficiências visuais, em suas doenças raras, corriam, lançavam, saltavam, nadavam. Ludovica parecia não entender. Teriam eles como registrar tudo isso?

Absorta, siderada, capturada por aquelas imagens, não percebeu que o tempo mudara. Devagar e sem alarde, o céu se transformara em chuva, escorrendo o passado, o presente, o futuro.

Marisa Oliveira tem paixão pelo mar, por belos filmes, por viajar. E por ter bons amigos.  Adora ler e escrever e contar estórias. Adora a língua portuguesa. Redonda e macia. Jornalista, colabora em periódicos. Escritora, é autora do romance infanto-juvenil “Guga-Niquim, o menino-homem-onça” e dos contos reunidos no livro “Goiabada Cascão”. Outros contos seus foram publicados em obras coletivas. Brasileira, é carioca da gema.  MO_Bairro dos Livros- Ler é voar_P24-4

Opinião

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