1 Dez 2011, 21:33

Texto de

Opinião

O binómio homem-máquina

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A bicicleta pode ser solução para quem vive na cidade, mas não o será para quem tem de efetuar percursos diários entre a Póvoa do Varzim e a baixa do Porto.

Mobilidade

Foto: SXC

A propósito do último texto, diversos leitores chamaram a atenção para a importância da bicicleta como instrumento para a afirmação de novas formas urbanas de mobilidade. Nada tenho a obstar. Um dos assuntos que me motivou então foi o impacto que cidades não pensadas à escala humana têm no nosso quotidiano. Em que medida o consumo desmesurado de ansiolíticos e antidepressivos podem ser também compreendidos à luz de um quotidiano desumano.

Ou seja, a bicicleta pode ser solução para quem vive na cidade, mas não o será para quem, por exemplo, tem de efetuar percursos diários entre a Póvoa do Varzim e a baixa do Porto. A verdade é que o Grande Porto não foi sequer pensado para o binómio homem bicicleta.

Dizem também que não haverá nada necessariamente errado na nossa relação com as máquinas. A este propósito, recordo um amigo, Rui Azevedo Ribeiro, que montou uma editora tendo por base dispositivos e formas de impressão já caídas em desuso. Chama-lhes “tecnologias obsoletas” e realmente é mais seguro sentir que as máquinas se tornam inúteis e não nos ameaçam – que se tornam ultrapassadas.

Para muitos de nós é isso que a bicicleta é, como meio de transporte: um instrumento que não serve por ineficaz. É bom pensarmos que os avanços tecnológicos melhoram e aumentam o bem-estar humano. Ou existem nuances mais obscuras do binómio? Se pensarmos nas novas psicopatologias associadas ao uso da internet ou no número de pessoas viciadas em videojogos, teremos bastante com que nos preocupar.

Existe também a crescente robotização que elimina vários empregos humanos. O controle laboral tornado possível por programas informáticos que nos querem cada vez mais número, cada vez mais performance sem pensamento.

O binómio homem-máquina (no sentido lato do termo) é bom? Será mau? Se calhar, as duas coisas ao mesmo tempo. As máquinas servem-nos, mas também nos controlam e até alienam – por exemplo, as crianças viciadas em consolas portáteis que já não estão nos recreios das escolas como se costumava estar. Deixaram de querer agir no mundo real porque agem com um simulacro desse mesmo mundo projetado no ecrã.

As máquinas ficam obsoletas e surgem outras mais eficazes que até nos substituem em certas tarefas. São mais céleres? Produzem mais e melhor? Certamente. Mas terá de chegar uma altura para dizer: “basta: sou humano e isso dispensa mais explicações”. A eficácia não pode servir de receita universal, se hoje apelamos para o consumo de produtos portugueses, amanhã poderemos ter de fazer o mesmo em relação a produtos feitos por mãos humanas (manufaturados versus mecanicofaturados).

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Pedro Medina says:

    Até pensei em responder, mas estou tão farto de dizer sempre a mesma coisa que prefiro continuar a ser eficiente, a poupar dinheiro e a ser feliz do que perder tempo com gajos que não se importam de passar a vida dentro de uma lata que lhes come a maior parte do tempo, do orçamento e da paciência.

  2. Sérgio says:

    Pelo mesmo principio, andar também é um acto obsoleto e devemos deixar o fazer. Acho que pelo que escreveu neste artigo, também o Rui está obsoleto e será melhor deixar a máquina seguir em frente. Os leitores agradecem.

  3. Cada um come do que quer. Metro + bicicleta é solução para muita gente que vem da Póvoa (ou da Maia, de Gaia ou de Gondomar) para o Porto. Talvez o Rui não os veja, porque quando está engarrafado na A28 (logo a seguir ao pórtico da portagem :-)) só vê carros e pessoas metidas em carros.

    Claro que o sprawl do Porto existe porque os carros existem, mas há formas inteligentes de eliminar o pópó da equação.

  4. “Não o será para quem, por exemplo, tem de efetuar percursos diários entre a Póvoa do Varzim e a baixa do Porto”. Curioso… eu faço percursos diários do Porto para Braga e o mix bicicleta + comboio serve-me perfeitamente…

  5. Rui Simonetti says:

    “… o consumo desmesurado de ansiolíticos e antidepressivos …”
    Será uma confissão escondida, para a justificação do que escreveu?

  6. Cidades ultrapassadas e medievais como Londres (o Sprawl por definição), Barcelona, Paris, Amesterdão ou Nova Iorque estão anos-luz atrás da metrópole Porto.

    São cidades pequeninas e que regrediram tecnologicamente. É por isso que agora há por lá milhares de novos ciclistas por ano. Chamam-lhe a “bicycle revolution”.

    Que crónica tão patética meu nosso senhor.

  7. Talvez eu esteja a dar um benefício da dúvida mais favorável, mas parece-me que este artigo não está a ser entendido pela maioria, da forma que o seu autor a escreveu – leiam o último parágrafo, e depois voltem a ler o artigo todo nessa perspectiva…

    • Vai dando uma no cravo e outra na ferradura, mas o problema não é a intenção do artigo mas as falsas verdades que lá estão:

      “a bicicleta pode ser solução para quem vive na cidade, mas não o será para quem, por exemplo, tem de efetuar percursos diários entre a Póvoa do Varzim e a baixa do Porto.”

