2 Fev 2013, 12:57

Texto de

Opinião

O boi vai à escola

Como se preparam as nossas crianças e adolescentes para virem a integrar este mundo de adultos desembestados a chamarem-se reciprocamente bestas?

O ser humano é naturalmente bom ou naturalmente mau? Depende dos exemplos que escolhermos. Por mim, digo que é bom e mau, generoso e avarento, altruísta e egoísta, sofisticado e boçal, idealista e materialista, inteligente e estúpido, meigo e violento, bonito e feio, bestial e besta. Somos de tudo isso um pouco e tudo ao mesmo tempo, e é isso que faz do mundo humano um caso único no reino animal. A diferença entre o homem e a besta é que esta não tem de passar o tempo a tentar não se comportar como um homem (a frase não é minha, o que muito me custa). E é pois da besta que quero falar. Não da besta-besta, mas da besta que anda na boca das pessoas. “Sua besta!”.

Advertência: ilustrarei a tese que aqui desenvolvo apenas com impropérios de grau 1 numa escala de 3. Pode o leitor facilmente substituir os que aqui aplico pelos de grau 2, que bem conhece, e pelos de grau 3, dos quais haverá um ou outro que o seu pudor e falta de formação adequada desconhecem.

Como se ensinam as nossas crianças e adolescentes a conviver com isto? Como se preparam para virem a integrar este mundo de adultos desembestados a chamarem-se reciprocamente bestas? Pois bem, a escola dá um bom contributo para a iniciação ao insulto. Coloque-se o leitor nas imediações dum estabelecimento de ensino e faça uma observação naturalista durante os intervalos das aulas. É ou não é uma experiência lexicalmente surpreendente, em que a miudagem treina com afinco todas as palavras da família vocabular de cada um dos representantes do mais destacado vernáculo? É ou não é um exercício de criatividade, combinando de formas inusitadas palavrões clássicos de grau 3 com neologismos ainda por classificar, dada a novidade que apresentam?

A que vem tanto frenesim, a que se destina tanta energia gasta a chamar nomes aos colegas? Tal como os pequenos felinos da pradaria consomem a jornada a andar à porrada na brincadeira preparando os combates a sério do futuro, também as nossas crianças e adolescentes aprendem ferramentas para a vida, exercitando a arma que se tornou mortífera na espécie humana: a língua. Os nomes que se chamam na escola são figuras de estilo para ornamentar brincadeiras verbais, ironias, troças, pequenas humilhações – uma microviolência que acaba por ser naturalizada, preparando-os para a estupidez civilizada do mundo adulto.

Os adultos têm pouco arcaboiço para observar com serenidade este vivaz mundo infantojuvenil: convivem mal com os linguados que as crianças de 4 anos dão no jardim de infância, num morangos com açúcar pré-edipiano; convivem ainda pior com o jargão larvar que junca os recreios e polivalentes das nossas escolas básicas e secundárias. Por vezes confundem agressividade ritualizada – e portanto exercida dentro de convenções coletivas que, vividas pelo lado de dentro, são lúdicas – e diagnosticam bullying, chamando em seguida especialistas vários, que debitarão generalidades deixando a escola como aquele quartel general em Abrantes, em que estava sempre tudo como dantes.

Muito têm debatido as funções da escola, o projeto educativo, as reformas curriculares, o insucesso, a integração das minorias, a escola para todos e outros temas que ocupam os intelectuais da escola e os engenheiros que vão para ministros da educação (já viram a quantidade de engenheiros que, desde Veiga Simão, têm ocupado este ministério??). Mas do que quero falar é do projeto educativo implícito nas práticas espontâneas da escola. Porque os espaços educativos, sejam eles quais forem, são lugares de socializações colaterais. Há todo um tempo vivido na escola que é extracurricular, começa ainda no trajeto até às suas portas, espalha-se pelos entornos, preenche os tempos de intervalo, brota nos interstícios das aulas. E de tal modo brota nalgumas que o interstício passa a ser a própria aula, submersa pela barulheira do convívio da rapaziada.

