31 Out 2012, 20:27

Texto de

Opinião

O capataz

Os cortes nas prestações sociais prenunciam um dos invernos mais temíveis. Para todos, mas em particular para os idosos.

Ben-Hur

Imagem: DR

Há uma cena no filme “Ben-Hur” em que homens acorrentados, remam, remam, sob a vigilância do capataz e a ameaça do chicote, e se um vacila é açoitado e se outro sucumbe é imediatamente largado no mar, pelos alçapões do galeão. Foi a imagem que me ocorreu quando o ministro Vítor Gaspar perorava sobre a maratona e a capacidade de sacrifício dos portugueses, nas recentes jornadas parlamentares PSD/CDS.

Lançando farpas ou dando recados, o ministro foi afunilando as expectativas quanto a eventuais reajustamentos à proposta de orçamento para 2013 e, embora admitindo uma “curta margem de manobra”, não revelou a menor disponibilidade para desagravar a fatura social.

“A maratona é um desporto individual, o ajustamento é um projeto coletivo. Precisamos de fazer isto todos juntos”, disse, juntando trabalhadores, desempregados e reformados, na “maratona dos sacrifícios”, em ordem à satisfação dos compromissos com a troika. E na fase final da prova, onde chegámos, para não desistir, é preciso “treino e disciplina”.

Pretende o ministro ser visto como treinador, mas na sua atitude, aparentemente displicente e em tom pouco desportivista, padroniza o exercício, ignorando as características dos atletas, e não admite corrigir o seu método de treino.

A mim, lembrou-me o capataz, nas galés, surdo a queixas e protestos e pronto a brandir o chicote. Porque também ele, Vítor Gaspar, não distingue, no esforço, maratonistas jovens e veteranos, recusando a estes – não obstante terem já vencido muitas maratonas, no que despenderam todo o seu vigor – uma velocidade adequada.

À noite, os telejornais noticiavam a morte de idosos, na Europa, devido ao frio.

Por cá, os cortes nas prestações sociais, nomeadamente no que diz respeito à terceira idade, inscritos na proposta de orçamento que o Parlamento aprovou esta quarta-feira na generalidade, prenunciam um dos invernos mais temíveis, para todos, mas em particular para os idosos.

A serem aprovados tais cortes, ficará claro, se dúvidas houvesse, que este Governo prefere tirar aos que já pouco têm, do que enfrentar os poderosos e cortar onde deve.

Um país que não protege os seus idosos é um país que não honra a sua memória.

Mas quem se importa com os velhos – se morrem de fome, de frio, ou de abandono?

Depois daquela vaga fiscalizadora dos lares de terceira idade, há uma meia dúzia de anos, forçada por denúncias de maus tratos, negligência, acidentes e incêndios, que causaram a morte a alguns utentes, alguém quer saber quantos dos equipamentos que então foram encerrados reincidiram, quantas novas unidades abriram portas, entretanto, quantas, enfim, têm alvará de funcionamento e quantas funcionam clandestinamente?

Quem está interessado em apurar se são verdadeiros lares ou armazéns, onde a única lei é a do lucro e os idosos vivem encarcerados, sendo agredidos e sujeitos a todo o tipo de humilhações?

Alguém se preocupa com o espesso silêncio da Segurança Social sobre a matéria?

Voluntários e forçados, continuamos a remar, a remar, a remar…

De quando em vez, temos notícia da morte de um idoso, como um remador que não resistiu e foi lançado ao mar.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

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