      Isto é cada vez mais uma mentira e só quem não anda de metro ou CP (porque está no carro) não se apercebeu disso.

  8. Miguel, mas infelizmente essa é a realidade… por enquanto “é possível” porque são poucas pessoas a fazer isso… no dia em que a bicicleta começasse a ser usada por mais do que poucas centenas de pessoas, essa solução seria completamente impossível de manter. A realidade é que a dispersão habitacional, provocada pelo modelo baseado na carta de Atenas e na mobilidade automóvel, resultou numa cidade que não tem escala humana. E esse é o problema… Em muitas partes do artigo, parece que ele fala na primeira pessoa, mas na realidade ele está apenas a relatar o raciocínio de muita gente – e esta é a questão fundamental: as cidades têm de mudar e a lógica nas escolhas das pessoas (onde viver, onde trabalhar) também têm de mudar e muito. Creio que veremos as populações dos centros das cidades a aumentar nos próximos anos, mas outro fenómeno que se irá verificar, é o desenvolvimento das “cidades” periféricas às grandes cidades. Cada vez menos, essas zonas serão dormitórios, e passarão a ser centros com vida própria… Este artigo, parece-me ter uma extensão muito maior do que parece numa primeira abordagem.
    Como disse de início, essas soluções que referes para estes problemas de mobilidade são altamente positivas, mas infelizmente têm um carácter de “pensos rápidos” para um problema de escala muito maior. Infelizmente, por enquanto, esses “pensos” são o que nos resta para ir tentando motivar as massas 😉

  9. Nuno Oliveira says:

    Caro Rui Tinoco, é bom ver a bicicleta merecer a atenção e discussão que deveria provocar mais vezes na imprensa em Portugal.

    Convido-o a visitar cidades como Basileia, Edimburgo, Barcelona e Oslo para perceber que o relevo ou clima ou morfologia das cidades não são impedimento. Se quiser também pode passar por Copenhaga ou Amesterdão, cidades do primeiro mundo em que quase 40% dos percursos urbanos são feitos na “obsoleta” bicicleta.

    E acima de tudo, convido-o a fazer uma reportagem, juntando-se a nós nalguns dias de percurso urbano pelo Porto, nos trajectos que costuma fazer. Como a bicicleta vai muito bem no Metro e no Comboio é muito fácil começar.

    http://www.facebook.com/groups/ciclismourbanonoporto/

    Depois pode fazer uma crítica mais informada 😉

    Cumprimentos!

  10. Miguel, por essa lógica, em Londres, o sprawl por definição, ninguém andava de bicicleta.

    Havendo muita gente no metro, mas tanta gente que não dá para aceitar mais, então entram em acção os sistemas de bike-sharing para as deslocações no centro da cidade (a partir da estação) e a bicicleta própria para a vida de bairro no subúrbio.

  11. Ricardo Ferreira says:

    Caro Rui,

    Percebo que o seu artigo é sobre o, eventual, efeito depressivo das máquinas na sua relação com o homem. Mas está cheio de incorrecções e demonstra falta de pesquisa. Eu não a vou fazer por si, mas vou referir alguns dos erros da sua falta de raciocínio.

    Primeiro, a bicicleta não é uma máquina ineficaz. Na verdade, os pedais foram uma enorme evolução na forma de transformar a energia humana em força motriz. Na bicicleta, permitem, com um consumo energético diminuto, percorrer distâncias muito maiores do que a pé.

    Segundo, também não é uma máquina obsoleta. Sem entrar no campo das bicicletas desportivas, que recorrem a materiais da era espacial para perder peso e ganhar rendimento, também nas bicicletas de utilização urbana, a evolução tem sido enorme. Equipamentos mais duradouros, com manutenção menos regular e mais barata, bicicletas dobráveis, bicicletas eléctricas, de carga, acessórios para transporte de crianças são meros exemplos da evolução que se tem verificado.

    Finalmente, como elemento terapêutico e libertador do stress diário, a bicicleta pode também ter um papel a desempenhar. A título de exemplo, refiro que vivo em Oeiras (arredores de Lisboa) e, de vez em quando, tenho de me encontrar com clientes em Lisboa (cerca de 20 kms). Para ir para a cidade, normalmente, apanho o comboio e, em cerca de 30 mns estou no meu destino. Parece impossível, utilizando uma máquina “obsoleta e ineficaz”… Mas o melhor é o regresso que, normalmente, faço a pedal em menos de 1 hora. E nesse tempo, cansei o corpo e descansei a mente. Um maravilhoso dois em um que me permite poupar tempo e dinheiro. Como dizia o Juvenal, “mens sana in corpore sano”.

    Da mesma forma que existe uma utilização abusiva do automóvel, também as outras máquinas carecem de racionalidade no seu uso. Afinal de contas, eu prefiro acreditar que estas existem para nos ajudar e concretizar o potencial da nossa maior ferramenta: o nosso cérebro.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.