O assinalável rol de nomeadas bestiais com que se brindam mutuamente é um chilreio de pássaro à solta. O insulto é um fingimento, é às vezes um carinho embrulhado num seu boi! – o boi é terno, animal de olhos mansos e pacatez, precisamente, bovina. O boi anda à solta no recreio como o touro na lezíria ribatejana, são-lhe elogiados os cornos – grande boi!, seu cornudo – já a vaca está menos presente, embora se possa detetar aqui e ali um sua vaca. Na escala dos cumprimentos agressivos ser vaca é pior do que ser boi, atestando também no gado bovino o muito que há a fazer pela igualdade de género.

Seu cabrão! está também no podium da agonística verbal. (Continuo, claro, apenas no grau 1). Mas já aqui a lezíria cede lugar à planície alentejana, onde o único praguejar dos nativos é, justamente, o Ah, mê cabrão! – e consta na cultura local que o pior é quando param subitamente de o chamar a alguém, tolhidos pelo pudor de o epíteto descrever de facto a realidade…

Outras vezes a estocada prefere a fórmula Seu gay!. É das muito repetidas, atestando a visibilidade que granjeou a luta do movimento gay nos nossos dias. O vocábulo gay aparece também nas suas formas pejorativas, como roto e grande paneleiro. Já lésbica não parece constituir motivo para chacota – sua lésbica!, eis algo que não se ouve, rodeando de intrigante silêncio esta orientação sexual, que parece demasiado insossa para se constituir em motivo de gozo. Ao invés do caso bovino, sai aqui a ganhar o género feminino, o que só mostra como os homens também têm motivos para lutar pelo direito à igualdade de género.

Limitei-me, no curto espaço de que disponho, a identificar os três principais insultos – proferidos, em geral, em alegre camaradagem – que circulam nas nossas escolas na região do Porto. Gostava de saber da voz de quem anda pelas nossas escolas qual é o vernáculo mobilizado noutras geografias nacionais. Poderíamos depois elaborar o guia Michelin da asneirada, propondo à UNESCO a sua classificação como património imaterial da humanidade. Portugal sempre abriu novos caminhos ao mundo e não devemos cair na paralisia com o argumento da ocupação estrangeira que o país vive atualmente.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Ana Cristina MArtins says:

    Adorei! Como sempre hilariante mas cheio de desafios ao pensamento.
    Gosto muito da humanidade da introdução sobre a besta (lol), a sério, acho que devemos ter presente a mistura de ingredientes que temos dentro, que facilmente esquecemos.
    Essas discriminaçoes de género, e as questões territoriais do insulto, e a sua actualizaçao dão que pensar! Lembrei-me de um miúdo ter tido um castigo numa escola por ter dito «o Noddy é gay» para um outro que tinha um caderno com esse boneco…
    E a proposta final é de génio! vamos a esse guia! desde o vernáculo gourmet, passando pelo vernáculo light, ao «fast» vernáculo, penso que por cá temos de tudo! para enfrentar a crise, quem sabe? ;))

  2. rui says:

    gostei de tudo. Em particular do detetar da vaca que com o novo acordo ortográfico fica, vá-lá… mais castiço! Um abraço

  3. Logros Consentidos says:

    Muito interessante, embora eu ache que esta temática implicaria alguma liberdade lexical no capítulo do vernáculo. Mas isso, se calhar, chocaria as almas sensíveis…
    Quanto à afirmação de que não existem epítetos mais ou menos insultuosos para a homossexualidade feminina, não é bem verdade. Então que tal “sua fufa!” ou “sua camionista!” ou outros como fressureira, mulher que bate pratos, etc.
    Também não estou de acordo com esse passa-culpismo e branqueamento de comportamentos verdadeiramente asselvajados a que certas teorias, que não as sofridas práticas, denominam de “agressividade ritualizada”. Já ando por cá há umas décadas e quer por experiência própria, de filhos e de outras crianças e jovens, não são poucos os casos em que brutais comportamentos de colegas, marcam para toda a vida até porque há sempre os líderes, que são servil e sabojamente são seguidos pelos elementos não dominantes dos grupos portanto, essa de colorir os infantes é uma utopia como outra qualquer. Os infantes, têm os defeitos do resto do género humano ou pelo menos, andam a treinar.
    Abraço, Luis. Gosto sempre, de o ler, embora nem sempre esteja de acordo.

  4. Porque trabalho numa escola as asneiras são o prato do dia, qual delas a pior e nem me atrevo a transcrevê-las mas a maior asneira que me é dada a conhecer é escrever segundo o novo acordo ortográfico onde as palavras saem mutiladas e sem sentido. É um fato!

Opinião

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